Após bate-cabeça sobre IOF, Bolsonaro faz aceno a Guedes

Bolsonaro anunciou na semana passada alta do IOF, mas seu governo o desmentiu

Brasília

Em seu primeiro encontro público após um bate-cabeça no quarto dia de governo, o presidente Jair Bolsonaro e o ministro Paulo Guedes (Economia) tentaram dar ar de normalidade e de afinamento entre as equipes política e econômica.

Para desfazer um mal-estar gerado na última semana, em torno de um possível aumento de imposto, Bolsonaro aproveitou a cerimônia de posse de presidentes de estatais para fazer um aceno público a Guedes, agradecendo a ele por ter confiado em seu projeto de poder.

O clima entre a equipe econômica e política azedou na sexta, depois que Bolsonaro teve uma afirmação desmentida pelo Secretário da Receita, Marcos Cintra, que é subordinado a Guedes.

Em evento no Palácio do Planalto que deu posse a presidentes dos bancos públicos, Bolsonaro fez um breve discurso em tom elogioso a Guedes, rememorando a forma como os dois se conheceram, ainda antes do início da campanha presidencial do ano passado.

O presidente ressaltou que não entende de economia e disse que, em contrapartida, entende mais de política do que o ministro.

No fim da última semana, Bolsonaro assistiu a uma bateção de cabeça que teve início com uma afirmação sua na manhã de sexta, quando ele disse ter assinado um decreto para aumentar da alíquota do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras).

Segundo ele, a medida serviria para compensar o aumento de gastos com a renovação de incentivos fiscais para as regiões Norte e Nordeste, assinada por ele na véspera.

Quatro horas depois, a fala do presidente foi desmentida pelo Secretário da Receita, Marcos Cintra, que negou que o governo elevaria o IOF. O secretário teve a declaração endossada pelo chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, que afirmou que Bolsonaro havia se enganado ao falar em aumento do IOF.

Guedes, que estava fora de Brasília, manteve silêncio sobre o episódio e cancelou os compromissos públicos.

Almoço dos ministros Paulo Guedes e Onyx Lorenzoni no gabinete da Casa Civil
Almoço dos ministros Paulo Guedes (Economia, à esq.) e Onyx Lorenzoni (Casa Civil) no gabinete da Casa Civil - Assessoria da Casa Civil

Os dois tiveram um encontro reservado na sala do presidente na manhã de segunda, antes da cerimônia que deu posse aos presidentes de três bancos públicos: Rubem Novaes (Banco do Brasil), Joaquim Levy (BNDES - Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e Pedro Guimarães (Caixa Econômica Federal).

Ao fim do evento, o ministro-chefe do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), Augusto Heleno, negou divergências entre Guedes e Bolsonaro e afirmou que eles conversaram na manhã desta segunda. 
“Não teve rusga, nem carrinho por trás, nem tesoura voadora, não teve nada. Hoje de manhã, se encontrarem. Best friends. Não tem essa história”, afirmou.
 

Bolsonaro adotou um tom de descontração em sua fala e disse que o evento estava bastante concorrido por envolver "os homens do dinheiro".

"O evento está bastante concorrido porque são os homens do dinheiro que estão aqui, mas dessa vez é o dinheiro do bem", afirmou.

Logo em seguida, lembrou a forma como ele conheceu o ministro da Economia, agradecendo a Guedes por ter confiado nele.

"Nasceu ali uma amizade. O desconhecimento meu [de economia], como o dos senhores em muitas áreas, e a aceitação disso é um sinal de humildade. Tenho certeza, sem qualquer demérito, que eu conheço um pouco mais de política que Paulo Guedes, e ele conhece muito mais de economia do que eu", afirmou.

O presidente repetiu que foi esse princípio que deu início ao que ele chamou de "namoro no bom sentido". 

"E eu fui fortalecendo ao lado dele, algo que parecia que não ia acontecer pela tradição da politica brasileira, na verdade, ela se concretizou", disse, relembrando a vitória nas urnas.

Além da divergência envolvendo o IOF, incomodou integrantes da equipe econômica as afirmações feitas por Bolsonaro sobre reforma da Previdência em entrevista ao SBT. Ao defender uma idade mínima, ele sinalizou que deve endossar uma reforma mais branda, semelhante à proposta ao ex-presidente Michel Temer. 

Guedes, contudo, defende uma mudança mais robusta e o emprego de um modelo de capitalização. É esperada para essa semana uma conversa entre dos dois para tratar do projeto que modifica as regras da aposentadoria e será apresentado ao Congresso em fevereiro, quando deputados e senadores eleitos tomam posse. 

Outro gesto conciliador adotado pela equipe do presidente foi feito entre Guedes e Onyx, que desceram a rampa presidencial lado a lado para participar do evento e almoçaram juntos na sequência.

A imagem dos dois à mesa foi divulgada pela assessoria da Casa Civil para dar ares de normalidade à relação de ambos, que já deram declarações desencontradas sobre medidas econômicas desde o período da campanha eleitoral.

Talita Fernandes , GUSTAVO URIBE , Bernardo Caram , Mariana Carneiro e Julio Wiziack
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