Trump avisa ao Congresso que pretende manter Canadá em acordo com México

Fala mostra que Trump está disposto a desistir de um novo tratado bilateral com o México

Júlia Zaremba
Washington

Após uma semana de negociações com autoridades canadenses, o presidente Donald Trump avisou ao Congresso nesta sexta (31) que pretende assinar um acordo comercial trilateral com México e Canadá, se este último "estiver disposto", em 90 dias.

A intenção de manter um acordo trilateral é uma vitória para os apoiadores do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) e mostra que Trump está disposto a desistir de um novo tratado bilateral com o México, possibilidade aventada no início da semana.

Mas, durante evento realizado durante a tarde em Charlotte, na Carolina do Norte, o republicano disse que "se não fizerem um acordo com o Canadá, tudo bem".

Donald Trump em evento nesta sexta-feira na Carolina do Norte - Yuri Gripas/Reuters

O presidente também afirmou a jornalistas da Bloomberg, em comentário off-the-record divulgado pelo Toronto Star, que as negociações só seriam feitas em seus termos. "Ao menos o Canadá sabe a minha posição", escreveu Trump em uma rede social, após criticar o vazamento da declaração.

Em palestra na universidade de Oshawa, durante a manhã, o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, afirmou que "foram bem claros: só vão assinar um acordo se for bom para o Canadá."

O objetivo inicial do norte-americano era concluir as negociações sobre o novo acordo com o Canadá até esta sexta, mas elas se estenderão até a semana que vem. O próximo encontro entre autoridades da USTR (Representação de Comércio dos Estados Unidos) e a ministra de relações exteriores do Canadá, Chrystia Freeland, está marcado para quarta (5).

Apesar do atraso, autoridades da USTR afirmaram que "as conversas foram construtivas" e que "fizeram progressos". Questões ligadas ao setor leiteiro canadense e disputas comerciais entre as duas nações estariam travando as negociações.

Robert Scott, economista do Economic Policy Institute, centro de pesquisas econômicas nos Estados Unidos, acredita que o acordo trilateral é a única opção capaz de ser aprovada pelo Congresso. "Mas pode não ir adiante, especialmente se os democratas vencerem as eleições de novembro", diz.

Na última segunda (27), Os Estados Unidos e o México chegaram a um acordo preliminar para revisar o Nafta. O Canadá ficou de fora da proposta.

A medida representou uma vitória para Trump, que classifica o Nafta como um dos piores acordos comerciais da história, em meio à guerra comercial que tem patrocinado contra países em todo o mundo.

A renegociação do tratado, que começou a ser debatida em agosto de 2017, foi uma das suas principais promessas de campanha.

O novo acordo com os mexicanos foca nas regras referentes à indústria automobilística. Também inclui a atualização de regras sobre produtos industriais, agrícolas, propriedade intelectual e economia digital.

Entre as mudanças, a obrigação por parte das montadoras de fabricar ao menos 75% de um automóvel na América do Norte para ficarem isentas de tarifas --a porcentagem anterior era de 62,5%.

Maurício Mesquita, especialista em comércio internacional do Banco Interamericano de Desenvolvimento, diz que o impacto dessas novas regras acordadas entre Estados Unidos e México deve ser pequeno no Brasil, já que o país tem pouca participação no mercado de autopeças daqueles países.

Ele afirma que o processo, realizado sob pressão dos Estados Unidos, pode "acordar o México para a necessidade de diversificar seu mercado", podendo estreitar os laços com outros países, como o Brasil. "É uma oportunidade que precisa ser aproveitada", diz.

A revisão do Nafta, que entrou em vigor em 1994, precisa ser aprovada pelo Congresso americano. Por enquanto, continua em vigor.

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