Governo argentino prepara novo pacote de ajustes fiscais para conter crise

Medidas deverão ser anunciadas na manhã desta segunda-feira (3) pelo ministro da Fazenda

Sylvia Colombo
Buenos Aires | Reuters
A cúpula do governo argentino permaneceu reunida durante todo o fim de semana, preparando o anúncio do pacote de medidas econômicas para conter a crise e uma possível reforma ministerial.
 
Nesta última, é possível que sejam cortados 10 ministérios, que baixariam para o nível de secretaria e teriam cortes substantivos em suas folhas de pagamento. Entre eles estariam os de ciência, cultura, saúde e educação. Embora nenhuma informação oficial tenha sido confirmada, as especulações tomaram conta do noticiário.
 
Outra mudança na equipe que poderia ocorrer seria a saída do chanceler Jorge Faurie, com o retorno do economista Alfonso  Prat-Gay, que passaria a ocupar o cargo de ministro das Relações Exteriores.
 
Também o chefe de gabinete, Marcos Peña, teria ou seu papel reduzido ou seria transferido para outro posto.
 
Entre as medidas econômicas, também sem anúncio oficial, os meios locais afirmam que estariam contempladas taxas para a exportação e o corte em gastos sociais em mais 100 bilhões de pesos.
 
Os anúncios político e econômico seriam feitos na manhã desta segunda-feira (3), antes da viagem do ministro da Fazenda, Nicolás Dujovne, a Washington, onde se reunirá na terça-feira com a presidente da entidade, Christine Lagarde.
 
Dujovne proporá um novo acordo com o Fundo, complementar a fechado em junho passado, em que diminuiriam os pré-requisitos estipulados para que a Argentina tivesse acesso a linha de crédito de US$ 50 bilhões. O governo já recebeu US$ 15 bilhões e está pedindo um adiantamento de US$ 3 bilhões da segunda cota.
 
Tudo isso ocorre na semana posterior a que viu uma escalada da moeda norte-americana nas casas de câmbio do país. A moeda argentina perdeu 12% de seu valor e agora custa 38 pesos para comprar um dólar. Devido a isso, o Banco Central aumentou a taxa de juros para 60%, a mais alta do mundo.
Mauricio Macri, presidente da Argentina - Marcos Brindicci/Reuters

A Argentina já concordou em reduzir seu déficit primário a 1,3% do Produto Interno Bruto (PIB) sob um programa de R$ 50 bilhões com o FMI (Fundo Monetário Internacional) em junho, gerando protestos de sindicatos. Agora, Dujovne prometeu mais cortes no déficit antes de viajar a Washington para negociar com o FMI a aceleração da ajuda.

O governo não detalhou sua nova meta de déficit primário ou que medidas espera tomar para estabilizar a moeda depois de uma desvalorização de 16% na semana passada, mas investidores querem ações decisivas.

"O mercado provavelmente vai esperar um orçamento de 2019 que faça uma tentativa crível de eliminar o déficit primário", disse Jeffrey Lamoreaux, analista senior na Fitch Solutions.

Ele disse que os mercados esperavam que Macri, que tomou posse em dezembro de 2015 depois de 12 anos de administrações de esquerda, implementasse uma combinação de tarifas de exportação para a agricultura com redução de subsídios e gastos sociais.

"O risco para Macri é que ele aliene um dos poucos setores que ainda dá apoio a ele", disse Lamoreaux.

O lobby agrícola tem sido um pilar de apoio para Macri enquanto ele tenta impulsionar a competitividade da terceira maior economia da América Latina. O poderoso setor agrícola apoiou sua coalizão pró-mercado tanto nas eleições presidenciais de 2015 quanto nas eleições legislativas do ano passado.

O retorno das tarifas de exportações marcaria uma grande reviravolta. Macri retirou as taxas sobre milho e trigo logo depois de assumir. Ele também começou a reduzir gradualmente as taxas sobre soja e derivados, que estão no coração da disputa entre a ex-presidente populista Cristina Fernandez e o setor agrícola.

Conversas sobre medidas para taxar o milho e o trigo da Argentina apoiaram preços nos futuros internacionais de grãos na bolsa de Chicago na sexta-feira, disseram operadores. A Argentina é a terceira maior exportadora de soja e milho do mundo.

Dois ex-assessores econômicos do governo Macri sugeriram que tarifas de exportação seriam uma opção efetiva de curto prazo.

"Eu nunca acreditei nesta medida como uma opção permanece, mas isso é um incêndio", disse Carlos Melconian, que chefiou o estatal Banco Nacion no primeiro ano do mandato de Macri, durante uma entrevista na televisão, referindo-se à queda do peso e crescentes preocupações sobre a habilidade da Argentina de pagar sua dívida.

Luciano Cohan, o ex-subsecretário para programação macroeconômica sob Macri, escreveu no Twitter que uma tarifa de exportação de 5 por cento sobre todos os produtos, não apenas os agrícolas, resultaria num ganho de 3,5 bilhões a 4 bilhões na arrecadação no próximo ano.

Um porta-voz para o Ministério da Agricultura da Argentina disse que ele não tinha informação sobre nenhum plano para taxar exportações. Um porta-voz do Ministério da Economia não respondeu ao pedido de comentário.

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