Picape será primeiro veículo da aliança global entre Ford e Volkswagen

Junção não inclui troca de ações; depois serão feitas vans comerciais para o mercado europeu

Eduardo Sodré
Detroit

A Ford e a Volkswagen anunciaram nesta terça-feira (15) as bases de sua aliança global, cuja junção não inclui a troca de ações e preserva a identidade das marcas.

Em comunicado, as empresas afirmam que o objetivo é gerar uma escala de produção eficiente para as montadoras a partir de 2023. A aliança deve permitir uma redução de custos globais de produção proporcionado pelo ganho de escala e por uma divisão dos custos de desenvolvimento de novos produtos.

Não foram divulgadas informações sobre cortes, nem como será a divisão entre as fábricas. Porém, a Ford já anunciou que fará uma grande reestruturação na Europa, com demissões de milhares de funcionários.

O primeiro veículo produzido em conjunto será uma picape, com lançamento previsto para 2022. Em seguida virão vans comerciais para o mercado europeu.​ Futuramente, a parceria deverá ser estendida a outras linhas de produtos.

Lyle Watters, presidente da Ford América do Sul, disse que as picapes envolvidas nessa primeira fase serão a Ford Ranger e a Volkswagen Amarok.

Ford Ranger Wildtrack
Ford Ranger, que será produzida através da aliança Ford-Volks - Divulgação

De acordo com Watters, a montadora americana terá a liderança no desenvolvimento de motores e plataformas.

As próximas gerações dessas picapes podem ser produzidas na mesma fábrica. Hoje, Ranger e Amarok são feitas na Argentina, em diferentes unidades.

Watters afirma que os principais mercados para esses novos utilitários serão a América do Sul, a África e a Europa.

“É importante que os produtos sejam diferenciados, mas teremos ganho de escala e compartilhamento. Ainda não falamos aonde a montagem vai ser, temos opções, mas ainda não chegamos ao ponto de anunciar onde irá acontecer", disse Watters.

A Argentina já tem uma fábrica conjunta para produção de picapes. A japonesa Nissan já produz a Frontier na unidade de Córdoba, de onde sairá também a Mercedes Classe X, que chega ao mercado ainda neste ano. Em seguida, virá a Renault Alaskan.

O país vizinho está se tornando um polo de produção de veículos utilitários de médio porte. A Toyota Hilux também é montada lá.

As picapes são produtos de maior rentabilidade para as empresas. No Brasil, a produção é prioritariamente de veículos compactos, de menor valor agregado.

Após falar sobre os planos para a América do Sul, o presidente da Ford ressaltou que não se trata de uma repetição da Autolatina —empresa criada em 1987 para unir as duas marcas no Brasil e que perdurou até 1996.

“Vou dizer o que esse acordo não é. Não se trata de uma volta da Autolatina, se limita aos produtos. São duas empresas separadas, com DNA diferente.”

Sobre as diferenças entre essa aliança e outras parcerias que deram errado, como a própria Autolatina no Brasil e a fusão dos grupos Daimler e Chrysler nos anos 1990, Watters diz que houve aprendizado.

“As pessoas aprendem com o tempo, apreendem a formar alianças. Além disso, o mundo está mudando, há mais competitividade. O centro de tudo é o consumidor, precisamos compartilhar os pontos positivos. Não tínhamos tanta experiência antes, mas trabalhamos com muitas outras parcerias no mundo e aprendemos com isso.” 

Volkswagen Amarok V6 2018
Volkswagen Amarok, picape que será produzida pela aliança Ford-Volks - Divulgação

As montadoras estudam também desenvolver conjuntamente veículos elétricos e autônomos.

Juntas, Ford e Volkswagen produziram cerca de 1,2 milhão de veículos comerciais leves globalmente em 2018.

Herbert Diess, presidente do grupo Volkswagen, mencionou a complementaridade entre as linhas de produtos comerciais das marcas, sem entrar em detalhes sobre o que poderia vir depois da picape e das vans.

A Volks tem uma linha mais completa de modelos compactos globais, incluindo veículos utilitários esportivos recentes, feitos sobre a plataforma global MQB. A marca produz ainda caminhões de diferentes marcas, que fazem parte do grupo Traton.

Já a Ford tem a picape média mais vendida dos Estados Unidos, a F-150, veículos comerciais de sucesso nos maiores mercados e está mais avançada no desenvolvimento de carros autônomos.

​A montadora americana também avança em parcerias, além de aquisições, de empresas de tecnologia que desenvolvem aplicativos de compartilhamento de carros. 

​Com sede em Wolfsburg, Alemanha, o grupo Volkswagen tem 120 fábricas espalhadas por 33 países na Europa, Ásia, Américas e África. Emprega 642 mil funcionários e produz 44 mil veículos por dia. 

A montadora alemã tem quatro fábricas no Brasil, três instalados no estado de São Paulo e uma no Paraná.

A montadora vendeu 391 mil veículos no Brasil em 2018, entre carros de passeio, comerciais leves, ônibus e caminhões. Fechou o ano em segundo lugar, atrás da Chevrolet.

No mundo, as marcas do grupo Volkswagen  venderam cerca de 10 milhões de veículos em 2018, sendo a líder global de acordo com dados prévios.

A Ford, sediada em Dearborn, nos Estados Unidos, ocupa a sexta posição entre as maiores fabricantes de veículos do mundo. Em 2018, foram comercializadas por volta de 5 milhões de unidades. A montadora emprega cerca de 200 mil funcionários globalmente.

No Brasil, há três fábricas da Ford (duas no estado de São Paulo e uma na Bahia). A montadora vendeu 237 mil veículos no mercado nacional em 2018 entre carros de passeio, comerciais leves, ônibus e caminhões.

O presidente-executivo da Ford, Jim Hackett (à esq.), com o presidente-executivo da Volks, Herbert Diess
O presidente-executivo da Ford, Jim Hackett (à esq.), com o presidente-executivo da Volks, Herbert Diess - REUTERS

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