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Entenda a turbulência econômica na Argentina e como isso pode afetar o Brasil

Em dois dias, peso argentino acumula desvalorização histórica frente ao dólar

Daniel Pardo
Argentina | BBC News Brasil

Uma queda de 8% na quarta (29) e de 13% na quinta (30). Em dois dias, o peso argentino acumulou uma desvalorização histórica frente ao dólar. A turbulência financeira da Argentina gerou uma corrida às casas de câmbio para comprar dólares, fez com que o país firmasse acordo com o FMI (Fundo Monetário Internacional) para adiantar o repasse de um pacote de ajuda e virou assunto nos jornais dentro e fora do país.

Em quase três anos de mandato, essa é uma das mais graves crises enfrentadas pelo presidente Mauricio Macri, cujo gabinete anunciou nesta semana duas medidas para conter a desvalorização: vender US$ 330 milhões no mercado de valores e subir a taxa de juros a 60%, a mais alta do mundo.

Casa de câmbio na argentina já mostra mínima recorde da moeda no país frente ao dólar
Casa de câmbio na argentina já mostra mínima recorde da moeda no país frente ao dólar - Sylvia Colombo/Folhapress

Ainda assim, o cenário no curto prazo não é promissor. A previsão é de mais inflação, mais incertezas, mais complicações, principalmente para quem depende de crédito ou de importações. A depreciação acelerada da moeda argentina —que já completa 50% em um ano— está associada ao contexto internacional adverso, a erros de Macri e a problemas históricos da economia da Argentina, segundo a avaliação de analistas.

Apesar de a situação do Brasil ser bem diferente (e mais sólida) que a do país vizinho, a economia brasileira também está vulnerável aos fatores que normalmente provocam a pressão cambial, como a elevação das taxas de juros nos Estados Unidos e na União Europeia, e os desequilíbrios macroeconômicos internos. Nesta quinta (31), a moeda norte-americana chegou a ser cotada a R$ 4,2144 e forçou uma intervenção do Banco Central para conter a alta.

Além disso, a Argentina é um dos principais parceiros comerciais do Brasil e importante comprador, principalmente, de veículos fabricados em território brasileiro. Atrás de China e dos EUA, a Argentina é o terceiro maior importador de produtos brasileiros. E, apesar do crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) em 0,2% anunciado nesta sexta no Brasil, o indicador foi pressionado por forte queda da indústria e dos investimentos no segundo segundo trimestre de 2018, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísitica).

Por isso, entender a atual crise da Argentina e como o país está reagindo à crise pode ajudar a prever eventuais riscos e minimizar potenciais danos à economia do Brasil. A BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC, ouviu especialistas e listou três pontos para entender o que está acontecendo com a economia argentina, e como isso pode afetar os países da região.

1. O gradualismo e o ajuste

A desvalorização do peso argentino vem ocorrendo desde dezembro, mas, na quarta-feira, a moeda foi à lona depois de um anúncio do presidente. Macri tentava gerar confiança no mercado. O efeito, no entanto, foi o oposto e as palavras do presidente atraíram ainda mais incertezas.

O episódio entrou para a lista do que alguns chamam de erro da equipe econômica que se autodenominou "a melhor em 50 anos".

Muitos analistas dizem que falta ao governo explicar se vai continuar com o histórico déficit fiscal (despesas maiores que receitas) de um dos países mais assistencialistas da América Latina. Se continuar tentando por fim ao desequilíbrio entre o que arrecada e o que gasta de forma gradual, a Argentina corre risco de sofrer ainda mais com a já elevada inflação. Se preferir reduzir o déficit de pronto, com corte nas despesas, vai dar um duro golpe nos milhões de argentinos que dependem do Estado.

A decisão não é simples, em especial porque Macri e sua coalizão tentarão a reeleição dentro de um ano.

Mas essa ambiguidade em relação à forma como vai encarar a crise, asseguram especialistas, funciona como repelente para investidores.

Macri, empresário e engenheiro, quis resolver a inflação e o déficit herdados de governos passados usando a receita que previa equilibrar contas, emitir dívida e transformar a Argentina em um destino para o turismo financeiro.

E o fez optando pelo ajuste de gastos gradual, o chamado gradualismo econômico, ao invés de apostar em medidas que gerassem, num primeiro momento, "sangue, suor e lágrimas" para reduzir as despesas.

