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Argentina é exemplo do que pode acontecer no Brasil sem reformas, diz economista do Bank of America

Para Claudio Irigoyen, crescimento dependerá da confiança na aprovação das mudanças na Previdência

Tássia Kastner
São Paulo

Os efeitos de postergar mais uma vez as reformas fiscais necessárias ao país, como a da Previdência, podem ser vistos na Argentina, afirma Claudio Irigoyen, chefe de economia e estratégia para América Latina do Bank of America.

O país vizinho sofreu neste ano com uma forte desvalorização do peso, recorreu ao FMI (Fundo Monetário Internacional) e entrou em recessão.

Irigoyen acredita que alguma mudança nas aposentadorias será aprovada no Brasil e diz que a tramitação do projeto será fundamental para a manutenção da confiança.

"O ano vai depender das reformas, não necessariamente da aprovação, mas da expectativa de que estamos indo no caminho correto."

O banco espera crescimento de 3,5% em 2019. A projeção de 2018 era de alta 3%, mas o ano deve fechar com avanço de pouco mais de 1% no PIB.

"Uma importante variável para checar se a nossa projeção vai se materializar é a evolução da confiança", disse.

Irigoyen afirmou ainda que o Congresso é o grande "se" para a aprovação das reformas e tudo dependerá da capacidade do governo Bolsonaro de formar coalizão. "É com certeza a discussão que o governo está tendo agora, como formar coalizões."

 


Há um ano o sr. disse que o país não poderia se dar ao luxo de não crescer, mas terminamos 2018 com avanço de pouco mais de 1%. O que deu errado? Eu não diria que algo deu errado no Brasil, as coisas deram errado em um nível global. Começamos a ter uma desassociação de crescimento entre EUA, China e Europa, e o Fed sendo mais agressivo nas altas [de juros]. Isso colocou muita pressão sobre o fluxo de capital em mercados emergentes. Obviamente, países com maiores desequilíbrios, como a Argentina, sofrem mais, mas Brasil não ficou imune. 

A escalada de guerra comercial não ajudou, e aí você tem as eleições presidenciais. Foi uma eleição muito polarizada, não foi uma surpresa que não tenha ajudado. Mas eu diria que os fatores mais importantes foram o aumento de juros nos EUA e a guerra comercial. 

Para 2019, o banco prevê crescimento de 3,5% se reformas forem aprovadas. O sr. acredita que isso acontecerá? Acreditamos que a independência do Banco Central tem grandes chances de aprovação, e nosso cenário-base é que algum tipo de reforma da Previdência vá passar. Neste momento, o governo está lutando para descobrir qual é a melhor estratégia, se é aprovar uma reforma rápida, em etapas ou lançar uma mais ambiciosa. 

Não estou certo se teremos tempo para fazer também uma reforma tributária. Mas, se tivermos pelo menos as duas primeiras, criaremos um ambiente para crescimento.

Claudio Irigoyen, chefe de economia e estratégia para América Latina do Bank of America Merrill Lynch
Claudio Irigoyen, chefe de economia e estratégia para América Latina do Bank of America Merrill Lynch - Bruno Santos/ Folhapress

E sem as reformas, qual é o crescimento que se pode esperar para o Brasil? É difícil dizer porque não temos um cenário sem reformas. Pode ser que seja um processo gradual, que as reformas sejam atrasadas pela discussão no Congresso, mas não parece que o Brasil tenha espaço para não aprovar reformas. 

Mas qual seria o percentual de crescimento da economia? É difícil dar um número depois da recessão que tirou 8% ou 9% do PIB em dois anos e meio. Temos muito espaço para recuperação, que deve vir mais pelo consumo e por algum investimento que não seja mais possível adiar. No caso de recuperação do consumo, é preciso ter uma dinâmica positiva na confiança. 

Eu acredito que será positivo para a confiança quando mercados perceberem que o governo tem votos para aprovar reforma. E a confiança vai sofrer se houver dúvidas sobre isso. Uma importante variável para checar se a nossa projeção vai se materializar é a evolução da confiança.

