Descrição de chapéu Financial Times

Minuta de declaração do G20 omite compromisso de rejeitar o protecionismo

Comunicados costumam incluir menções ao tema desde que o fórum foi criado, em 2008

Nova York | Financial Times

O duradouro apelo do G20, clube das 20 maiores economias do mundo, pela rejeição ao protecionismo comercial está em dúvida, nos preparativos para a conferência de cúpula em Buenos Aires, de acordo com uma proposta de texto para o comunicado conjunto dos participantes que está sendo discutida por representantes de governos, e da qual o Financial Times obteve uma cópia.

O comunicado, que ainda está sendo negociado e pode mudar antes que a conferência de Buenos Aires comece, em 30 de novembro, apelaria que os países reconheçam a importância do sistema de comércio multilateral e trabalhem para manter os mercados abertos e garantir a lisura na competição.

No entanto, não existe referência explícita a combater o protecionismo. Os comunicados do G20 costumam incluir menções ao combate ao protecionismo desde que o fórum foi criado, em 2008.

A omissão pode ajudar a evitar uma repetição da fricção que surgiu entre Donald Trump e os demais líderes mundiais na conferência do G20 na Alemanha, em 2017, e na conferência de cúpula do G7 no Canadá, este ano, causada entre outras coisas por desentendimentos quanto ao uso desse tipo de terminologia. A reunião do G20 este ano será dominado pelas tensões no comércio internacional e por um encontro entre Trump e seu colega chinês, o presidente Xi Jinping.

Um funcionário da Casa Branca declarou que "temos o compromisso de trabalhar para um consenso no G20 e não comentamos sobre negociações em curso".

Trump inverteu totalmente a política comercial dos Estados Unidos, desde que assumiu, no começo de 2017, impondo tarifas a aliados estratégicos como o Canadá, o Japão e a União Europeia, e colocando os Estados Unidos em um confronto comercial com a China.

O presidente americano ameaçou tirar seu país da OMC (Organização Mundial do Comércio) a menos que ela seja reformada. Ainda que exista uma referência à importância do sistema de comércio multilateral no texto que vazou para a imprensa, a linguagem é menos firme que a adotada no comunicado da conferência de cúpula do G20 no ano passado, quando o papel do sistema de comércio internacional foi descrito como "crucial".

De acordo com a minuta de comunicado, os ministros de comércio internacional serão instruídos a desenvolver propostas para que a OMC continue a ser relevante, e a colocá-las em circulação antes da conferência do ano que vem.

A declaração que está sendo negociada oferece apoio a um aumento do capital do FMI (Fundo Monetário Internacional), que iniciou uma campanha de de arrecadação de fundos para elevar sua disponibilidade de recursos, diante da possibilidade de uma nova crise financeira mundial.

"Reafirmamos nossos compromisso de reforçar ainda mais a rede de segurança financeira mundial, por meio de um FMI forte, baseado em cotas e dotado de recursos adequados, que ocupará posição central no sistema", diz o texto.

Uma nova rodada de capitalização do FMI requereria ajustar o poder de voto dos países membros da instituição de forma a refletir sua importância na economia mundial, o que resultaria em mais influência para economias de mercado emergente como a China.

A minuta do comunicado também inclui terminologia muito mais branda do que a de comunicados anteriores do G20 na área de ações contra a mudança climática; a seção atenuada sobre o clima resulta de pressões dos Estados Unidos e da Arábia Saudita, disseram pessoas informadas sobre as discussões.

O documento menciona de passagem o Acordo de Paris sobre o clima, de 2015, mas apenas no contexto de "reconhecer as circunstâncias diferentes, entre as quais as dos países determinados a implementar o acordo de Paris". O texto não solicita mais verbas para ajudar os países em desenvolvimento a enfrentar a mudança no clima, e afirma apenas que foram discutidas questões de financiamento referentes à mudança do clima.

A minuta contrasta com a linguagem forte do comunicado do G20 em sua conferência de cúpula do ano passado, que criticava os Estados Unidos por terem anunciado sua retirada do Acordo de Paris. O comunicado afirmava que "os líderes dos demais países membros do G20 declaram que o Acordo de Paris é irreversível".

A reunião do G20 este ano acontece antes da maior conferência de cúpula da ONU sobre o clima nos últimos três anos –a COP24, que começa em 3 de dezembro na Polônia. A minuta não faz menção à conferência sobre o clima e omite o recente relatório do Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas, que quantificou o impacto de um aumento de dois graus Celsius na temperatura mundial.
 
Tradução de PAULO MIGLIACCI

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