Entenda como a busca incessante de crescimento por Erdogan levou a Turquia à beira do abismo

Líder encorajou empréstimos em moeda estrangeira para turbinar economia; mas fonte secou

O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, joga flores para simpatizantes em congresso do seu partido, o AKP,  em Ancara
O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, joga flores para simpatizantes em congresso do seu partido, o AKP, em Ancara - Burhan Ozbilici - 18.ago.18/Associated Press
David Gauthier Villars
Istambul | The Wall Street Journal

A queda da lira turca foi súbita e forte. As causas surgiram quase uma década atrás, quando o líder do país decidiu fazer da Turquia algo parecido com a China, em escala menor —uma economia de classe mundial sob o controle firme de um homem.

Ávido por tirar seu país da contração econômica que abalava boa parte do planeta no começo de 2009, Recep Tayyip Erdogan assinou um decreto facilitando o acesso de empresas turcas a empréstimos em moeda estrangeira.

As novas regras eliminavam as restrições que impediam empresas que não tinham receitas em moedas fortes de recorrer a esse tipo de captação —desde que os empréstimos tivessem valor superior a US$ 5 milhões (o que corresponde hoje a R$ 20 milhões). 

“Era o equivalente a dizer: se você bebe, beba muito”, disse um funcionário do governo em Ancara, a capital turca.

Nos anos que se seguiram, as empresas turcas absorveram grande volume de empréstimos em euros e dólares e realizaram o desejo de Erdogan por uma expansão econômica musculosa, que permitiu que o líder e seu Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) mantivessem o poder ao longo de uma sucessão de eleições locais e nacionais. 

A lembrança da recessão de 2009 desapareceu, assim como as recordações da crise da década de 1990, que levou a Turquia a buscar assistência internacional.

Erdogan estava de certa forma imitando a abordagem do dirigente chinês, Xi Jinping, e de seu partido, que consolidaram o poder político em um regime autoritário e encorajaram captação pesada para superalimentar a economia.

Os problemas financeiros da Turquia mostram as limitações dessa abordagem, especialmente para países mais suscetíveis às forças das finanças internacionais e sem o grau de controle exercido pelo Partido Comunista chinês.

As vulnerabilidades no modelo de expansão turco eram tão graves que bastaram dois tuítes do presidente Donald Trump nas últimas semanas —um anunciando sanções contra a Turquia e o outro com o aumento de 100% nas alíquotas de certas tarifas— para causar pânico.

As empresas não financeiras do país acumularam uma montanha de dívidas de US$ 330 bilhões, que agora causa sérias preocupações aos investidores internacionais sobre a situação financeira perigosa da Turquia. 

Agravadas por uma disputa prolongada com os Estados Unidos quanto à situação de um pastor americano, essas preocupações causaram uma derrocada cambial e levaram a lira turca a cair à sua mais baixa cotação de todos os tempos diante do dólar, na segunda-feira da semana passada (13).

Ainda que a lira tenha conseguido recuperar parte de suas perdas, ela caiu em cerca de um terço diante do dólar, do começo do ano para cá. 

Na sexta-feira (17), recuou mais de 4%, depois que o governo americano ameaçou novas penalidades contra a Turquia em razão da detenção do pastor Andrew Brunson

No fim das operações da sexta-feira, o dólar estava cotado a 6,12 liras turcas; um mês antes, a cotação era de 4,75 liras turcas.

A queda da lira causou abalos no sistema financeiro mundial, gerando preocupação sobre a exposição de alguns bancos europeus e reduzindo o apetite dos investidores pelos países de mercado emergente.

ANOS 1990 DE VOLTA

“Parece que os anos 1990 estão de volta”, disse Zumrut Imamoglu, economista-chefe da Tusiad, uma das principais federações empresariais da Turquia, falando sobre o período em que a crise do país teve efeitos negativos sobre as finanças mundiais.

