Descrição de chapéu The New York Times

Musk chega a acordo com a SEC, mas problemas da Tesla não acabaram

Empresa continua enfrentando dificuldades para produzir e entregar os carros Model 3

Nova York | The New York Times

Elon Musk foi repreendido pelas autoridades regulatórias federais dos Estados Unidos, na noite de sábado (29), e concordou em deixar a presidência do conselho da Tesla e em ter suas comunicações monitoradas.

Mas o exuberante Musk, o bilionário presidente-executivo da Tesla, não deu sinais imediatos de que mudaria de estilo.

No domingo, horas depois de chegar a acordo com a SEC (Securities and Exchange Commission), agência federal que regulamenta os mercados de valores mobiliários dos Estados Unidos, para encerrar uma investigação por fraude quanto a uma mensagem impulsiva que ele postou no Twitter em 7 de agosto, Musk enviou um email a todos os empregados da Tesla. Ele implorou que trabalhassem com afinco, mesmo que a mensagem tenha sido enviada no final de semana.

"Basta mais um dia de trabalho super hardcore e a vitória será nossa!", ele escreveu. "Estamos muito perto de sair do vermelho e de provar que os agourentos estão errados, mas para garantir esse resultado precisamos executar bem, amanhã (domingo). Se trabalharmos com toda força amanhã, conseguiremos uma vitória épica, além de qualquer expectativa, Vai Tesla!!!"

Apesar de todo o entusiasmo noturno de Musk, no entanto, a Tesla tem muitos desafios a enfrentar nos próximos meses.

A empresa continua enfrentando dificuldades para produzir e entregar os carros Model 3, que são a chave de seu futuro financeiro. Suas reservas de caixa estão baixas, e ela tem dívidas a pagar em breve.

Especuladores continuam apostando contra a companhia nos mercados futuros, prevendo uma queda no valor de suas ações. A SEC continua a averiguar afirmações passadas da empresa quanto a suas metas de produção, e o Departamento da Justiça americano também está investigando o tuíte de Musk.

E Musk mesmo –que também comanda a SpaceX e a Boring– continua errático, propenso a comportamentos imprevisíveis que muitas vezes causam problemas a suas diversas empresas.

"Tenho a sensação de que a SEC deseja uma presença adulta na companhia", disse Peter Henning, professor de direito na Universidade Estadual Wayne, em Detroit, e colaborador da seção DealBook do The New York Times. "Mas será que Musk os ouvirá?"

Nem a empresa e nem Musk divulgaram comunicados para comentar oficialmente sobre o acordo.
Nos 10 últimos anos, desde que Musk se tornou presidente-executivo da Tesla, ele e a companhia se tornaram praticamente sinônimos. Ele é a força vital da empresa, determina sua direção estratégica, toma virtualmente todas as decisões importantes, e trabalha em cada detalhe do design e da fabricação de seus produtos.

Sua intensidade e sua ética de trabalho levaram a uma onda de demissões de executivos nos últimos anos, e o conselho da Tesla –que inclui Kinbal, o irmão de Musk– não é especialmente independente, pelos padrões da maioria das grandes empresas.

Os termos do acordo com a SEC planejam mudar parte disso.

A Tesla terá de adicionar dois membros independentes ao seu conselho. Musk não poderá voltar à presidência do conselho por três anos, e este terá de criar um comitê independente para monitorar as comunicações de Musk com investidores e com o público, o que inclui seus posts no Twitter e em outros veículos de mídia social. Os membros do comitê especial estarão sujeitos a avaliação e veto pela SEC.

A Tesla também deve implementar procedimentos e controles compulsórios para supervisionar todas as comunicações de Musk com relação à companhia, em qualquer formato, nos termos do acordo. A SEC monitorará o cumprimento dessas condições pela empresa.

Alguns críticos do acordo deram a entender que a SEC –que em um processo judicial aberto na quinta-feira, dois dias antes do acordo, solicitava que Musk fosse proibido de trabalhar como executivo e de integrar o conselho de qualquer empresa de capital aberto– foi leniente com o empreendedor.

