BC coloca freio em avanço de bancos sobre plataformas de investimentos

Itaú não poderá comprar controle da XP por um período de oito anos, para preservar competição

Guilherme Benchimol, fundador da XP Investimentos
Guilherme Benchimol, fundador da XP Investimentos - Joel Silva/Folhapress
Mariana Carneiro Ana Paula Ragazzi
Brasília e São Paulo

O Banco Central autorizou a compra de parte da XP Investimentos pelo Itaú Unibanco, mas colocou um freio no avanço dos bancos sobre o mercado de plataformas de investimento. 

Em anúncio feito nesta sexta-feira (10), o BC informou que limitará a participação  do banco na XP em 49,9% do capital total e 30% do capital votante (ações ON, ordinárias).

Em 2022, nova análise será necessária pelo BC, e o Itaú poderá comprar mais 12,5% do capital total da XP, elevando sua participação para 62,4%. No entanto, seu poder sobre as ações com direito a voto não poderá superar 40%.

A restrição é mais rigorosa do que a levantada pelo Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) para dar aval ao negócio, em março. E mostra que o BC agiu para evitar que os grandes bancos controlem um mercado em que começava a despertar a competição.

Empresas como a XP se destacaram nos últimos anos por “roubar” clientela dos bancos, oferecendo um cardápio variado de investimentos, reunindo opções de diferentes instituições em uma plataforma digital aberta, como um supermercado de investimentos.

O modelo, importado dos Estados Unidos, transformou o mercado de corretoras no Brasil, atraindo investidores de classe média para um segmento antes restrito a clientes de alto poder aquisitivo.

No último ano, a XP ampliou o número de clientes de 410 mil para 700 mil e hoje é a líder desse segmento, com cerca de 70% dos clientes que investem fora dos bancos. 

Ao comprar parte da XP, o Itaú entra nesse mercado, recuperando espaço entre os clientes que haviam optado pela desbancarização.

Quando o Itaú fez a oferta pela XP, em maio do ano passado, a empresa de investimentos estava no meio de seu processo de abertura de capital. 

O banco interrompeu o processo e, para isso, pagou o preço que a empresa conseguiria vendendo suas ações na Bolsa —mais alto do que numa venda para um estratégico. 

A razão para o Itaú pagar caro pela XP, segundo esse especialista, está no fato de o banco enxergar que em todas as suas linhas de negócio vencia os concorrentes —a exceção era a seara da XP. 

Por essa análise, o Itaú teria tido o propósito de retirar um competidor do mercado. 

O BC, no entanto, travou o avanço do Itaú, emitindo sinal também para as demais instituições financeiras.

Para receber o aval do BC, os acionistas se comprometeram em manter a independência operacional da XP. Isso significa que o Itaú não terá acesso à base de clientes da XP nem poderá indicar executivos ou influenciar em reuniões dos controladores. E foi além: proibiu tanto o Itaú quanto a XP de comprar outras plataformas abertas de investimentos num período de oito anos. Durante esse mesmo prazo, o Itaú não poderá comprar o controle da XP. 

Rafael Giovani, diretor da corretora Spinelli (que está em fusão com a Concórdia), diz que a medida do BC é positiva para a concorrência. “A mensagem não deve reduzir o apetite dos bancos pelas independentes, mas cria regras para que não sejam mortas.”

 

A competição dessas empresas é com os bancos, por clientes que hoje aplicam em poupança e fundos de investimento ou previdência privada das grandes instituições. “O mercado está longe de ter sido explorado totalmente”, diz.

Para Guilherme Horn, conselheiro da ABFintech (entidade que reúne startups do setor financeiro), o BC agiu para fomentar a competitividade.

“O movimento de bancos tentando comprar fintechs é uma tendência no mundo. É positivo porque oferece uma oportunidade de saída para os empreendedores, mas impõe aos reguladores o desafio de não deixar que isso interfira na competitividade”, disse.

A compra da XP pelo Itaú foi o primeiro negócio avaliado sob o acordo entre Cade e BC para a análise do impacto sobre a concorrência. 

Para observadores, o Cade foi leve nas restrições, diante do risco que poderia representar a compra do controle da XP, e que coube ao BC atuar sobre efeitos concorrenciais.
 

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