Nível de renda define acesso à água no agreste de Pernambuco

Rico ganha salário mínimo e compra do cartel; pobre briga na fila da vergonha dos carros-pipa

João Valadares
Agreste Pernambucano

Eles bebem a mesma água dos bichos. A salvação da família do agricultor Valdeci Rodrigues, 52, e das duas vacas que restaram, após sete anos seguidos de seca, é um barreiro sujo perto de casa.

Não há escolha. Em Poção, Agreste de Pernambuco, região com 65 municípios em estado de emergência, a água sumiu. Não cai do céu e nem chega uma gota sequer pelas torneiras faz quatro anos.

Esperar é o verbo mais conjugado por lá. A secura interminável é assombrosa e desafia a sobrevivência.

A barragem de Duas Serras, que abastece a cidade, secou.

O “mundão d’água” que viria com a transposição do São Francisco ficou pelo meio do caminho porque as obras de interligação de canais com adutoras estão paralisadas.

Humilhação é rotina. Valdeci não reclama. “É só esperar a água esfriar um pouco, coar, deixar assentar e beber. Não tem problema”, diz o homem que vive com R$ 250 por mês, juntando com o dinheiro do Bolsa-Família.

A neta dele, 10 anos, escuta a receita da sobrevivência e concorda balançando a cabeça. Acostumou-se. Viveu quase sempre assim. “A água é boa”, fala.

Bem pertinho de lá, a escola municipal Getúlio Vargas teve de fechar por três dias. A explicação em uma frase é direta. “Não tinha água para fazer a comida das crianças”, diz a merendeira Sandra da Silva, 38.

Diferente de Valdeci, ela tem uma cisterna em casa. “Eu pego a água do barreiro para tomar banho e cozinhar. Bebo dela não.”

O agreste pernambucano, cuja base da economia gira em torno da bacia leiteira e do polo de confecções, virou sertão.

“Esse ciclo climático no agreste é uma novidade. Não tem água mesmo. A situação é pior do que a do semiárido”, afirma o gerente de meteorologia e mudanças climáticas da Agência Pernambucana de Águas e Clima (Apac), Patrice Oliveira.

A barragem de Jucazinho, em Surubim, o principal reservatório da região, só está com 5,8% da sua capacidade.

A produção leiteira do agreste caiu quase pela metade. Antes do longo período de estiagem, de acordo com dados oficiais, eram produzidos 2,5 milhões de litros de leite por dia. Em algumas cidades, o rebanho teve uma redução de 65%. Em outras, foi praticamente dizimado.

Em Pernambuco, há 30 reservatórios em absoluto colapso. A capacidade de armazenamento do sertão, considerando os reservatórios oficiais, é um pouco mais do que o dobro da do agreste.

A estiagem prolongada mobiliza e transforma a vida de cidades inteiras. A água passa a apontar ricos e pobres.

Em Poção, é artigo de luxo. Rico é quem ganha um salário mínimo e consegue comprar o produto vendido por um cartel de comerciantes que viu, na catástrofe histórica, uma oportunidade de melhorar de vida.

“Compro o ‘bujão’ de 250 litros por R$ 3 e vendo por R$ 10, R$ 12, na cidade. Vendo uns 30 por dia”, diz Givanildo Ferreira, 35, que largou o emprego de garçom e para revender água.

Quem vende o produto para Givanildo é José Paulo, 33. A Seca o expulsou da cidade. Depois de perder 30 cabeças de gado, acabou indo para São Paulo.

“Passei quatro anos lá trabalhando de pedreiro. Trabalhei na construção de um hospital”, diz, cheio de orgulho. Voltou para Poção faz dois anos.

Pegou tudo o que tinha juntado na vida, R$ 19 mil, e furou dois poços artesianos no quintal de casa. “Deu água boa. É como achar petróleo. Mas tem que saber tirar para não saturar o poço. Vivo disso hoje. Vendo 70 botijões por dia aqui”, conta.

Aos pobres, resta entrar na fila da vergonha. São os mendigos da água. Brigam entre eles porque não tem para todo o mundo.

Também não há emprego e só conseguem comer por causa do Bolsa Família. Tirar parte do dinheiro para comprar água é impossível.

No bairro da Cohab, na zona urbana de Poção, cada adulto só pode pegar dois baldes por vez de uma caixa de 10 mil litros abastecida semanalmente pela Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa).

