Economista de Bolsonaro, Paulo Guedes viveu mudança radical em Chicago

Economista entrou na universidade americana como keynesiano e saiu ultraliberal

Fernanda Mena
Chicago

Os edifícios de estilo gótico da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, foram testemunhas da mudança radical nas filiações intelectuais de um economista que pode ditar o futuro do Brasil.

Ele entrou pelas portas do Departamento de Economia, em 1974, como keynesiano —adepto das ideias do britânico John Maynard Keynes (1883-1946) de intervenção do Estado na economia—, mas saiu, em 1978, como um ultraliberal, entusiasta do livre mercado.

O carioca Paulo Roberto Nunes Guedes, 69, mais conhecido como o guru econômico de Jair Bolsonaro (PSL), chegou a Chicago aos 25 anos.

Ele estava acompanhado da mulher e com um diploma de mestrado em economia na FGV-Rio (Fundação Getulio Vargas) debaixo do braço.

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Paulo Guedes, 69, é fundador do Banco Pactual, do Ibmec e do Instituto Millenium. Hoje preside a Bozano Investimentos - AFP

A Universidade de Chicago, uma das mais importantes instituições de ensino do mundo, já era célebre pela difusão do pensamento liberal e do rigor acadêmico. 

Candidatos ao programa de doutorado que tivessem obtido o mestrado fora dali tinham de refazer o programa na Universidade de Chicago de modo a garantir solidez aos fundamentos necessários à graduação seguinte.

Mais experimentado que os colegas de curso, que ainda não haviam feito uma pós-graduação, Guedes se irritava com a revisão de certos conteúdos e fazia questão de demonstrar aos professores, em sala de aula, que já dominava o assunto.

O hoje defensor do Estado mínimo teve seus quatro anos de estudo parcialmente financiados por verbas do governo federal brasileiro.

Ao longo de dois anos, o economista recebeu US$ 2.330 por mês (R$ 8.756,61, na cotação atual), como parte de uma bolsa de estudos do CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).

Ele também recebeu verbas de uma bolsa da Universidade de Chicago e da FGV-Rio.

Guedes entrou no programa de Chicago rezando a cartilha de economistas chamados neokeynesiasnos.

Seus heróis eram Paul Samuelson (Nobel em 1970), James Tobin (Nobel em 1981) e Robert Solow (Nobel em 1987) e o ítalo-americano Franco Modigliani (Nobel em 1985), então mais difundidos no Brasil que o liberalismo.

As bolsas de estudo, no entanto, permitiram a ele não só ler economistas vencedores do Nobel mas também discutir, frente a frente, com os laureados da turma liberal.

Chicago é a universidade que mais reúne economistas vencedores do Nobel.

Ele foi aluno de Milton Friedman (Nobel em 1976), já descrito como o segundo economista mais influente do século 20 —o primeiro seria justamente —Keynes, Gary Becker (1992), Robert Lucas Jr. (1995) e Thomas Sargent (2011).

Esses dois últimos, recém-chegados àquela universidade nos anos 1970, teriam sido os principais responsáveis pela mudança de campo de Guedes ao introduzirem em seus cursos um novo e sofisticado instrumental teórico para a análise macroeconômica.

Ao contrário de boa parte dos colegas brasileiros e latino-americanos, que se dedicava ao estudo do desenvolvimento econômico, da agricultura e das finanças públicas, Guedes elegeu como áreas de concentração a macroeconomia, o comércio internacional e a economia matemática.

"O Paulo sempre gostou muito de política monetária. A macroeconomia era sua paixão", conta o amigo José Marcio Camargo, economista mineiro que foi seu colega de graduação e pós-graduação no Brasil e, no mesmo período em que ele esteve em Chicago, estudava no MIT (Massachusetts Institute of Technology), em Cambridge (EUA).

Camargo foi assessor econômico da campanha de Henrique Meirelles (MDB) à Presidência da República.
Os dois se falavam regularmente, sempre depois da meia-noite, quando as ligações eram mais baratas. "Tínhamos de economizar", lembra.

Pendurados no telefone por mais de uma hora, trocavam impressões sobre os cursos, informações sobre livros e se aconselhavam mutuamente na resolução de questões propostas por professores.

Em uma dessas ocasiões, quando Guedes estava em uma cabine telefônica falando com o ex-colega, dois estampidos interromperam a conversa. Um homem havia sido baleado ao lado da cabine e um impressionado Guedes preferiu desligar o telefone e ir para casa.

O economista vivia em um pequeno apartamento na rua Dorchester, em Hyde Park, ao sul de Chicago, cidade conhecida pela segregação racial entre o norte branco e o sul negro.

O bairro, onde até os anos 1950 os negros eram proibidos de comprar imóveis, havia finalmente se aberto à população pobre de seu entorno e enfrentava graves problemas de criminalidade e violência.