Uma escalada da guerra comercial travada entre EUA e China poderia afetar as projeções para o país? Por enquanto, temos a impressão de que a guerra comercial vai perder força, especialmente após o anúncio da trégua de 90 dias. 

Uma escalada da guerra comercial é ruim para todo o mundo. No caso brasileiro, o país pode ter algum colchão para o pior cenário por um redirecionamento de importações da China, dos EUA para o Brasil. Mas seria se beneficiar em um cenário que é pior para todo o mundo. Eu acho que o problema principal de uma escalada na guerra comercial é que ela vai afetar a confiança, o comércio e o crescimento global. Ninguém ganhará nesse cenário.

Investidores otimistas previam que a Bolsa brasileira fecharia o ano perto de 100 mil pontos, mas estamos presos abaixo dos 90 mil. A gente não vê que uma reforma relativamente rápida da Previdência e a aprovação da independência do Banco Central estejam nos preços. Se isso se confirmar, nós devemos ter um bom rali. E, se isso abrir a porta para a reforma tributária, eu acho que o rali pode ser maior. Esse cenário considera que não haverá uma piora no ambiente externo. 

A estabilidade atual ocorre por causa da piora no setor externo e porque alguns investidores locais realizaram [embolsaram] lucros. E também porque investidores estrangeiros não estão envolvidos, mas eles não podem perder o rali no Brasil e estão esperando um bom ponto de entrada.

O mercado começou a prever que a taxa de juros no Brasil ficará estável por um período maior. Qual é a previsão do BofA? Nós não estamos esperando muitas altas nos juros. Se isso acontecer, será no fim do ano, e algo modesto porque a dinâmica da inflação está boa. Você pode culpar a recessão, mas isso não importa agora. 

Mas alguns analistas começaram a prever cortes. Isso é um extremo que não faz muito sentido porque a economia vai começar a se sair melhor. Então por que você cortaria juros? A inflação já está baixa, mas provavelmente chegou a um piso. Eu acho que o mais sensato é esperar que o Banco Central será cuidadoso porque o foco estará nas reformas, e a última coisa que se pode querer é introduzir ruídos na discussão.

O que o sr. espera do governo Bolsonaro? Do ponto de vista da administração, não há dúvida de que é o caminho correto. A qualidade do time é incrível. Paulo Guedes é da Escola de Chicago, e eu fui para a mesma faculdade, então sou obrigado a dizer que ele é bom [risos]. Piadas à parte, a equipe é fantástica. Infelizmente, algumas vezes ter um bom time não é o bastante, você não tem controle completo de tudo no país.

E o Congresso? É o grande "se". É a discussão que o governo está tendo agora, como formar coalizões. Política é a arte de negociar. 

Mas é tão claro que o Brasil não tem espaço para atrasar reformas que eu não estou tão preocupado que não irá acontecer. Estou mais preocupado com lugares como o México, onde há espaço fiscal para medidas populistas e distributivas. No Brasil, não. Ou você faz reformas ou você terá problema.

E qual a sua avaliação sobre a economia argentina? Argentina é outro nome para problema. Eles adotaram uma política monetária difícil, mas neste ano eles têm eleições presidenciais e é bem difícil entrar em um ano eleitoral e apertar política monetária.

As pesquisas dizem que Mauricio Macri [atual presidente] e Cristina Kirchner [ex-presidente] estão empatados. Será uma eleição de questionamento, para dizer o mínimo. E Macri está claramente escolhendo uma estratégia de polarização com Cristina porque parece que ele não tem muito o que mostrar em termos econômicos. 

Como o banco vê 2019? Eu acho que o foco no próximo ano estará nesses três países: Brasil, México e Argentina. No caso do Brasil, o importante é que se façam reformas. E, olhando o que pode acontecer se você atrasa o ajuste fiscal, um bom exemplo pode ser a Argentina.

No México, o grande teste será quando os Estados Unidos desacelerarem porque aí a pressão por medidas que estimulem o consumo será maior.


Claudio Irigoyen, 48
Formado em contabilidade pela Universidade Nacional de Rosário, Argentina, tem mestrado e doutorado em economia pela Universidade de Chicago; foi economista-chefe e diretor de política monetária do Banco Central da Argentina por cinco anos

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