Entre os empresários que se viram apanhados do lado errado da crise da lira, está Atilla Kulekcioglu. Em abril, a Citir Usta, cadeia de restaurantes que ele fundou, em 2003, pediu concordata, com mais de 10 milhões de liras em dívidas. 

Kulekcioglu disse que sempre resistiu à tentação de captar recursos em moeda estrangeira, porque os fregueses de seus restaurantes pagam em liras pelo pide, o pão turco que ele serve.

Mas os shopping centers que abrigam as unidades de sua rede, construídos com base em empréstimos denominados em dólares e euros, cobram aluguéis indexados por moedas estrangeiras, disse. 

Incapaz de repassar os custos mais altos de aluguel aos consumidores, Kulekcioglu disse que fechou 25 dos seus 65 restaurantes e começou a procurar investidores estrangeiros. 

“Éramos uma das quatro maiores redes do setor”, ele disse.

As preocupações dos investidores sobre as vulneráveis finanças da Turquia sempre foram grandes, especialmente depois que Erdogan consolidou seu controle do poder e aumentou sua influência sobre o banco central e a política monetária. 

No segundo trimestre, Erdogan convocou eleições, inesperadamente. E em junho conquistou um novo mandato presidencial de cinco anos, com poderes executivos ampliados, o que parecia garantir seu futuro político, antes que as preocupações econômicas atuais eclodissem.

A tempestade cambial contrasta fortemente com a promessa eleitoral de Erdogan de colocar a Turquia entre as dez maiores economias do mundo até o final de seu mandato (o país hoje é a 17ª maior economia mundial). 

Enquanto a tempestade da lira rugia no fim de semana retrasado, o presidente estava visitando a região do mar Negro e fazendo discursos para agradecer os eleitores pelo novo mandato. Não fez menção ao desafio da dívida em moeda estrangeira. Em lugar disso, denunciou as tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre alguns produtos importados da Turquia como “um ato de guerra econômica”.

“Uma vez mais, estamos diante de um complô político sub-reptício”, disse, no domingo (12), aos seus eleitores em Trabzon, uma cidade na costa do Mar Negro. “Mas, se Deus quiser, superarmos o problema.”

Na quinta-feira (16), o ministro das finanças turco, Berat Albayrak —genro de Erdogan—, disse em conversa telefônica com 3.000 mil investidores e analistas financeiros que a queda da lira era excessiva e não refletia a força subjacente da economia turca.

Os economistas dizem que os anos de pesada captação, durante os quais a liquidez gerada pelo Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, e por outros bancos centrais saciou a sede de Erdogan por crescimento econômico mais forte, haviam chegado ao limite.

Refet Gurkaynak, professor de economia na Universidade Bilkent, em Ancara, disse que a deterioração do relacionamento entre os Estados Unidos e a Turquia havia servido de gatilho e despertado os investidores para a realidade dos problemas financeiros turcos.

“O problema aqui é que nosso setor empresarial está profundamente, profundamente endividado”, disse, alertando sobre uma disparada iminente nas falências e demissões. 

“Não se pode despejar todos os problemas das empresas sobre os bancos, e por isso os bancos e o governo terão de compartilhar parte dessa carga, e com eles o público.”

Autoridades turcas contatadas pelo The Wall Street Journal não responderam a mensagens. Durante sua conversa com os investidores, Albayrak anunciou que o governo anunciaria um plano de ação detalhado em setembro.

No começo de sua carreira política nacional, Erdogan era mais flexível. Quando se tornou primeiro-ministro, em 2003, a Turquia estava no segundo ano de um plano de resgate administrado pelo FMI (Fundo Monetário Internacional), sob o qual recebeu bilhões de dólares em empréstimos, sob a condição de que implementasse a receita de rigor fiscal e orçamentário ditada pelo Fundo.

