Executivo da Mitsubishi diz que aliança Nissan-Renault pode sobreviver

Futuro de maior grupo automotivo do mundo foi posto à prova com prisão de Carlos Ghosn

Maki Shiraki
Okazaki (Japão)

 Um executivo importante da Mitsubishi Motors disse na terça-feira que a aliança entre a Nissan Motor e a Renault pode sobreviver ao tumulto no comando das companhias, um dia depois que a Mitsubishi demitiu Carlos Ghosn como presidente de seu conselho invocando delitos de conduta financeira.

O futuro da aliança criada 19 anos atrás, que se tornou um dos maiores grupos automotivos do planeta, foi colocado em questão com a detenção e subsequente destituição de Ghosn de seu posto de presidente dos conselhos da Nissan e da Mitsubishi Motors.

Ghosn, 64, é o arquiteto da aliança e o presidente de seu conselho. Ele também continua como presidente-executivo e do conselho da Renault.

Executivos de primeiro escalão da aliança devem participar de um evento que faz parte de sua agenda regular, esta semana em Amsterdã, e que segundo fontes começaria na quarta-feira.

Os executivos também devem discutir Ghosn como presidente do conselho da aliança, disse uma fonte na Nissan à Reuters, solicitando que seu nome não fosse mencionado porque o conteúdo da reunião não é público.

Osamu  

Masuko, presidente-executivo da Mitsubishi, disse na segunda-feira que participaria da reunião via videoconferência, enquanto Hirotro Saikawa, o presidente-executivo da Nissan, que está no Japão, ainda não decidiu se viajaria para participar do evento, disseram duas fontes na companhia. A Nissan se recusou a comentar.

Um dos focos, em longo prazo, é determinar se e como a estrutura de capital da aliança pode se desenvolver, já que Ghosn, pressionado pelo governo francês, estava lutando por uma integração mais profunda, que incluiria uma potencial fusão completa entre a Renault e a Nissan, apesar das fortes objeções desta última.

A Renault detém participação acionária de cerca de 43% na Nissan, que por sua vez detém participação de 34% na Mitsubishi Motors. A Nissan, a maior das parceiras da aliança pelo critério de vendas, tem uma participação acionária de 15% na Renault, sem direito a voto.

Falando a repórteres no centro de pesquisa e desenvolvimento de Okazaki, no centro do Japão, Mitsuhiko Yamashita, vice-presidente executivo da Mitsubishi, disse que não importa que forma a aliança venha a assumir, as três companhias continuariam a comprar mais componentes juntas, e a explorar sua ligação a fim de desenvolver novas tecnologias.

"Não posso dizer de que maneira a aliança tripla vai evoluir, mas produzir carros exigirá mais e mais tecnologias novas, e os dias em que uma montadora sozinha era capaz de lidar com tudo isso por conta própria chegarão ao fim", disse Yamashita, que no passado foi diretor geral de engenharia da Nissan.

Ele disse que a aliança teria de definir quem tomaria as decisões, e como, sem a figura unificadora de Ghosn, mas estava confiante em que a parceria tinha força suficiente para sobreviver ao desafio.

"Renault e Nissan têm um histórico de quase 20 anos juntas, e já faz quase dois anos que a Mitsubishi Motors se uniu a elas", ele disse. "A fundação sobre a qual a cooperação foi construída está se tornando forte, e portanto tenho fé em que poderemos trabalhar com isso".

Selada em 1999, quando a Nissan foi resgatada da quase falência, a aliança franco-japonesa foi ampliada em 2016 para incluir a Mitsubishi, e permitir que os integrantes desenvolvam produtos e encontrem maneiras de cortar custos trabalhando juntos.

A declaração de Yamashita ecoa comentários de Saikawa, que disse ao pessoal da companhia em uma reunião com representantes dos funcionários na segunda-feira que a aliança continuava importante para gerar sinergias.

Saikawa também declarou que existia uma "concentração excessiva de poder" nas mãos de Ghosn, e que no futuro os membros da aliança deveriam se comunicar melhor a fim de ajudar a preservar sua independência.

Ghosn está preso em Tóquio sob suspeita de delitos financeiros, entre os quais declarar remuneração inferior à recebida e uso de dinheiro da empresa para fins pessoais. Ele nega essas acusações, de acordo com a rede estatal de TV japonesa NHK.

O executivo não comentou publicamente sobre as acusações e a Reuters não conseguiu contato com ele ou seus advogados para que comentasse.

Novas acusações

Na terça-feira, surgiram novas acusações. A imprensa japonesa reportou que Ghosn havia transferido prejuízos que sofreu com seus investimentos à Nissan, na crise financeira de 2008, de modo a evitar perdas pessoais da ordem de milhões de dólares.

Mencionando fontes múltiplas, mas sem citar nomes, o jornal japonês Asahi Shimbun disse que quando o banco de Ghosn solicitou garantias adicionais dele para uma de suas transações, ele em lugar disso transferiu à Nissan os direitos sobre a transação com derivativos, o que na prática representou prejuízo de 1,7 bilhão de ienes (US$ 15 milhões) para a montadora.

A Comissão de Vigilância de Valores e Bolsas do Japão descobriu o incidente como resultado de uma fiscalização de rotina este ano, de acordo com o jornal.

A Nissan declarou que não comentaria sobre a reportagem. Um porta-voz da comissão de valores japonesa declarou que a organização não comentava sobre casos específicos.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

Reuters
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