McLaren acelera no Brasil mesmo com disparidade de preço e renda

Desde a inauguração da loja, há 4 meses, nove carros foram vendidos

Leonardo Lara
Nova York | Bloomberg

É de uma esquina no badalado e rico bairro de Vila Olímpia, em São Paulo, que a McLaren marca sua posição em solo brasileiro desde o mês de maio. Com uma loja que mais parece uma galeria de arte estão expostos dois superesportivos que a marca britânica comercializa no país, uma 540C, de R$ 1,6 milhão e uma 570GT, de R$ 1,9 milhão. Na Inglaterra, considerando o preço básico em libras elas custariam R$ 625.300 e R$ 764.000, respectivamente.

A meta é vender 20 carros nos primeiros 12 meses de funcionamento e crescer mais 10% ao ano nos anos seguintes, diz Henry Visconde, dono da Eurobike, que representa a marca britânica no país. Desde a inauguração da loja, há 4 meses, 9 carros já foram vendidos, sendo duas unidades da exclusiva McLaren Senna, de cerca de R$ 8 milhões cada, e que serão entregues aos clientes somente em 2019.

 
 
 

A entrada da McLaren no Brasil ocorreu por meio de uma associação com a Eurobike, que atua na venda de outras marcas premium de automóveis, como Audi, Porsche, BMW, Mini, Jaguar e Land Rover. As conversas começaram em 2014, um pouco antes do agravamento da crise econômica que levou o país a dois anos seguidos de recessão, lembra Visconde.

“Sempre quisemos uma operação de carros superesportivos” e para a McLaren “estar fora do Brasil seria um crime, além da ligação muito forte com a família Senna, e não teria sentido não estar no país do cara que mais deu títulos a eles”, diz Visconde referindo-se ao ex-piloto tricampeão de Fórmula 1, Ayrton Senna, morto em 1994.

“O Brasil é um mercado importante para a McLaren em termos de seu potencial de mercado e também por nossa história com Ayrton Senna e nosso relacionamento com Bruno Senna, a família Senna e o Instituto Ayrton Senna”, diz McLaren por meio de sua assessoria de imprensa. “Estimamos que o Brasil tenha um potencial semelhante ao do México no médio prazo”. Na América Latina, a marca também possui operações comerciais no Chile e no México.

A McLaren Automotive, lançada em 2010, é uma divisão do McLaren Group. Todos os veículos da marca são montados à mão em Woking, na Inglaterra, e vendidos em 31 países. O plano de negócios da empresa prevê investir 1,2 bilhão de libras esterlinas (US$ 1,52 bilhão) em pesquisa e desenvolvimento para entregar 18 novos carros ou derivados até o final de 2025.

Somente a loja em São Paulo recebeu R$ 4 milhões em investimentos, segundo o plano de negócios elaborado em conjunto com o grupo britânico, conta Visconde, acrescentando que a previsão é de que a operação seja “praticamente deficitária” nos primeiros três anos por conta dos investimentos iniciais. Outra parte dos recursos será aplicada em promoção, marketing, eventos e mídia online: R$ 1,2 milhão por ano. “É uma empresa de volume baixo, que faz 3.500 carros por ano, então se o Brasil vender 30 carros é um belo número”, disse Visconde.

Visconde explica que esse segmento de público é restrito, “mas é um público fiel”. “O problema no Brasil é muito mais motivacional do que de recursos para esse tipo de classe de consumo”, explica o executivo. “Motivacional é o cara estar feliz com o negócio dele, com a situação dele, ou aquele que não tem negócios, mas tem rendimento. Esse tipo de cliente continua tendo recursos, mas ele tem que estar muito animado e perceber que o preço, mesmo sendo alto, é justo”, conta Visconde.

De acordo com o executivo, a instabilidade do país aliada à volatilidade cambial tem feito alguns clientes segurarem a compra esperando o câmbio baixar. Para ele, o fator cambial afeta em 100% o negócio porque os carros são importados em libras esterlinas. “O primeiro carro que trouxemos, 570 Coupê estava à venda por R$ 1,7 milhão. Hoje, cerca de 4 meses depois, para montar o mesmo carro, custa quase R$ 2 milhões”.

O principal desafio para se atuar no segmento da Eurobike é o custo Brasil, a dificuldade de se fazer negócio no país. “É muito complexo e não precisaria ser”, explica Visconde, acrescentando que “entramos nesse negócio sabendo as regras do jogo, então não adianta ficar reclamando, tenho que tentar ajudar a melhorar”.

Sobre a disparidade de preços e o que ela representa em termos de distribuição de renda no Brasil, que tem salário mínimo de R$ 954 (US$ 243) --o valor de uma 540C equivale a 45 Renault Kwid, veículo mais barato produzido no país--, Visconde diz que “tudo o que é ganho com trabalho e esforço tem que ser valorizado” e “não se pode ter vergonha das pessoas que mereceram ter aquele carro”, mas admite que “é uma situação de disparidade social triste”. “Realmente dói, porque eu podia estar vendendo muito mais carros se eu tivesse um país mais justo. Quanto mais você cresce, mais você tem chance de vencer”.

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