Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Estilo de vida luxuoso de Ghosn deu a Nissan munição para derrubá-lo

Vida do executivo contrastava com gestão concentrada em corte de custos, para elevar lucros

Nova York | The Wall Street Journal

A casa que ajudou a deflagrar a queda de Carlos Ghosn é uma mansão cor de rosa em um dos bairros mais dispendiosos de Beirute.

As paredes eram decoradas com retratos do titã da indústria automotiva, que supervisionou pessoalmente, com a ajuda de sua segunda mulher, a compra e reforma da propriedade, um projeto em valor total de US$ 15 milhões (R$ 58 milhões), disseram pessoas próximas a Ghosn. Dois sarcófagos antigos, encontrados durante a reforma, ficam visíveis, por uma porta de vidro que conduz a uma adega.

No começo do ano, uma equipe de executivos da Nissan, trabalhando sem que Ghosn estivesse informado, descobriu que a casa de Beirute e outras propriedades haviam na verdade sido compradas pela empresa, por meio de uma rede de companhias de fachada. A Nissan, que Ghosn comandava desde 1999, em uma aliança cada vez mais desconfortável com a Renault, também pagou pela reforma, de acordo com pessoas informadas sobre o assunto.

Casa de Carlos Ghosn em Beirute, no Líbano
Casa de Carlos Ghosn em Beirute, no Líbano - Jamal Saidi/Reuters

A descoberta do papel da Nissan em financiar o estilo de vida luxuoso de Ghosn serviu como estopim para a frustração e descontentamento que vinham se acumulando há muito tempo na companhia –e pode ter esvaziado planos de Ghosn para agir preventivamente contra sua direção.

Este relato, baseado em entrevistas com dezenas de veteranos da Nissan e pessoas informadas sobre a investigação, mostra que as acusações de que ele ocultou sua remuneração e fazia gastos pessoais pesados usando dinheiro da companhia se entrelaçam a um profundo descontentamento quanto ao longo reinado de Ghosn na montadora. Empregados da Nissan se queixavam de que os lucros da companhia serviam para escorar a Renault, e muitos temiam que Ghosn estivesse preparando uma tomada de controle pela Renault de sua parceira japonesa, uma empresa de maior porte.

Por meses, um grupo de executivos da Nissan recolheu informações sigilosamente sobre Ghosn, preparando a operação realizada em 19 de novembro contra ele e um importante assessor, Greg Kelly. O grupo conseguiu persuadir Kelly, que trabalha nos Estados Unidos, a viajar ao Japão no dia em que a chegada de Ghosn era esperada. As manobras permitiram que a procuradoria pública japonesa detivesse os dois homens rapidamente, e conduzisse revistas na sede da empresa e no apartamento de Ghosn em Tóquio, poucas horas mais tarde, dizem pessoas informadas sobre os acontecimentos.

Quando Hiroto Saikawa, sucessor escolhido a dedo por Ghosn para a presidência executiva da Nissan, realizou uma reunião com o pessoal na sede da empresa para explicar o acontecido, os empregados reunidos aplaudiram espontaneamente, de acordo com pessoas presentes. Os sentimentos negativos contra Ghosn na Nissan vinham ganhando força "como um vulcão", diz uma pessoa informada sobre as investigações da companhia.

Foi uma virada súbita para um homem no passado reverenciado como salvador da Nissan, e um dos mais poderosos líderes da indústria automobilística. Depois de sua detenção, em novembro, a Nissan rapidamente destituiu Ghosn da presidência de seu conselho, e a Renault, da qual ele é presidente-executivo e do conselho, empossou líderes interinos. Em 10 de dezembro, Ghosn foi formalmente acusado por ocultar sua remuneração, em documentos financeiros da Nissan. A Renault agora está pressionando a Nissan pela convocação de uma assembleia de acionistas urgente a fim de lidar com os "riscos significativos" para a aliança.

O advogado que representa Ghosn no Japão não respondeu a pedidos de comentário. Uma pessoa informada sobre a defesa legal do executivo diz que Ghosn continua a se declarar inocente.

Enquanto isso, ele permanece detido e, sob o sistema criminal japonês, sua detenção pode se estender até 2019, com os procuradores acrescentando acusações enquanto o executivo aguarda julgamento.

