Criada no Brasil, Autolatina foi a aliança pioneira entre Ford e Volks

Empresa que unia as duas marcas foi criada em 1987

Eduardo Sodré
Detroit

A aliança global entre Ford e Volkswagen teve um prólogo no Brasil. As montadoras produziram veículos em conjunto para o mercado nacional, sob o comando da holding Autolatina.

A empresa que unia as duas marcas foi criada em 1987, época em que o país vivia a ressaca do Plano Cruzado e se adaptava à política do novo ministro da economia, Luiz Carlos Bresser Pereira.

As marcas não tinham capacidade para investir em novos produtos isoladamente, mas ofereciam linhas que se complementavam. A Volkswagen tinha um carro compacto de sucesso, o Gol, e um modelo grande, o Santana. Já a Ford oferecia o médio que faltava aos alemães: o Escort.

Alunos do Senai em fábrica da Autolatina
Alunos do Senai em fábrica da Autolatina, em São Bernardo do Campo (SP). (Foto: Paulo Giandália/Folhapress) - Paulo Giandália - 4.fev.1993/Folhapress


Após a aprovação do plano de negócios nas matrizes, a aliança nacional seguiu adiante. As negociações foram comandadas por Wolfgang Sauer (1930-2013), presidente da Volkswagen no Brasil e que cuidava das relações com o governo, e Wayne Booker (1934-2007), presidente da Ford no Brasil.

Por contrato, 51% da Autolatina pertencia à Volks e 49%, à Ford. Os primeiros carros chegaram às lojas na linha 1990 aproveitando plataformas que já existiam.

A base do Ford Escort foi compartilhada com o modelo Apollo e, posteriormente, com Logus e Pointer. Já o Volkswagen Santana deu origem ao Versailles, que substituiu o Del Rey.

Nos primeiros tempos da união entre as montadoras —antes dos novos carros serem lançados—, o aumento dos preços de automóveis estava limitado a 80% da inflação, de acordo com as regras do CIP (Conselho Interministerial de Preços). A Autolatina não aceitou o teto e teve suas contas colocadas sob investigação.

A holding processou o governo brasileiro por considerar que a medida era inconstitucional e obteve liminares favoráveis. O movimento resultou no desgaste do ministro: ele deixou o cargo pouco tempo  após ter lançado o Plano Bresser.

A união entre as empresas começou a se desgastar por volta de 1993.

Executivos que na época trabalhavam na Autolatina dão três motivos para o fim: a abertura do mercado nacional aos importados, o plano de redução de tarifas que recriou o conceito de carro popular e as mudanças na direção da Volkswagen.

O novo presidente mundial da empresa alemã, Ferdinand Piëch, não era afeito a fusões. Ele não achava conveniente ter de dividir futuros projetos globais da marca com um concorrente americano.

Apesar de terem lançado versões 1.0 do Gol e do Escort, as montadoras chegaram a preparar novos modelos para competir com Chevrolet Corsa e Fiat Uno.

O carro da Volkswagen foi lançado, sendo a segunda geração do Gol. O da Ford nunca passou da fase de protótipo.

Os últimos automóveis da Autolatina foram produzidos em 1996, quando as marcas já tinham definido todos os detalhes do divórcio.

Os erros e acertos da aliança nacional ocorreram em um cenário completamente diferente do atual.

A Autolatina foi criada em um mercado fechado, em que as marcas perdiam rentabilidade com a impossibilidade de repassar a inflação ao preço dos automóveis. As margens de lucro, apesar de altas, entraram em descompasso com os custos de produção.

A parceria de agora é um projeto global e repete o que já foi feito por outras montadoras, sempre em busca de redução de custos e racionalização dos processos produtivos.

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