Em maio, quando o mundo assistiu à primeira queda forte do peso em sua gestão, Macri percebeu que os investidores rejeitavam o gradualismo. E, à medida que a incerteza sobre a direção da economia do país aumentava, a Argentina assistiu à fuga de capitais e Macri, aparentemente, ficou sem respostas sobre quais medidas tomar.

2. O contexto internacional

O erro mais grave de Macri, dizem analistas e até integrantes do próprio partido do presidente, foi fazer uma leitura equivocada do contexto internacional. Num momento de protecionismo extremo, Macri decidiu que a Argentina "voltaria ao mundo".

Ao insistir na dependência do financiamento de mercados internacionais, a já histórica vulnerabilidade da economia argentina foi exacerbada. E quando os Estados Unidos elevaram suas taxas de juros, o peso despencou. Quando Donald Trump anunciou novas tarifas sobre o alumínio, o peso caiu. Quando a Turquia entrou em crise, o peso também desvalorizou. E assim tem sido.

Nenhuma outra moeda de mercado emergente sofre tanto quanto a argentina quando há qualquer movimento gerando tensão financeira e política em nível global. Enquanto o governo diz "o mundo não nos acompanhou", os mais críticos falam em erro de cálculo em relação às variáveis externas.

3. A herança histórica

O fato de Macri ser um dos empresários mais ricos da Argentina e de ter sido eleito especialmente para resolver a situação econômica do país dá à crise contornos ainda mais dramáticos.

Ele herdou um Estado com elevado déficit fiscal e inflação, à beira da recessão. As causas, segundo ele, seriam a agenda protecionista de controle de câmbio e a forte emissão de dinheiro para impulsionar o consumo imposta pela administração Kirchner.

Mas, no momento, os indicadores macroeconômicos seguem no vermelho ou estão piores que no passado. O governo Macri afirma ser o custo de "deixar de mentir" e de "abandonar o populismo".

Os mais críticos a Macri, no entanto, dizem que o presidente não soube captar a realidade argentina, o que implica lidar com um histórico de gasto público elevado.

Além dos golpes de Estado e de governos militares autoritários, a Argentina, um dos maiores produtores de alimentos do mundo, tem lutado nos últimos 50 anos para definir que tipo de modelo econômico quer implementar.

Como a situação argentina afeta o Brasil e outros países?

O contexto internacional que impacta a Argentina também tem afetado, ainda que em menor escala, outros países da região. Mas a grande questão é saber o tamanho do impacto da desvalorização do peso argentino em outros países.

Certamente, o número de turistas argentinos no exterior vai cair. A expectativa é de que não haverá mais filas de argentinos em lojas de eletrodomésticos chilenas e paraguaias, ou grande fluxo de argentinos em praias brasileiras, por exemplo.

Além de menos turistas, o Brasil pode ver uma redução também nas transações comerciais com a Argentina, em especial nas relacionadas à indústria automotiva. No ano passado, o vizinho foi o terceiro principal importador do Brasil e aumentou em 31,3% as suas compras - as aquisições de automóveis e veículos de carga puxaram as vendas brasileiras.

O lado positivo da crise, no entanto, para o Brasil e países da região, pode ser uma redistribuição de investidores que estavam apostando na Argentina. Crises anteriores mostraram que, quando a Argentina entra em dificuldade, países como o Paraguai e a Bolívia experimentam uma pequena injeção de investimentos.

Para isso, contudo, é preciso exibir a capacidade uma economia mais previsível e menos vulnerável, na avaliação de especialistas.

Apesar de a inflação brasileira estar controlada, a recente disparada do dólar em relação ao real tem potencial para gerar pressões inflacionárias no Brasil. Com o dólar alto, insumos, produtos e serviços ficam mais caros e essa diferença pode ser repassada ao consumidor.

No entanto, num cenário de baixo crescimento econômico e com o desemprego alto, como é o caso do Brasil, o repasse da alta do dólar para a inflação tende a ser pequeno. Além disso, a parcela em dólar da dívida brasileira é marginal, o país tem um volume expressivo de reservas internacionais e déficit relativamente pequeno em transações correntes (que contabiliza as trocas com o exterior) - ainda que, em julho, as transações correntes tenham sido deficitárias em US$ 4,4 bilhões, após quatro meses de superávits, segundo o BC.

Tudo isso minimiza a vulnerabilidade do Brasil em relação aos efeitos adversos atrelados ao cenário externo mais turbulento e também às incertezas sobre o cenário eleitoral, fazendo com que as chances de o país viver uma crise como a da Argentina sejam muito pequenas.

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