Os procuradores japoneses não apresentaram acusações ou mencionaram suspeitas quanto às despesas de Ghosn ou seu uso de propriedades da empresa. Mas a casa de propriedade da Nissan que ele usava em Beirute e uma segunda casa no Rio de Janeiro se tornaram foco de batalhas judiciais, depois que a Nissan assumiu o controle dos imóveis e trocou as fechaduras. Membros da família de Ghosn recorreram à Justiça para recuperar o acesso a propriedades pessoais, obras de arte e dinheiro guardados nos imóveis.

A família de Ghosn argumenta que sua detenção e as acusações de que ele usou fundos da empresa indevidamente são parte de uma batalha mais ampla pelo controle da companhia.

"A verdade é que a prisão dele resulta de uma disputa corporativa entre a Renault de um lado e a Nissan e Mitsubishi do outro", afirmaram os advogados da família em petições encaminhadas à Justiça brasileira, acrescentando que "a detenção de Carlos Ghosn, feita de surpresa, é parte de uma estratégia sórdida da Nissan para solapar a aliança com a Renault".

Os filhos de Ghosn acreditam que os privilégios de que ele desfrutava na Nissan devem ser ponderados diante da recuperação que liderou na companhia e da riqueza que criou, para ele e outros, no comando da corporação, por duas décadas, de acordo com uma pessoa próxima à família de Ghosn.

"Desde sempre, falávamos com nosso pai todo domingo –não importa o quanto ele estivesse ocupado com o trabalho", afirma um comunicado escrito pelos quatro filhos de Ghosn, que costumavam brincar dizendo que a Nissan é o quinto filho do executivo. "Já há quatro domingos não podemos falar com ele. Sentimos demais a sua falta".

"A causa dessa sequência de eventos está nos delitos de conduta de Ghosn", afirmou um porta-voz da Nissan em comunicado enviado por email. "Durante a investigação interna sobre seus delitos de conduta, a procuradoria pública de Tóquio iniciou uma investigação paralela e decidiu agir".

O porta-voz da Renault se recusou a comentar.

Depois de ajudar a organizar o resgate da Renault à debilitada Nissan, em uma operação de US$ 5,4 bilhões em 1999, Ghosn uniu as duas empresas em uma aliança que compartilha plataformas e tecnologias, à qual mais tarde se uniu a Mitsubishi Motors; somadas, elas são o maior produtor de automóveis do planeta, e Ghosn recebeu US$ 17 milhões em remuneração das três companhias em 2017, de acordo com seus balanços. Embora isso represente pagamento bem superior ao dos executivos nas rivais japonesas da Nissan, é um montante inferior ao recebido por executivos americanos do setor, como Mary Barra, da General Motors, cuja remuneração chega aos US$ 22 milhões anuais.

Para Ghosn, os imóveis, jatos particulares e outros privilégios eram parte indissociável de sua vida e de seu trabalho. Ele passava muito tempo em viagem, longe da família. Até sua detenção, Ghosn passava em média 100 dias por ano no ar, de acordo com registros de voo e com uma pessoa próxima de sua família.

Apenas alguns poucos executivos da Nissan tinham ideia de até que ponto a empresa bancava a conta pelo uso dos imóveis por Ghosn, dizem pessoas informadas sobre o assunto.

Os ativos mais dispendiosos colocados à disposição do executivo são os jatos executivos comprados pela Nissan nos últimos 18 anos, todos os quais identificados por um registro personalizado: N155AN.

O mais recente, um Gulfstream G650 com preço de tabela de US$ 64,5 milhões, de acordo com a revista especializada Corporate Jet Investor, tem um dormitório no qual Ghosn costuma repousar, de acordo com uma pessoa próxima à família de Ghosn.

"Um estilo de vida como esse tem um custo, físico e social. Há um preço a pagar, e é preciso lidar com isso", escreveu Ghosn em uma recente autobiografia postada no site da Nissan. "Por sorte, durmo bem no avião".

Este ano, o avião que ele usa decolou de pelo menos 35 aeroportos diferentes, em mais de 80 dias de viagem, conduzindo-o de um lado a outro do planeta. Nas sete semanas anteriores à detenção de Ghosn, o avião decolou oito vezes de Beirute, de acordo com registros de voo.

Dentro da Nissan, o estilo de vida da Ghosn contrastava com o estilo de gestão altamente concentrado em controle de custos que ele promovia, para elevar os lucros. Depois que surgiram informações de que era a Nissan que bancava seu estilo de vida, a sensação de traição se aprofundou.

"Transparência e frugalidade eram o caminho da Nissan", disse um antigo executivo da montadora. "Quero perguntar: onde foi parar a transparência? Onde foi parar a frugalidade?"

