China e EUA levam conflito à cúpula do G20

Ministros expõem queixas, mas deixam que os chefes decidam

Clóvis Rossi
São Paulo

China e Estados Unidos tiraram do armário suas queixas recíprocas na área de comércio internacional, durante reunião nesta sexta-feira (14) em Mar del Plata (Argentina) dos ministros do G20, o clubão das maiores economias do planeta.

Mas os dois lados, com o endosso dos demais participantes, Brasil inclusive, concordaram em passar a discussão para os chefes de governo que farão a cúpula anual do grupo a partir de 30 de novembro em Buenos Aires.

De alguma maneira, as queixas esgrimidas no encontro de Mar del Plata antecipam o que pode ser um choque frontal quando Donald Trump e Xi Jinping se encontrarem em Buenos Aires.

Policiais do lado de fora do local onde acontece a reunião do G20, em Mar del Plata, em Buenos Aires - Reuters

Tanto é assim que foram atropelados os dois temas que a presidência argentina do G20 havia proposto na área de comércio, ambos fáceis de concitar o consenso. Eram cadeias globais de valor no agronegócio e a chamada indústria 4.0, codinome para o novo ciclo industrial que vai incorporar cada vez mais a robótica, a inteligência artificial e outros avanços tecnológicos.

Acontece que a conjuntura internacional, marcada pelas iniciativas de Donald Trump na área comercial e as respostas dos parceiros afetados por elas, subverteram a agenda.

Acabou predominando a discussão em torno do papel da OMC (Organização Mundial do Comércio), um dos inúmeros organismos internacionais que Trump vem criticando sistematicamente.

A delegação americana em Mar del Plata fez um ataque direto à China, mas sem usar em momento algum a palavra China. Todos os demais participantes, no entanto, sabiam qual era o alvo oculto quando os americanos reclamam de:

1 - Subsídios industriais, prática usual na China;

2 - Transferência forçada de tecnologia. O governo chinês obriga as empresas que pretendem se instalar na China, para se beneficiar com o imenso mercado local, a transferirem tecnologia para associados chineses.

3 - O papel de empresas estatais, outra característica do capitalismo chinês.

Foram tais queixas que levaram a administração Trump a impor tarifas pesadas a produtos chineses, com a reciprocidade inevitável praticada pela China.

Configurou-se o que a maior parte dos analistas classifica como “guerra comercial”, tão séria que levou a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde, a prever que esse conflito acabará por amplificar as dificuldades que os países emergentes já estão enfrentando.

A China também expôs na reunião dos ministros as suas queixas contra os Estados Unidos: reclamou do que chamou de “medidas unilaterais", como de fato são as tarifas impostas pelos americanos, e do uso do pretexto de segurança nacional para aplicar tarifas adicionais às importações de alumínio e aço.

A explicitação das divergências não chegou, no entanto, ao derramamento de sangue. Tanto que todos os países concordaram em trabalhar dentro do sistema (da OMC, mais precisamente). Os Estados Unidos condicionam essa colaboração a uma reforma profunda da organização internacional, sem a qual ameaçam procurar outro caminho, não especificado, mas que só pode ser o unilateralismo.

O Brasil, historicamente um defensor da OMC, concorda com a reforma, desde que ela não seja feita para atender apenas a um país (alusão óbvia aos Estados Unidos). Teria que ser, portanto, uma reforma em que todos ganham um pouco e todos perdem um pouco, diz o Itamaraty.

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