Bolsonaro ataca metodologia de desemprego do IBGE

Sindicato diz que pesquisa segue padrões internacionais e critica intervenção política

Rio de Janeiro

O presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) criticou a metodologia adotada pelo IBGE  (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) para calcular o indicador oficial de desemprego no país.

Em entrevista nesta segunda-feira (5) ao apresentador José Luis Datena, da TV Bandeirantes, Bolsonaro afirmou que a Pnad Contínua, a pesquisa de emprego do IBGE , seria uma farsa por supostamente considerar como empregadas pessoas que de fato não estariam ocupadas.

O presidente eleito afirmou que a pesquisa deve ser modificada. A ideia, segundo ele, seria haver indicador que mediria empregados em detrimento do número desocupados, que no jargão estatístico referem-se aos desempregados.

"Vou querer que a metodologia para dar o número de desempregados seja alterada no Brasil, porque isso daí é uma farsa. Quem, por exemplo, recebe Bolsa Família é tido como empregado. Quem não procura emprego há mais de um ano é tido como empregado. Quem recebe seguro-desemprego é tido como empregado. Nós temos que ter realmente uma taxa, não de desempregados, mas uma taxa de empregados no Brasil", disse Bolsonaro.

O IBGE afirmou que a Pnad é uma das pesquisas mais avançadas do mundo e que recomendações de organismos internacionais, como a OIT (Organização Internacional do Trabalho).

Em nota, o Assibge-SN (Sindicato Nacional dos Trabalhadores do IBGE) afirmou que, na pesquisa, é considerado ocupado (“empregadas”) quem, na semana de referência da pesquisa, trabalhou ao menos uma hora em em atividade remunerada diretamente ou em ajuda à atividade remunerada de outro membro do domicílio.

"Sem as condições acima citadas, pessoas que recebem Bolsa Família, que não procuram trabalho há mais de um ano ou que recebem seguro-desemprego não são classificadas automaticamente como 'empregadas'", afirmou.

"O IBGE esclarece que os beneficiários do Bolsa Família são retratados especificamente por uma edição anual da PNAD Contínua, que investiga os rendimentos provenientes de todas as fontes. Em 2017, este universo abrangia cerca de 9,5 milhões de domicílios do país. Os beneficiários que vivem nestes domicílios podem encontrar-se em diferentes condições, em relação ao mercado de trabalho: alguns deles podem estar desempregados, outros trabalhando apenas para consumo próprio, outros fora da força de trabalho e outros, ainda, desalentados", afirmou o instituto em nota.

A taxa de desemprego é calculada a partir de todos os indivíduos com 14 anos ou mais, que procuraram trabalho na semana de referência da pesquisa e não encontraram, sejam como funcionário, como empregador ou por conta própria. Quem desistiu de procurar trabalho é incluído na categoria de desalentados.

O IBGE também adota outras categorias, como a subutilização da força de trabalho, que inclui pessoas que trabalham em jornadas inferiores a 40 horas semanais, mas que gostariam de trabalhar mais.

A pesquisa abrange cerca de 3.500 municípios em todas as regiões, com entrevistas em 210 mil domicílios do país. Ela segue, atualmente, orientações da OIT (Organização Internacional do Trabalho).

Esta amostra é visitada, a cada trimestre, por cerca de 2.000 agentes de pesquisa.

CRÍTICAS

Ainda em nota, o Assibge-SN defendeu que a metodologia não depende da vontade de governos. "Somos um órgão de Estado, a serviço da sociedade brasileira", afirmou.

"O IBGE é reconhecido nacional e internacionalmente pela qualidade do seu quadro técnico e pela credibilidade das suas informações. Dentre os princípios que regem seu funcionamento estão a independência política e a autonomia técnica na definição de suas metodologias. A intervenção política em órgãos oficiais de estatísticas já se mostrou desastrosa para a credibilidade de instituições de pesquisa, como ocorreu recentemente na Argentina", disse, em nota.

Durante a gestão de Cristina Kichner na Argentina, o governo manipulou taxas de inflação, levando ao mercado a trabalhar com uma taxa paralela à oficial. 

O sindicato ainda afirmou que o IBGE nunca foi fechado à contribuição da sociedade e que a própria Pnad Contínua "foi resultado de discussões no âmbito do Fórum do Sistema Integrado de Pesquisas Domiciliares (SPID), que remontam a 2006".

"O instituto sempre esteve aberto a sugestões e à disposição do governo e dos cidadãos para esclarecimentos a respeito do seu trabalho", afirmou o IBGE.

Segundo o analista Marcel Caparoz, especialista em taxa de desemprego da RC Consultores, o indicador está em linha com o que é praticado nos mercados internacionais.

"Relatórios de bancos e instituições internacionais sempre utilizaram os dados da Pnad Contínua, comparam com outros países e em nenhum momento têm preocupação de colocar ressalva sobre dúvida em relação aos dados oficiais brasileiros", disse.

Ele disse ainda que a fala de Bolsonaro é ruim visto que questiona a credibilidade do instituto, mas que considera que a declaração foi uma colocação "pontual e equivocada".

"Teremos que nos acostumar daqui em diante, de colocações mal fundamentadas ou baseadas em informações incorretas", disse.

METODOLOGIA

Segundo a metodologia atual, é considerado desocupado quem não está trabalhando, mas que procurou emprego nos últimos 30 dias.

Essas pessoas são consideradas como parte da força de trabalho, assim como quem exerce alguma atividade remunerada, isto é, a população ocupada (empregada).

Já as pessoas que não trabalham nem procuram emprego não entram na conta do desemprego, pois estão fora da força de trabalho.

Beneficiários do Bolsa Família, por exemplo, não entram no rol de empregados caso não estejam trabalhando de fato. Eles entram no grupo de desocupados caso estejam em busca de oportunidade e tenham tomado alguma medida para isso.

A situação é a mesma para beneficiários de seguro-desemprego. Eles não entram no grupo de empregados e só fazem parte dos desocupados se estiverem em busca de colocação.

INFORMALIDADE

No trimestre encerrado em setembro passado, último dado disponível, a taxa de desemprego ficou em 11,9%, contra 12,4% do trimestre encerrado em junho.

Desde o fim do ano passado que o país experimenta redução da taxa de desemprego na esteira do aumento de trabalhos informais em detrimento de postos com carteira assinada. Ao todo, 12,5 milhões de pessoas estavam desocupadas no período.

No período, os empregos com carteira assinada ficaram estáveis em 32,9 milhões de pessoas, enquanto os trabalhos sem carteira subiram 4,7%, chegando a 11,5 milhões de pessoas.

Já os trabalhadores por conta própria, que são micro e pequenos empresários sem empregados, registraram alta em setembro de 1,9% a 23,5 milhões de pessoas.

A informalidade, marcada por empregos sem a proteção da lei trabalhista, bateu recorde no país e já atinge 43% dos trabalhadores.

 

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