Ghosn tem origens relativamente humildes. Seu avô paterno se mudou do Líbano para o Brasil aos 13 anos de idade, levando apenas o que cabia em sua mala, e criou uma série de empresas no interior do país, onde nasceu Ghosn, de acordo com a autobiografia do executivo. Quando Ghosn tinha seis anos, o pai dele o mandou para o Líbano, para viver com a avó, mãe e irmãos.

A vida dele em Beirute era modesta, de acordo com uma pessoa próxima à família. Ghosn foi pela primeira vez a um restaurante com 15 ou 16 anos de idade, e considerava uvas como produtos de luxo. Mais tarde, já bem sucedido, Ghosn continuou a comprar e exibir cachos de uvas.

Depois de frequentar duas escolas de engenharia de elite em Paris, Ghosn foi contratado pela fabricante francesa de pneus Michelin. Em 1996, ele foi contratado pela montadora de automóveis francesa Renault, e se mudou para a França com a família. Pelo final da década de 1990, a Nissan estava à beira da falência.

A Renault saiu em seu socorro com um pacote de resgate de US$ 5,4 bilhões, que Ghosn defendeu. O acordo dava à Renault uma participação controladora de 37% na Nissan, mais tarde ampliada a 43,4%, enquanto a Nissan adquiria uma participação de 15% na Renault.

Ghosn se mudou para Tóquio em 1999 como vice-presidente de operações da Nissan, e ganhou o apelido "7-11", pelas suas longas jornadas de trabalho. Ele fechou fábricas, demitiu empregados e cortou fornecedores ineficientes. Quando essas medidas levaram a Nissan a atingir suas metas de lucro e redução de dívida um ano antes do previsto, ele foi celebrado no Japão como um gênio da gestão, e virou até protagonista de um mangá.

Em 2005, Ghosn se tornou presidente-executivo da Renault. Foi então que a Nissan comprou para seu uso um dos imóveis identificados na recente investigação: um apartamento de 400 metros quadrados localizado no 16º arrondissement de Paris, um dos bairros mais ricos da cidade; o apartamento custou US$ 4,1 milhões, de acordo com registros de imóveis e com uma pessoa informada sobre a investigação da Nissan.

Três anos mais tarde, a empresa adquiriu mais 110 metros quadrados de espaço no mesmo edifício para transformar o apartamento em duplex.

Preocupações de segurança ajudaram a motivar a compra, disse uma pessoa próxima à família de Ghosn. Duas décadas antes, um presidente-executivo da Renault foi assassinado por terroristas de esquerda em Paris.

Os executivos da Nissan estavam preocupados com as ausências cada vez mais frequentes de Ghosn, em um momento no qual ele ganhava muito mais que qualquer outra pessoa na montadora. No ano fiscal encerrado em março de 2009, a Nissan lhe pagou US$ 15 milhões –mais que o dobro do que os nove outros executivos de primeiro escalão da empresa ganhavam juntos–, de acordo com uma fonte informada sobre a investigação da Nissan.

Quando o Japão alterou suas normas de prestação de contas por empresas, em 2010, e exigiu que todos os executivos com remuneração superior a US$ 880 mil anuais revelassem seus ganhos, Ghosn ficou preocupado com as consequências disso em termos de relações públicas, disse a fonte. Ele e outros executivos já tinham aceito um corte de remuneração, em meio à recessão mundial. Ghosn decidiu rebaixar o total que teria de declarar ao pedir que a Nissan lhe pagasse US$ 7,8 milhões e postergasse o pagamento de mais US$ 2 milhões, segundo a pessoa.

Essa mudança foi coordenada por Kelly, que na época era encarregado do gabinete do presidente-executivo da Nissan e da área de recursos humanos da empresa; colegas o descrevem como ferozmente leal a Ghosn, e como alguém usado frequentemente pelo líder para resolver problemas. A manobra se baseava em uma dada interpretação de uma área cinzenta nas novas regras financeiras, relativa a como reportar remuneração postergada. A auditoria que atendia a Nissan, Ernst & Young ShinNihon, discordou da interpretação que a empresa adotou para as regras, diz uma pessoa informada sobre o assunto. Kelly obteve pareceres de especialistas externos para sustentar sua posição, disse o advogado de Kelly.

Mesmo assim, o valor revelado publicamente sobre a remuneração de Ghosn causou furor entre os acionistas da Nissan. Ghosn defendeu seu salário dizendo que Alan Mullaly, da Ford Motor, ganhava quase o dobro.