Turistas fazem selfie com Santa Sofia ao fundo, em Istambul
Turistas fazem selfie com Santa Sofia ao fundo, em Istambul - Lefteris Pitarakis - 17.ago.18/Associated Press

QUERIDINHA DOS EMERGENTES

Quando executou as demais medidas recomendadas pelo FMI, a Turquia colheu os benefícios, com uma queda na inflação e alta das exportações, e se tornou a queridinha dos investidores em países de mercado emergente. 

Os europeus viam Erdogan como parceiro estratégico e, em dezembro de 2014, a União Europeia concedeu formalmente à Turquia o direito de iniciar negociações para admissão, o que disparou um grande programa de assistência e investimento.

Em uma conferência realizada na época no Parlamento Europeu, o legislador franco-alemão Daniel Cohn-Bendit abordou o líder turco, como mostra um vídeo do encontro. 

“Sr. Erdogan, tenho um presente para o senhor”, disse o parlamentar, lhe entregando uma moeda. “A primeira moeda de euro com dizeres em turco.”

Com o ingresso de dinheiro, a Turquia se tornou um grande canteiro de obras, e Erdogan, que criou apego por grandes projetos de infraestrutura no período em que foi prefeito de Istambul, na década de 1990, deu início a programas ferroviários, rodoviários e de pontes. 

O skyline de Istambul, que tinha 19 arranha-céus quando ele se tornou primeiro-ministro, agora tem 98, de acordo com o Council on Tall Buildings and Urban Habitat, organização sem fins lucrativos sediada em Chicago.

Em 2007, a lua de mel entre Erdogan e a União Europeia terminou. Diversos líderes europeus, entre os quais o então presidente francês, Nicolas Sarkozy, afirmaram publicamente que vetariam a adesão turca ao bloco.

Em 2008, o programa de assistência do FMI chegou ao fim. Erdogan minimizou o papel do Fundo e declarou que o milagre econômico turco se devia à maneira pela qual ele conduziu a economia; o líder prometeu que continuaria a seguir seu próprio curso.

Durmus Yilmaz, legislador oposicionista turco, disse que Erdogan e o AKP começaram a se comportar de modo mais confiante. “Depois de 2008, eles passaram a achar que estavam sempre certos”, disse Yilmaz, antigo presidente do banco central turco.

Foi quando a recessão mundial atingiu a Turquia. O primeiro trimestre de 2009 viu uma contração de mais de 13% na economia do país. O governo apelou a medidas expansivas, como facilitar os empréstimos em moeda estrangeira.

Em meses, a economia turca havia se recuperado. Erdogan queria mais crescimento e não reduziu os gastos do governo. “Com uma forte alta da demanda em uma economia que já estava operando em plena capacidade”, disse Gurkaynak, “começamos a acumular um imenso deficit em conta-corrente e a inflação começou a subir.”

Em maio de 2013, Ali Babacan, então primeiro-ministro-assistente da Turquia, se vangloriou de que o país havia terminado de pagar sua dívida de US$ 23,5 bilhões com o FMI. 

“Pela primeira vez em 19 anos, a Turquia nada deve ao FMI”, disse Babacan, depois de disparar a transferência final de fundos para o FMI, de um computador na sede do banco central turco.

PROTESTOS

Duas semanas mais tarde, dois tremores abalaram a Turquia. Um veio dos Estados Unidos, quando Ben Bernanke, então chairman do Fed, sinalizou em discurso ao Congresso que os anos de medidas de estímulo por parte do banco central americano estavam chegando ao fim. Para a Turquia, a mensagem foi um alerta de que os dias de acesso fácil a créditos estrangeiros, um recurso vital para selar os rombos em sua conta-corrente, podiam estar chegando ao fim.

O segundo abalo aconteceu em Istambul, quando um pequeno protesto contra a destruição da praça Gezi, na praça Taksim, uma área arborizada da cidade, evoluiu até se tornar uma onda nacional de protestos violentos contra o governo cada vez mais autoritário de Erdogan.