Há outros reservatórios espalhados pela cidade. A disputa é a mesma. Crianças pequenas enfrentam sol forte para guardar lugar na fila. “O pipa tá subindo. Vamos, vamos”, grita uma moradora.

É a senha para, em poucos minutos, crianças, velhos e mulheres começarem a sair de casa carregadas de baldes. É gente para tudo que é lado.

Da primeira vez em que começou a gritaria, era alarme falso. O caminhão-pipa chegou perto, mas estava indo abastecer uma escola.

Uma hora e meia depois, o barulho forte do motor do veículo, que precisa subir uma ladeira alta para chegar ao reservatório, transformou o local novamente.

Os recipientes já estavam enfileirados e as crianças se posicionavam apressadas para não perder o lugar.

Luiz Fernando, 4, com a camisa do jogador Messi, não parava um minuto sequer. Enchia pequenos baldes rapidamente, esvaziava perto de casa e voltava para a fila. Ouvia a reclamação da mãe quando demorava um pouco, encantado com o drone que sobrevoava o local.

Joelmir da Silva, funcionário da Compesa, recebe salário para, entre outras coisas, separar brigas. É a sua principal atribuição. Acompanha todas as distribuições.

“É muita confusão. Eu preciso separar. O povo tem que entender as regras. Querem pegar mais do que o permitido”, afirma.

Na mesma fila, as irmãs Maria Dejanira da Silva, 65, e Judite Maria da Silva, 64, se locomovem com dificuldade. Resmungam entre elas que tem “muito menino” pegando água.

As crianças vão e voltam numa velocidade que as duas não conseguem acompanhar. “Já encheram mais de dez baldes na nossa frente. Tem gente aqui que tem dinheiro para comprar água boa para beber. A gente bebe dessa mesmo. Tem muito cloro, mas não tem problema”, diz Judite.

Na engrenagem eleitoral, água é voto.

Em Jataúba, também no agreste, vereadores que apoiam candidatos para deputados estaduais e federais mandam áudios por grupos de WhatsApp dizendo onde devem ser realizados os abastecimentos do dia.

É a indústria da seca em tempos de rede social. “Quem financia o abastecimento aqui é um empresário. São 20 caminhões por dia. Ele está apoiando uma deputada. A gente organiza tudo pelo grupo para colocar água para o povo. Não distribuímos santinhos não”, conta um dos organizadores do grupo.

Em Pernambuco, a zona urbana de 45 cidades ainda depende exclusivamente de caminhões-pipa da Compesa. O governo gasta R$ 8,5 milhões por ano. A zona rural de 121 municípios é abastecida pelo Exército.

José Leite, 68, mora num sítio em Jataúba. “A água que colocam aqui é tão salgada que até os bichos fazem careta para beber. Eu tenho que separar um dinheirinho para comprar para mim”, diz.

Perto de lá, os esqueletos de gado e de cavalos estão espalhados em vários pontos. Não há mais pasto para os bichos. O que mais tem é pedra e cabra.

Em Santa Cruz do Capibaribe, limite com Jataúba, há localidades que dependem de caminhões-pipas há mais de quatro anos.

“Estou levando água nesse jumentinho para a minha esposa”, conta Inácio José da Silva, 63 anos, que mora numa comunidade conhecida como Prado.

Ele resolveu desafiar a seca. Plantou milho e feijão. A chuva não veio. “Perdi foi tudo. A gente tenta de novo. Um dia a água vem.”

A adutora do agreste, no valor total de 1,24 bilhão, que iria se interligar com o ramal leste da transposição do São Francisco para abastecer a região, deveria ter ficado pronta em dezembro de 2015.

As obras não avançaram. O governador de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB), diz que o estado sofre retaliação política. Em ofício ao presidente Michel Temer, Câmara afirmou que o governo federal só repassou 64% do valor acordado.

“Infelizmente, neste ano de 2018, nenhum repasse foi realizado ainda, em que pese constar no orçamento federal o valor de R$ 218 milhões para dar continuidade ao andamento da obra.”

Procurado, o Ministério da Integração Nacional informou que, em dezembro de 2017, repassou mais de R$ 126,3 milhões para a obra. A pasta ressaltou que o recurso federal tem sido suficiente para a execução do empreendimento hídrico.

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