Os produtores suspeitam que Ghosn tenha continuado a postergar o pagamento de porções cada vez maiores de sua remuneração, dali por diante –o equivalente a mais de metade do valor que ele afirma ter auferido nos últimos anos. Kelly e Ghosn criaram planilhas detalhadas para manter o controle sobre a remuneração não paga, e discutiram como ela poderia ser desembolsada depois que Ghosn se aposentasse da Nissan.

Apenas algumas poucas pessoas na montadora estavam cientes do que estava acontecendo, diz a Nissan. Não havia um comitê de remuneração como parte do conselho, para fiscalizar o pagamento dos executivos, e Ghosn tinha autoridade quase exclusiva para determinar a remuneração dos principais executivos.

E havia também os privilégios. No final de 2010, a Nissan criou uma empresa chamada Zi-A Capital, na Holanda, que, como informou Kelly ao conselho da montadora, seria usada para investimentos em empreendimentos, de acordo com os documentos de criação da empresa e com pessoas informadas sobre a assunto. A Zi-A, que chegou a ter US$ 82,8 milhões em capital, se tornou o veículo por meio do qual a Nissan adquiriria novas casas para Ghosn, entre as quais a de Beirute, por meio de diversas camadas de companhias de fachada registradas em paraísos fiscais.

Àquela altura, Ghosn se separou de sua primeira mulher, Rita –que usava roupas recicladas e adorava jogar bridge– e começou seu relacionamento com sua atual mulher, Carole –que gosta de roupas de grife e eventos luxuosos, de acordo com uma pessoa que conhece Ghosn há anos. Um advogado de Rita Ghosn se recusou a colocá-la em contato para uma entrevista ou a responder perguntas em nome de sua cliente.

Em 2012, Claudine Bichara de Oliveira, a irmã de Ghosn, ajudou a negociar a compra de um aparamento de quatro quartos diante da praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, de acordo com uma pessoa informada sobre a transação. Uma subsidiária em segundo grau da Zi-A, chamada Hamsa 1, pagou US$ 5,7 milhões pelo apartamento, o que o torna propriedade da Nissan.

Ghosn às vezes se hospedava no apartamento do Rio quando estava na cidade a negócios, de acordo com a fonte próxima à família. Mas o imóvel também servia de foco para as reuniões da família Ghosn nas festas; o imóvel é capaz de receber até dez hóspedes, de acordo com uma pessoa informada sobre as viagens de Ghosn ao Rio e com dois porteiros do prédio.

"Os momentos mais poéticos para nossa família eram as caminhadas pela praia de Copacabana, onde temos um apartamento", disse Nadine Ghosn, uma das três filhas do executivo, à edição brasileira da revista Vogue.

No final de 2016, diversos meses depois do segundo casamento de Ghosn, ele e a segunda mulher deram uma festa para celebrar o acontecimento, e também o aniversário de Ghosn, em um castelo que faz parte do complexo de Versalhes, na França, disse um convidado. Cerca de 120 convidados em trajes de gala se espalharam por longas mesas enfeitadas por castiçais, em uma sala iluminada por um gigantesco candelabro. Pilhas de canapés mais altas que as cabeças dos convivas ocupavam as mesas, assim como travessas douradas repletas de uvas.

Mais ou menos naquela altura, a Nissan comprou um jato executivo mais veloz e espaçoso para Ghosn, um Gulstream G650, de acordo com registros da Administração Federal da Aviação dos Estados Unidos. Os filhos de Ghosn ocasionalmente viajavam com o pai no avião, se estivessem indo para o mesmo lugar que ele, disse a fonte próxima à família. "Viajar no jatinho era um jeito de ter mais tempo com o pai".

Depois do segundo casamento de Ghosn, o jatinho também começou a fazer viagens mais frequentes a Beirute, mostram os registros de voo. As viagens a Beirute geravam custo adicional porque a Nissan não deixava o avião estacionado na pista de pouso da cidade, por motivos de segurança. Em lugar disso, a tripulação fazia um voo curto, de 200 quilômetros, para Chipre, e voltava a Beirute na hora de apanhar Ghosn, de acordo com registros de voo e pessoas informadas sobre a situação.

"Quando ele vinha, era em comboio", disse um barbeiro que trabalha perto da casa de Ghosn em Beirute. "Havia agentes da segurança do Estado e jipes dos serviços de inteligência viajando com ele. É um homem muito importante".

