Descrição de chapéu Análise

Em novo acordo Nafta, Trump prepara terreno para guerra comercial com a China

Negociação dos EUA com vizinhos, União Europeia e Japão pode encurralar gigante asiático

Rich Miller , Andrew Mayeda e Jenny Leonard

O presidente Donald Trump parece estar se preparando para uma guerra comercial potencialmente longa com a China, ao resolver disputas com outros concorrentes dos Estados Unidos no comércio internacional.

Nas últimas semanas, ele chegou a um acordo de último minuto com o Canadá e México, assinou um acordo comercial com a Coreia do Sul e convenceu o Japão a iniciar negociações econômicas bilaterais. O acordo americano de comércio também inclui cláusulas cujo objetivo é aparentemente manter produtos chineses fora da região.

"Alguns meses atrás, os Estados Unidos se envolveram em um ataque em múltiplas frentes contra seus parceiros comerciais", disse Dec Mullarkey, diretor executivo da Sun Life Investment Management, que administra US$ 47 bilhões (R$ 183,3 bilhões) em ativos. "Agora, os Estados Unidos podem se concentrar na China".

Isso é uma boa notícia e uma má notícia para a economia mundial. Do lado positivo, sugere que Trump não é um isolacionista radical oposto a todas a formas de comércio internacional. Na interpretação de economistas do banco JPMorgan Chase, o presidente está evitando lançar uma guerra ao comércio que poderia desordenar a economia mundial.

Mas ele está embarcando em uma guerra comercial com a China que terá custos para ambas as economias no ano que vem e acarreta o risco de causar uma queda na confiança empresarial do planeta, eles afirmaram em uma nota de pesquisa divulgada e 28 de setembro.

"É cedo demais para conversar com a China", disse Trump na segunda-feira ao anunciar o novo acordo com o Canadá e o México na Casa Branca. "Não podemos falar agora porque eles não estão prontos, porque estão nos explorando há muitos anos. As coisas não acontecem tão rápido".

Os negociadores americanos claramente tinham a China em mente ao finalizar um novo acordo comercial com o México e o Canadá para substituir o Nafta (Acordo Norte-Americano de Livre Comércio) de 1994, que Trump define como um desastre,

"Uma parte pequena mas importante" do acordo tem por alvo a China, disse Peter Navarro, o assessor de comércio internacional da Casa Branca, à National Public Radio, na terça-feira.

As regras de origem do acordo, que governam a proporção do valor de um automóvel que precisa vir da região, foram alardeadas pelo governo Trump como um instrumento para excluir insumos chineses e encorajar o investimento e a produção nos Estados Unidos e na América do Norte.

"Os Estados Unidos parecem estar concentrados em impedir que produtos importados da China ganhem mercado no país", disse Flavio Volpe, presidente da Associação de Fabricantes de Autopeças do Canadá. "O protecionismo bruto a que o governo recorreu pode terminar criando uma coalizão de grandes parceiros comerciais que os chineses terão dificuldades para enfrentar por meio dos estímulos que podem oferecer".

O acordo revisado também requer que os três países deem aos parceiros três meses de aviso prévio caso iniciem negociações com uma "economia que não seja de mercado", o que representa uma referência indireta à China. Os Estados Unidos podem encerrar seu acordo com o México ou o Canadá caso algum deles feche um acordo comercial com uma economia que não seja de mercado.

A ministra do exterior canadense Chrystia Freeland minimizou a importância da cláusula, na segunda-feira, afirmando que os países sempre poderão cancelar o acordo caso assim desejem. Essa "é uma possibilidade que existe não importa quais sejam as circunstâncias", ela disse a repórteres em Ottawa.

O novo acordo USMCA (Estados Unidos-México-Canadá) também proíbe  os signatários de buscar melhoras em sua competitividade econômica por meio de desvalorização cambial, algo que Trump acusou a China de ter feito no passado.

Ao fechar um acordo com seus vizinhos –e iniciar negociações com os aliados Japão e União Europeia–, Trump está reforçando sua posição de negociação diante de Pequim, concorrente estratégica dos Estados Unidos.

"O próximo passo será encarar a China à frente de uma coalizão mais ampla", disse David Hensley, diretor de economia mundial no JPMorgan Chase de Nova York, apontando que outros países compartilham das preocupações americanas quanto às práticas comerciais supostamente desleais e ao mercantilismo de Pequim.

Os ministros do comércio internacional dos Estados Unidos, União Europeia e Japão divulgaram um comunicado conjunto na semana passada dirigido claramente à China, prometendo combater políticas e práticas não orientadas ao mercado da parte de terceiros países, e condenando o roubo da propriedade intelectual de empresas multinacionais.

"Se os Estados Unidos fecharem novos acordos comerciais com grandes parceiros, muitos dos quais também são parceiros importantes da China, Pequim se sentiria cada vez mais encurralada", disse Eswar Prasad, professor da Universidade Cornell e antigo especialista em questões chinesas no FMI (Fundo Monetário Internacional).

Terry Haines, diretor de análise política da Evercore ISI, afirmou em nota a clientes na segunda-feira que seu cenário básico é que Estados Unidos e China não cheguem a um acordo pelo menos até 2019.
"Mas o novo acordo Nafta mostra à China e outros que o governo Trump está disposto a concluir novos acordos comerciais, desde que estes tratem de preocupações centrais dos Estados Unidos", ele disse.
No entanto, um acordo assim pode ser difícil de fazer, para Pequim. O governo Trump está pressionando por grandes mudanças na maneira pela qual a China administra sua economia, via subsídios e uma política industrial dirigida pelo governo.

"As coisas que eles estão pedindo são praticamente inatingíveis", disse Phil Levy, pesquisador sênior sobre economia mundial no Conselho de Assuntos Mundiais de Chicago, e antigo assessor de comércio internacional no conselho de assessores econômicos da Casa Branca, no governo de George Bush filho.
Trump parece ter aludido às dificuldades que estão por vir, ao falar a jornalistas na segunda-feira.

"Eles fazem o que querem", ele disse, em referência a Pequim, e acrescentou: "Temos um grande atraso a tirar com relação à China".
 
Tradução de PAULO MIGLIACCI

Bloomberg

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