Policiais turcos durante protesto na praça Taksim, em Istambul, em 2013
Policiais turcos durante protesto na praça Taksim, em Istambul, em 2013 - Marko Djurica - 17.jun.13/Reuters

O discurso de Bernanke e os tumultos políticos afetaram a lira, que perdeu terreno diante do dólar, o que elevou a pressão sobre o banco central turco por um aumento na taxa de juros. Mas Erdogan vetou um aumento dos juros.

Em uma série de discursos, em junho, ele atribuiu a culpa pelos protestos na praça Gezi e pela pressão negativa sobre a lira ao que chamou de “lobby das taxas de juros”.

“Ele acredita que a economia trabalha de modo diferente do que os acadêmicos dizem”, afirmou Yilmaz, o antigo presidente do banco central.

Depois de uma tentativa fracassada de golpe de Estado, em julho de 2016, a lira turca perdeu valor rapidamente. 

As medidas de emergência impostas pelo governo assustaram as empresas estrangeiras, que reduziram acentuadamente seu investimento direto no país.

No ano passado, o governo expandiu dramaticamente seu apoio a pequenas empresas, por meio de um fundo estatal que oferecia garantias sobre empréstimos, em valor total de 200 bilhões de liras, ante 15 bilhões de liras em 2016. Os economistas dizem que a medida ajudou a acelerar o crescimento da economia turca a 7,4% em 2017, o índice mais alto entre os países do Grupo dos 20 (G20).

No começo de 2018, a lira estava em queda devido a preocupações persistentes sobre o alto endividamento das empresas da Turquia. Alguns dos assessores do presidente falaram na televisão sobre a necessidade de desaquecer o motor da economia turca, depois de um período de expansão tão acelerada.

Mas, acompanhado por empresários, em um salão do complexo presidencial, Erdogan distribuiu em abril “certificados de incentivo” emoldurados, ao anunciar um novo programa de estímulo de US$ 34 bilhões.

“Algumas pessoas dizem que crescimento demais não é bom”, ele disse. “Por quê? Elas têm inveja. É só por isso.”

As consequências foram duras para empresas como a Turk Telekom, a maior operadora de telefonia da Turquia, na qual o governo tem participação acionária. 

No mês passado, a empresa atribuiu a responsabilidade por um prejuízo de 889 milhões de liras no segundo trimestre a “movimentos cambiais desfavoráveis”, e afirmou que quase todas as suas dívidas bancárias, que montavam a 14,7 bilhões de liras em 30 de junho, eram denominadas em dólares e euros. Excluídos esses efeitos, afirmou a empresa, ela teria registrado lucro líquido de 676 milhões de liras.

“A Turk Telekom tem dívidas em moedas estrangeiras, mas seu nível é administrável e o valor na verdade é baixo”, disse uma porta-voz da companhia.

Tendo anunciado no segundo trimestre sua decisão de buscar um novo mandato, Erdogan entrou em campanha. 

Prometeu que uma mesquita histórica em Istambul e o novo aeroporto da cidade, descrito como o maior do mundo, teriam obras concluídas em breve, e anunciou detalhes de um grande projeto, um canal que conectaria o mar Negro ao mar de Mármara, atravessando uma área na qual vivem sete milhões de pessoas.

Em maio, a queda da lira se intensificou depois que o presidente declarou, em uma conferência em Londres, que pretendia influenciar mais a política monetária, no futuro. Em um esforço para amparar a moeda turca, o banco central elevou acentuadamente as taxas de juros. No mesmo mês, o governo reintroduziu a maioria das restrições a empréstimos em moeda estrangeira que havia suspendido em 2009.

“Foi tarde demais”, disse Imamoglu, a economista da Tusiad. “Eles deveriam ter tomado essa medida antes de 2015”.

The Wall Street Journal, traduzido do inglês por Paulo Migliacci

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