Na Nissan, as queixas sobre Ghosn não paravam de crescer. Alguns veteranos da empresa se preocupavam por ele estar promovendo executivos não japoneses de preferência a executivos locais.

Ghosn estava pressionando Nissan e Renault a reduzir custos ao compartilhar de componentes e plataformas de produção, e engenheiros se desentendiam quanto a que tecnologias e fabricas usar. O pessoal da Nissan sentia que a receita da montadora japonesa, que havia superado a de sua acionista controladora, estava sendo usada para escorar a Renault.

No ano passado, um empregado da Nissan confrontou Ghosn em uma assembleia de acionistas e lhe disse que a empresa parecia ser "uma subsidiária 100% controlada" pela Renault. "Você pode me oferecer um fato que seja que corrobore o que disse, nos últimos 18 anos?", rebateu Ghosn, zangado. "Não há realidade que corresponda ao que você está dizendo ".

Uma pessoa próxima à Renault disse que seria excessivo dizer que a Nissan escora a Renault. "Se você conversar com as pessoas da Renault, elas dirão que Ghosn favorecia a Nissan", disse "O sucesso da aliança gira em torno do equilíbrio. É difícil atingi-lo? Sim".

Ghosn mal sabia que as forças que viriam a derrubá-lo já estavam se mobilizando. A auditoria da Nissan, Ernst & Young, continuava a questionar a Zi-A Capital, a entidade por meio da qual as casas de Ghosn foram compradas, ano após ano, disse uma pessoa informada sobre o assunto. Esse questionamento chamou a atenção de Hidetoshi Imazu, um discreto veterano da área industrial da Nissan, que se tornou auditor de questões de fiscalização no conselho da empresa em 2014 –um posto que envolve policiar as ações dos conselheiros, de acordo com uma pessoa informada sobre a investigação.

Imazu estava tentando descobrir o que a Zi-A estava fazendo, mas seus esforços eram dificultados pela cadeia de empresas de fachada que ela usava, sediadas em lugares como as Ilhas Virgens Britânicas, disseram duas das fontes.

Por isso, por volta de junho, Imazu pediu ajuda a um dos conselheiros da Zi-A, um advogado nascido na Malásia e educado no Reino Unido chamado Hari Nada, que cuidava de questões de fiscalização na equipe do presidente-executivo, disseram duas das fontes.

Nada era protegido de Kelly e se tornou membro conselho da Zi-A em 2012, em companhia de Kelly, de acordo com documentos apresentados pela empresa às autoridades. Ele levou Imazu para uma conversa com Toshiaki Onuma, terceiro diretor da Zi-A e veterano funcionário da equipe de apoio a Ghosn; Onuma era o responsável pela papelada referente à remuneração postergada do executivo, de acordo com documentos empresariais e com uma pessoa informada sobre a investigação da Nissan.

Os três compararam anotações e Imazu começou a fazer uma ideia melhor sobre o dinheiro que a Nissan estava gastando com Ghosn, e sobre o valor acumulado da remuneração postergada, que já atingia cerca de US$ 80 milhões, de acordo com afirmações da procuradoria pública japonesa e de pessoas informadas sobre as investigações.

Os três consultaram advogados para ajudá-los a interpretar o que estavam vendo, e determinar se alguma das ações constituía atividade criminosa, da parte de Ghosn ou outras pessoas da empresa, disseram pessoas informadas sobre a investigação. Entre os advogados estavam antigos integrantes da procuradoria pública japonesa, e eles ajudaram os executivos a tirar vantagem de uma nova lei que entrou em vigor em junho no Japão e admite delações premiadas.

Pelo final do terceiro trimestre, os executivos da Nissan já haviam consultado informalmente a procuradoria de Tóquio e, no começo de outubro, os procuradores decidiram que havia um caso, de acordo com pessoas informadas sobre a investigação. Imazu e seus colegas prepararam um relatório formal de denúncia, afirmando que uma subsidiária da Nissan estava sendo usava para fornecer casas a custo zero para Ghosn, e que as informações sobre remuneração dos conselheiros nos balanços da empresa eram incompletas, disse uma das fontes.

Foi só então que eles levaram o caso todo à atenção de Saikawa, que assumiu a presidência executiva da Nissan em 2017, escolhido a dedo por Ghosn, disse a fonte. Saikawa nada sabia sobre as manobras dos executivos. Inicialmente, ele expressou incredulidade diante das informações sobre seu mentor, disse a fonte. Saikawa ordenou uma investigação formal, com os investigadores se reportando diretamente a ele, disse a pessoa. Nada começou a recolher documentos relacionados aos imóveis, viajando ao Rio em busca de escrituras, de acordo com emails vistos pelo The Wall Street Journal.

