Descrição de chapéu 10 anos da crise global

OCDE faz mea-culpa de crise provocada pela quebra do banco Lehman Brothers

O pensamento econômico dominante não refletia a realidade, diz secretário-geral do órgão

AFP

O secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Ángel Gurría, reconheceu nesta sexta-feira (14) que não previu a crise provocada pela quebra do banco Lehman Brothers há 10 anos e pediu ao mundo financeiro que escute as vítimas da tragédia econômica.

"Em junho de 2007, no fim do primeiro ano do meu mandato, as previsões econômicas da OCDE garantiam que a situação econômica não era tão boa há anos", disse o secretário-geral do organismo em uma reunião em Paris sobre as lições da crise.

Ler estas linhas "é como me esfaquear", reconheceu o chefe da OCDE, uma instituição que na época também estava "otimista em relação ao mercado imobiliário americano".

Tirando lições dessa crise, Gurría admitiu que "o pensamento econômico dominante e os modelos em que se basearam não refletiam nem a realidade econômica, nem a vida das pessoas".

"É por essa razão que não percebemos isso. Erramos e devemos reconhecer isso", disse o secretário-geral, um dos poucos líderes econômicos na época da falência do Lehman Brothers a fazer um "mea-culpa". 

Durante seu discurso nesta reunião, que ocorreu na sede da OCDE sob o título "O que aprendemos dez anos após a quebra do Lehman Brothers?", Gurría pediu para ouvir os abandonados ao seu destino depois da crise, uma mensagem que vem repetindo há vários anos.

"Podemos começar não ignorando os sentimentos das pessoas que foram deixadas à própria sorte, ouvindo o que as pessoas têm a nos dizer", disse ele.

Fed

Na quinta (13), antes de Gurría, o ex-presidente do Federal Reserve Ben Bernanke também reconheceu que o banco central americano cometeu dois erros críticos no combate à crise financeira uma década atrás: não previram sua chegada com tanta força e depois subestimaram o estrago econômico que causaria.

“Ninguém enxergou o quanto a crise em si seria espalhada e devastadora”, ele afirmou durante um breve vídeo sobre um estudo de 90 páginas a respeito do assunto, divulgado nesta quinta-feira.

Bernanke comandou o Fed de 2006 até 2014 e hoje trabalha na Instituição Brookings, em Washington. Ele identificou o pânico que tomou conta do sistema financeiro com o colapso do Lehman Brothers Holdings, em 2008, como principal razão para a profundidade da recessão que se seguiu.

A falha em antecipar a severidade daquela derrapada “exige uma inclusão mais minuciosa de fatores do mercado de crédito nos modelos e previsões da economia” no futuro, escreveu ele separadamente em um blog.

Bernanke foi o segundo integrante do Fed a fazer mea culpa nesta semana. O ex-vice-presidente Donald Kohn concordou que o banco central fez erros de previsão durante a crise e depois dela. O Fed também superestimou os custos potenciais de seu polêmico programa de estímulo quantitativo e foi mais tímido do que deveria na execução do mesmo, ele disse.

“Nós ficamos atrás da curva”, disse Kohn durante uma conferência sobre a crise na Brookings, na terça-feira.

Bernanke discorda de quem argumenta que o estouro da bolha de preços de imóveis residenciais – e seu impacto sobre o patrimônio das famílias e os gastos dos consumidores – foi o principal fator para a crise profunda de uma década atrás. Ainda que esse fator sem dúvida tenha exercido influência importante, especialmente ao desencadear a crise, Bernanke entende que a recessão não teria sido tão grave se os investidores não tivessem resgatado às pressas dinheiro de bancos e outras instituições financeiras.

“Houve uma corrida, um pânico análogo ao dos anos 1930, mas de forma eletrônica e não com gente fazendo fila na rua”, ele disse no vídeo. “A disponibilidade de crédito despencou.”

Na mesma linha dos comentários feitos na semana passada pelo ex-secretário do Tesouro Timothy Geithner, Bernanke revelou temer que as reformas pós-crise tenham deixado o Fed e outras autoridades com menos ferramentas para lidar com a próxima crise.Para tentar impedir resgates pelo governo no futuro, o Congresso americano limitou a capacidade do Fed, da entidade garantidora de depósitos FDIC (Federal Deposit Insurance Corp.) e do Departamento do Tesouro de fornecer apoio emergencial ao sistema financeiro.

Embora as reformas de modo geral tenham melhorado significativamente a resistência do sistema a choques ao elevar o capital dos bancos e outras medidas, “os formuladores de políticas precisam ter as ferramentas apropriadas para combater a próxima crise”, escreveu Bernanke em seu estudo.

“Neste aspecto, estou um pouco menos otimista”, ele afirmou.

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