Declarações de Jay Clayton, presidente da SEC, sobre o acordo reforçaram a impressão de que as autoridades regulatórias estavam abrindo uma exceção para Musk, cujo papel na Tesla é muito central. Clayton disse que havia necessidade de buscar um equilíbrio entre a punição por violar as leis de valores mobiliário e a capacidade e o apoio de certos indivíduos, que podem ser importantes para o sucesso futuro da empresa.

Mas Rebecca Roiphe, professora da Escola de Direito de Nova York, disse que tirar Musk de seu papel de liderança na empresa teria sido um erro.

"Creio que impedir que ele continuasse como presidente-executivo teria sido desproporcional, considerando o que ele fez, e que é o fundador, maior acionista e cérebro por trás de uma empresa inovadora", ela disse. A SEC é uma organização regulatória civil, ela apontou, e seu objetivo é proteger os investidores. "Embora ela compartilhe de alguns dos objetivos dos procuradores federais, sua missão é diferente".

O furor gerado por um post de Musk no Twitter em agosto, no qual ele afirmava ter "garantido o financiamento" para promover o fechamento do capital da montadora de carros elétricos, com uma oferta de US$ 420 por ação, desviou as atenções das preocupações muito reais quanto aos produtos da Tesla e o balanço da empresa.

O email de Musk aos seus subordinados foi menos otimista do que projeções anteriores que ele fez sobre o trimestre. Desde o final de junho, ele vem insistindo em que a Tesla apresentará lucro e fluxo de caixa positivo no terceiro e no quarto trimestres.

Mas nas últimas semanas a Tesla começou a cortar custos e suspender gastos, na esperança de apresentar lucro agora que as vendas do Model 3 estão subindo. Em junho, a empresa demitiu 9% de seu pessoal e recentemente deixou de oferecer o Model 3 em determinadas cores. Também atrasou pagamentos a fornecedores. No começo do terceiro trimestre ela devia US$ 3 bilhões a fornecedores.

"É difícil para mim acreditar que eles venham a ser lucrativos, pelos padrões tradicionais", disse Karl Brauer, editor executivo dos boletins noticiosos Autotrader e Kelley Blue Book, especializados em indústria automobilística. "É possível ser muito criativo na contabilidade, em termos de como definir lucratividade e de incluir ou não determinados custos".

Elon Musk,presidente da Tesla
Após deixar a presidência da Tesla, Elon Musk enviou um email a todos os empregados da companhia - Chris Carlson/AP

Embora o foco de muitos analistas esteja no volume de produção do Model 3, um indicador mais importante no momento é o volume de entregas. Ao contrário de outras montadoras, a Tesla não fera receita simplesmente fabricando carros. Ela não registra receita até entregá-los aos consumidores.

Empresas como a Ford Motor e a General Motors registram receitas quando enviam carros às concessionárias.

Problemas severos em suas entregas retardariam o crescimento da receita da Tesla mesmo que ela consiga elevar sua produção de carros, e nas últimas semanas a companhia vem enfrentando problemas para enviar carros aos seus compradores.

A Tesla terá um anúncio de resultados decisivo a fazer dento de cerca de um mês. Os analistas –e a SEC– estarão acompanhado cada declaração de Musk, cada post dele no Twitter, para determinar se a governança empresarial da Tesla mudou.

Na prática, por ordem da SEC, o conselho da Tesla agora terá de servir de babá para Musk, e garantir que ele não diga coisa alguma que cause problemas a ele ou à empresa.

"Em geral não sou fã desse tipo de cláusula de governança", disse Jim Fisch, professor da escola de direito da Universidade da Pensilvânia e especialista em governança empresarial. "Mas as cláusulas impostas nesse caso parecem bastante específicas e bem enquadradas à conduta que causa preocupação".
 
Tradução de PAULO MIGLIACCI

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