Nada também começou a preparar a base de uma operação complicada para deter Ghosn e obter provas que ajudassem o caso da procuradoria.

Os investigadores da Nissan não queriam confrontar Ghosn diretamente porque temiam que ele tivesse o poder de paralisar seu trabalho, caso informado, disseram diversas pessoas informadas sobre o assunto.

Em lugar disso, colaboraram com os procuradores públicos em um plano para deter Ghosn quando ele pousasse no aeroporto de Haneda, em Tóquio, no dia 19 de novembro, pouco antes da reunião mensal do conselho da Nissan. Nada organizou as agendas para o evento de forma a garantir que todas as pessoas que os procuradores desejassem interrogar estivessem nos escritórios da Nissan no momento da detenção de Ghosn, disseram pessoas informadas sobre os acontecimentos.

A equipe de investigadores da Nissan também precisava fazer com que o suposto comparsa de Ghosn, Kelly, fosse a Tóquio. Kelly está semiaposentado e vive na Flórida desde 2015, de acordo com pessoas informadas sobre o assunto.

Nada telefonou para Kelly e disse que sua presença seria necessária na reunião do conselho, segundo as fontes. Ghosn estava planejando colocar em votação uma reorganização do comando executivo da empresa - o que incluiria destituir Saikawa como presidente-executivo e reconduzir Kelly a um posto executivo, de acordo com pessoas informadas sobre os planos.

Nada insistiu em que Kelly, que normalmente participava por videoconferência das reuniões do conselho em Tóquio, viajasse para o Japão em um jatinho executivo. Nada garantiu a Kelly que ele estaria de volta aos Estados Unidos em tempo para uma cirurgia nas costas que ele tinha agendado.

O avião de Kelly chegou ao aeroporto de Narita, em Tóquio, no começo da tarde de 19 de novembro, de acordo com registros de voo e pessoas informadas sobre os acontecimentos do dia, pouco antes do pouso de Ghosn em Haneda. Tão logo Ghosn foi detido, o motorista de Kelly recebeu um telefonema e parou o carro em uma área de repouso, e Kelly foi entregue às autoridades japonesas.

Às 22h, Saikawa, demonstrando emoção incomum, concedeu uma entrevista coletiva.

"Além de lamentar muito - não sei bem como dizer -, sinto muita raiva e desespero", ele afirmou.

A detenção de Ghosn está perto de completar um mês, e as escaramuças judiciais prosseguem.

Por obra de um processo aberto no Líbano, Ghosn e uma de suas filhas obtiveram acesso à mansão de Beirute, disse a pessoa próxima à família. A família tirou da casa os objetos que lhe pertenciam, como roupas e fotos familiares, disse a fonte.

No Brasil, Caroline, filha de Ghosn, declarou em um processo que a Nissan não pode tomar posse do que está dentro do apartamento do Rio, porque o imóvel foi dado a Ghosn para uso como residência. Na quinta-feira, Caroline Ghosn foi ao apartamento em companhia de oficiais de justiça brasileiros, para abrir dois cofres e uma pequena caixa de valores. Um dos cofres continha cerca de US$ 20 mil em moeda brasileira, e outro uma carteira vazia, que um representante da família disse ser um um presente indesejado da irmã do executivo a ele.

Na Nissan, o pessoal está se ajustando à vida sem Ghosn. No Japão, quando um acusado é indiciado, a procuradoria costuma obter condenações em 95% dos casos. Mas mesmo que ele seja absolvido, a sensação de que tirou vantagem de sua posição no comando da empresa persistirá.

Diante de uma fábrica da Nissan ao sul de Tóquio, um veterano com 42 anos de trabalho na empresa, hoje empregado de uma afiliada, diz que é uma vergonha o que aconteceu com Ghosn.

"No começo eu achava natural que ele recebesse um bilhão de ienes", ou cerca de US$ 10 milhões, disse o trabalhador, atribuindo a Ghosn o crédito pela recuperação da Nissan. Depois de sua detenção, disse o veterano, "não tenho rancor, mas o tempo dele passou".
 
Tradução de PAULO MIGLIACCI

Erramos: o texto foi alterado

Diferentemente do publicado na primeira versão da reportagem, o projeto de compra e reforma da casa de Ghosn custou R$ 58 milhões, e não bilhões. A reportagem foi corrigida.

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