Anos depois, a família do ex-presidente Barack Obama se mudaria para um casarão a cinco quadras do antigo apartamento de Guedes. A região se tornou um enclave democrata.

Ainda que a vida de estudante bolsista tivesse restrições, Guedes e a mulher conseguiram viver com algum conforto e lazer nos Estados Unidos.

Eles frequentavam concertos de música clássica e assistiram a shows de artistas como Bob Dylan, Creedence Clearwater Revival, Peter Frampton e Fleetwood Mac.

Também no verão, o casal conseguia viajar pelos Estados Unidos a bordo de carros que compravam a preço baixo, já no fim da linha.

Uma dessas viagens teve a companhia de Camargo e sua mulher. Os dois casais acamparam de Chicago até San Francisco, na Califórnia, ida e volta.

Fora das férias de julho e agosto, a rotina de Guedes era de estudos de manhã, de tarde e de noite, interrompida por um pouco de exercício físico (corrida pelo bairro, quando o tempo permitia, e squash durante o rigoroso inverno).

Para quebrar as longas horas de estudo, às vezes se presenteava com um cachorro-quente polonês, com cebola caramelizada e mostarda, vendido ao lado da livraria do campus. No fundo, sentia falta da comida do Brasil.

Em Chicago, teve pouco contato acadêmico com outros brasileiros.

O economista José Alexandre Scheinkman, 70, que já era professor-assistente por lá, foi dos poucos com quem se relacionou, sempre focado nos estudos.

"Ainda que a gente tivesse interesses distintos, conversamos muito sobre questões técnicas", lembra ele, hoje professor na Universidade Columbia, em Nova York.

"Paulo Guedes não foi meu aluno, mas me lembro da cena em que eu estou diante de um quadro-negro tirando uma dúvida técnica porque conhecia os fundamentos que ele estava usando em seu trabalho."

Guedes mergulhou na teoria e nos modelos da macroeconomia.

Ao contrário dos trabalhos de economia aplicada dos colegas latino-americanos, sua tese foi teórica e recebeu o título "Optimal Fiscal Policy in a Two Sector Growth Model for an Open Economy" (Política fiscal ótima em um modelo de crescimento para uma economia aberta em dois setores).

Trata-se da extensão de um modelo matemático para questões de política fiscal e do acúmulo da dívida dos governos.

São 63 páginas datilografadas, em boa parte das quais figuram apenas equações. O volume de capa dura, depositado pelo próprio estudante Guedes, está hoje na biblioteca da universidade.

No preâmbulo do trabalho, ele agradece ao seu orientador, o economista Larry Sjaastad (1934-2012), a Scheinkman, ao israelense Jacob Frenkel (hoje presidente da JPMorgan Chase International), ao matemático americano William Brock e ao economista canadense Harry Johnson (1923-1977) pelos comentários.

O trabalho, no entanto, nunca foi publicado nem teve repercussão no Brasil, ao contrário das dissertações de outros brasileiros que estiveram na Universidade de Chicago, como Carlos Geraldo Langone, Ricardo Paes de Barros e Claudio Haddad.

Pouco afeito à modéstia, tal falta de reconhecimento marcaria a vida acadêmica de Guedes com uma boa dose de ressentimento.

Isso criaria também certa tensão com colegas economistas que publicavam artigos, integravam quadros docentes das universidades brasileiras de prestígio na área e ainda se revezavam em cargos públicos.

Guedes não se tornaria professor integral da FGV nem da PUC no Rio, dando aulas apenas em regime parcial, menos prestigioso. Também nunca ocupou um cargo público.

Ele resolveu se dedicar ao mercado financeiro, tornando-se sócio do Banco Pactual, depois de empresas de investimentos por meio das quais ganhou o que já classificou como "muito dinheiro".

Como ingenuidade nunca foi uma característica atribuída a Guedes, há quem acredite que sua associação a Bolsonaro seja uma busca por reconhecimento tardio —a mesma que o teria motivado a aceitar uma cadeira na Universidade do Chile na ditadura de Augusto Pinochet (1915-2006), ao lado de ex-colegas de estudos nos EUA.

No site do Departamento de Economia da Universidade de Chicago há um verbete que explica o surgimento do termo Chicago Boys nos anos 1970: são economistas chilenos, treinados nesse departamento, que ocuparam cargos importantes em inúmeros governos da América do Sul.

A eles é creditada a transformação do Chile na economia de melhor performance na América Latina e em um dos melhores ambientes de negócios do mundo. E destaca: "Ainda que esse resultado seja controverso".

Erramos: o texto foi alterado

Versão anterior deste texto informava incorretamente que Paulo Guedes é mineiro. Ele é carioca. Também a morte de John Maynard Keynes é 1946, não 1846. 

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