Bolsas americanas têm pior semana desde a crise de 2008

Ibovespa perde 2% na semana, e dólar fecha perto de R$ 3,90

Tássia Kastner Danielle Brant
São Paulo e Nova York

As notícias ruins para o presidente Donald Trump nesta semana não se ativeram ao caos político que tomou conta da Casa Branca. O mercado acionário dos EUA mergulhou em uma volatilidade tão forte que fez muitos investidores se questionarem se os bons tempos de recordes e altas ficaram no passado.

O Dow Jones, índice que reúne as 30 ações mais líquidas da Bolsa de Nova York, despencou 6,9% na semana, a pior desde a encerrada em 10 de outubro de 2008 (-18,15%), auge da crise financeira global.

O S&P 500, das maiores empresas, também teve queda semanal de 6,9%, na maior desvalorização para o período desde março de 2009. O índice da Bolsa Nasdaq foi o mais golpeado na semana, com perda de 8,4%, a maior desde novembro de 2008.

O indicador entrou oficialmente no que se chama de “Bear Market”, quando há uma queda de mais de 20% em relação a uma máxima recente. É a primeira vez que isso acontece desde a crise.

Em meio a isso, o Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, recuou 2% na semana. Nesta sexta, porém, subiu 0,50% e terminou a 85.697 pontos. O giro financeiro foi de R$ 18 bilhões, acima da média diária do ano, de R$ 12,8 bilhões. O que também é atípico para o período, que costuma ser de desaceleração nos negócios.

A forte volatilidade da semana e o pessimismo dos investidores têm como pano de fundo preocupações com a economia americana e uma avaliação de que, talvez, o banco central do país não esteja calculando corretamente o risco de desaceleração ao sinalizar mais aumentos de juros em 2019.

Nesta quarta, o Federal Reserve (Fed) aumentou os juros no país para a faixa entre 2,25% e 2,5% ao ano, e indicou que vai subir a taxa mais duas vezes no próximo ano, contra três elevações indicadas em setembro.

Um aumento de juros costuma afetar a expansão dos países, por enxugar dinheiro da economia que poderia ser gasto com consumo ou em investimento produtivo.  

Nesta sexta, o Departamento de Comércio americano divulgou que o PIB dos EUA cresceu 3,4% no terceiro trimestre, ante expansão de 4,2% nos três meses anteriores.

Com a desaceleração cada vez mais evidente, havia a expectativa de que o Fed poderia dar um sinal de que pausaria seu ciclo de aperto monetário, o que não ocorreu.

Diante da reação negativa dos mercados, o presidente do Fed de Nova York, John Williams, tentou, sem sucesso, tranquilizar os investidores nesta sexta. Ele afirmou que o banco central ouve as preocupações dos investidores e está aberto a reavaliar suas visões de política no próximo ano.

“Quando o Fed diz que está planejando duas altas, o mercado vê isso com preocupação, porque tem dúvidas sobre a economia americana”, diz John Canavan, analista da consultoria Oxford Economics.

Ele diz, porém, que a avaliação que o Fed faz da economia está correta, considerando que o duplo mandato do banco central americano está sendo cumprido: máximo emprego e estabilidade de preços.

Os Estados Unidos estão criando vagas de emprego há 98 meses consecutivos. O desemprego no país está em 3,7%, menor nível em 49 anos. A inflação monitorada pelo Fed está em torno de 2% ao ano, que é a meta estabelecida pelo banco central americano.

“O mercado acha que é uma visão cor de rosa, mas nossas projeções estão em linha com as do Fed, de uma economia saudável”, afirma Canavan.

É a mesma opinião de Ryan Connelly, analista de economia global do Frontier Strategy Group. “Acho que os mercados esperavam que o Fed não subisse os juros ou comunicasse sua intenção de apoiar os mercados, mas o Fed não está aqui para apoiar o mercado”, diz.

Para a Capital Economics, porém, as altas sinalizadas para 2019 podem ser um “(pequeno) erro político”. As altas realizadas desde dezembro de 2015 provocaram um aperto nas condições monetárias, o que está começando a pesar nos gastos. Com o fim do efeito do estímulo fiscal anunciado por Trump em 2017, a economia deve desacelerar no próximo ano.

“Nós achamos que isso eventualmente vai fazer com que o Fed precise reverter o curso, cortando cerca de 75 pontos-base no início de 2020.”

A semana também contou com um elemento de estresse adicional: a possibilidade de paralisação parcial do governo americano. O presidente Donald Trump e os democratas entraram em um embate sobre o financiamento do muro que o republicano quer construir no México, e nenhum dos lados parece disposto a ceder.

Para Connelly, começou a cair a ficha dos investidores sobre o que aguarda o cenário político americano a partir de janeiro, quando os democratas assumem o controle da Câmara dos Deputados. “As pessoas estão percebendo que, quando os democratas assumirem, haverá um impasse em Washington. Trump não vai conseguir aprovar tudo o que quer. Não vai ser um governo funcional.”

Neste cenário, o dia foi negativo também para moedas. O dólar chegou a operar em queda ante o real, mas terminou o dia em alta de mais de 1%. Desempenho semelhante foi visto ante a maioria das divisas emergentes. A moeda americana fechou a R$ 3,8970.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.