Descrição de chapéu Financial Times

Saiba por que a lira turca está despencando

Moeda acumula desvalorização de mais de 40% no ano; déficit e tensões geopolíticas explicam tombo

O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, cumprimenta apoiadores em  Bayburt
O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, cumprimenta apoiadores em Bayburt - Associated Press
Daniel Dombey
Londres

A moeda da Turquia está cambaleando.

A lira, que já tinha caído em 5% diante do dólar na segunda-feira (5) e mais 4% nesta quinta (9),  recuou mais 15% nesta sexta-feira (10).

Por que a moeda de um país frequentemente elogiado pelo dinamismo de sua economia e por sua localização geográfica invejável —tão perto dos mercados da Europa e do Oriente Médio— está enfrentando tamanha dificuldade?

E qual é o papel nisso do governo do presidente Recep Tayyip Erdogan, que afirma ter transformado a economia, em seus 15 anos de poder? Abaixo, o Financial Times analisa o que está por trás da dramática queda da moeda turca, que abalou os investidores e colocou em questão a competência econômica do governo.

 

Por que a lira está caindo?

A lira é a grande moeda mundial que vem apresentando pior desempenho, com queda de mais de 40% até agora em 2018. Sua queda em prazo mais longo é ainda mais chocante: cinco anos atrás, o dólar estava cotado a 2 liras turcas; ontem, a cotação era de 6,50 liras turcas por dólar.

Há diversas razões para a fraqueza da moeda. Na última semana, as atenções se voltaram a uma disputa extraordinária entre os Estados Unidos e a Turquia, que é integrante da Otan (Organização para o Tratado do Atlântico Norte) e aliada dos americanos há mais de 60 anos.

O Departamento de Estado americano impôs sanções à Turquia na semana passada em razão da detenção pelas autoridades turcas de um pastor evangélico da Carolina do Norte —e as medidas certamente abalaram os mercados. Conversações com o Departamento de Estado americano esta semana não resolveram o impasse.

O problema todo é o pastor?

Não. Há outros fatores em ação, na Turquia.

O país prosperou com o fluxo de capital estrangeiro, em muitos casos de curto prazo, devido à política monetária ultrafrouxa que os Estados Unidos e a Europa mantiveram por longo tempo e que encorajava os investidores a buscar retornos mais altos na Turquia e em outros países de mercado emergente.

Alguns analistas havia muito viam a Turquia como "jogada de relaxamento quantitativo" —um país que se beneficiou dos grandes esquemas de compras de ativos pelas instituições econômicas dos grandes países desenvolvidos. Mas, agora que o relaxamento quantitativo ficou na história, nos Estados Unidos e na zona do euro —pelo menos durante o atual ciclo econômico—, está se tornando mais difícil para a Turquia obter os fundos de que ela necessita.

Os montantes em questão nada têm de desprezíveis.

Um relatório do banco ABN Amro divulgado na quinta-feira afirmava que os investidores estão preocupados com a possibilidade de que a Turquia não seja capaz de obter os US$ 218 bilhões em financiamento estrangeiro de que necessita —o que inclui os fundos necessários a manter em dia as dividas denominadas em moedas estrangeiras de empresas turcas e para bancar o considerável déficit do país em conta-corrente.

O relatório acrescentou que o cenário básico continua a ser o de que a Turquia conseguirá obter o dinheiro necessário, mas afirma que "rumores sobre possíveis controles cambiais e sobre um pacote de assistência do FMI causaram ainda mais desgaste no mercado de câmbio".

Cédulas de lira turca em casa de câmbio em Ancara
Cédulas de lira turca em casa de câmbio em Ancara - Mustafa Kaya/Xinhua

O que precisa acontecer, na opinião dos mercados?

Muitos investidores apelaram ao governo da Turquia por medidas de desaceleração do consumo no país e do crescimento de sua economia, puxado pelo setor de construção.

A lógica é que aumentos de impostos e cortes de gastos reduziriam o risco de uma aterrissagem dura para a economia e o déficit em conta-corrente, que hoje equivale a mais de 5% do PIB (Produto Interno Bruto).

Com isso, a dependência do país quanto a capital estrangeiro diminuiria. Desacelerar a economia também serviria para controlar a inflação, que está em mais de 15% ao ano.

Um aumento nas taxas de juros ajudaria a combater a inflação e desaceleraria ou reverteria a queda da lira —uma consideração importante para as empresas turcas que enfrentam dívidas denominadas em dólares ou euros, as quais sofreram forte alta nos últimos anos.

De acordo com dados do banco central turco, os passivos em moeda estrangeira das empresas não financeiras turcas agora superam seus ativos em moeda estrangeira por mais de US$ 200 bilhões.

Nos próximos 12 meses, instituições privadas não financeiras terão de pagar ou rolar US$ 66 bilhões em dívidas denominadas em moeda estrangeira. Para os bancos da Turquia, o montante é de US$ 76 bilhões.

Erdogan concorda?

Até o momento, Erdogan, o mais poderoso líder da Turquia desde Mustafa Kemal Ataturk, o fundador do Estado turco moderno, não parece convencido de que haja necessidade de corrigir o equilíbrio da economia.

O governo dele tomou medidas —entre as quais a concessão de isenções tributárias— para manter o país crescendo, depois de um golpe de Estado que fracassou de modo sangrento em 2016, e ele reluta em desacelerar as coisas.

Erdogan também critica frequentemente as taxas de juros altas —que ele descreveu este ano como "mãe e pai de todos os  males"—, e as define como um arrasto inaceitável para o empreendedorismo turco.

Diante desse panorama, o banco central turco vem se mostrando relutante em aumentar juros —o que não deveria surpreender— e se recusou a fazê-lo no mês passado apesar da expectativa generalizada de um aumento. O problema é que o banco não dispõe de muitos outros instrumentos em seu arsenal, porque suas reservas cambiais para intervenção no mercado são limitadas.

A ascensão do autoritarismo na Turquia afetou a crise?

Os poderes presidenciais muito expandidos de Erdogan são de fato um dos focos das atenções. Depois da tentativa de golpe, ele passou cada vez mais a governar por decreto.

No ano passado, venceu um referendo que expandiu muito os poderes presidenciais —e esses novos poderes passaram a vigorar assim que ele conquistou um novo mandato presidencial, em junho.

Muitos governos estão preocupados com o que veem como arbitrariedade cada vez maior do governo de Erdogan, e com a atmosfera geral do governo, que se assemelha mais a uma corte que a uma democracia.

Durante os longos anos de Erdogan à frente do país, o posto de líder da economia costumava caber a tecnocratas como Ali Babacan, que comandou negociações com a União Europeia e foi ministro do Exterior, ou Mehmet Simsek, ex-economista do banco Merrill Lynch.

Esses funcionários tinham um papel duplo a desempenhar: apresentavam o caso econômico da Turquia ao planeta —especialmente administradores de fundos e bancos de investimentos— e aconselhavam Erdogan a evitar ações que considerassem perigosas, como reforçar os controles sobre o capital.

Ocasionalmente, as altas de juros decretadas pelo banco central eram precedidas por discussões entre Erdogan e um funcionário como Babacan, que convencia o presidente de que não havia alternativa.

Depois de sua vitória na eleição de junho, Erdogan apontou seu genro, Berat Albayrak, que era executivo, para o comando de um Ministério das Finanças com poderes ampliados.

Como o desempenho subsequente da lira demonstrou, os mercados não estão convencidos de que essa seja uma boa estratégia.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

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