GM começa a produzir novos carros nacionais em julho

Apesar de "perder dinheiro no Brasil", montadora inicia renovação de veículos compactos

Eduardo Sodré
São Paulo

Apesar dos prejuízos que afirma ter acumulado no Brasil nos últimos anos, a General Motors prepara o lançamento de dois novos carros compactos neste ano. A produção dos protótipos terá início em julho, na fábrica de Gravataí (RS).

Serão os primeiros modelos da família GEM (sigla em inglês para "mercados globais emergentes), que devem chegar às lojas no último trimestre de 2019. Os veículos serão as novas gerações do hatch Onix e do sedã Prisma.

A montadora não confirma o lançamento dos carros e diz que não fará comentários sobre o assunto. Porém, de acordo com o cronograma definido em negociações com o Sindicado dos Metalúrgicos de Gravataí, as datas de início da montagem dos automóveis já foram fechadas.

As adaptações feitas na fábrica, resultado de um investimento de R$ 1,4 bilhão, foram concluídas. Os lançamentos compartilharão uma nova plataforma e serão maiores que os modelos atuais.

Enquanto prepara a a produção, a General Motors tenta renegociar acordo feito em 2017 com o sindicato de Gravataí, que, segundo Edson Dorneles, diretor jurídico da entidade, é válido até 31 de março de 2020.

Dorneles afirma que os trabalhadores fizeram concessões em prol do investimento na fábrica. Não houve reajuste de salário em 2017 e, no ano seguinte, o aumento foi estipulado em 60% da inflação.

Neste ano, o reajuste seria de 100% da inflação, com pagamento adicional de R$ 12.740 como participação nos lucros.

A General Motors quer que os funcionários renegociem o valor do bônus. De acordo com o sindicato, essa proposta não foi aceita.

"Já temos esse valor no bolso, mas agora surge essa notícia de grande repercussão, de que a matriz não quer pagar pelos prejuízos, mas prometeram R$ 13 bilhões em investimentos, pouco mais de 10% desse valor veio para Gravataí", diz Dorneles.

O sindicalista se refere ao plano de investimentos anunciado pela montadora americana. O total seria de R$ 13 bilhões entre 2014 e 2020. Ao menos R$ 4,5 bilhões foram aplicados até o ano passado, mas ainda há um valor não especificado que deveria ser investido na renovação dos produtos. 

Em maio de 2018, o presidente da empresa no Mercosul, Carlos Zarlenga havia dito que 20 novos carros seriam lançados até 2022. O cronograma inclui os modelos que serão feitos em Gravataí.

Os funcionários aguardavam o anúncio de novos investimentos, mas foram surpreendidos pelo memorando enviado por Zarlenga há duas semanas. O texto assinado pelo executivo afirmava que, após fortes perdas nos últimos três anos, a operação no país atingiu “um momento crítico que exige sacrifícios de todos”.

Zarlenga se referia a comentários feitos pela presidente-executiva da GM, Mary Barra. Durante uma apresentação a investidores, ela afirmou que a matriz não vai continuar empregando capital para perder dinheiro.

A montadora encaminhou aos sindicatos uma série de ações que pretende tomar em seu processo de reestruturação. A lista inclui liberar a terceirização em toda a fábrica de São José dos Campos (interior de SP), implementar a jornada intermitente (por hora ou dia) e aumentar de 40 para 44 horas a carga horária de novos funcionários.

Segundo o diretor jurídico do sindicato de Gravataí, a ideia da empresa é fechar primeiro o acordo com a unidade de São José dos Campos para depois renegociar com as demais unidades. Além das fábricas de carros, a empresa produz motores em Joinville (SC).

A montadora também busca apoio governamental. O secretário da Fazenda de São Paulo, Henrique Meirelles, já admitiu que estuda a possibilidade de socorrer a GM antecipando crédito de ICMS.

Já o Governo Federal tem sido mais duro nas negociações. Em um encontro com executivos da General Motors Mercosul, Carlos da Costa, secretário especial de Produtividade, Emprego e Competitividade do ministério da Economia, teria dito que “se precisar fechar [a fábrica], fecha” logo após ser informado sobre a possibilidade de a marca encerrar a produção em unidades nacionais.

Uns dos problemas das marca é o valor agregado de seus produtos. Embora seja líder de mercado desde 2016, os carros mais vendidos da marca Chevrolet custam menos de R$ 60 mil.

Os modelos nacionais mais rentáveis da marca são a picape S10 (a partir de R$ 106 mil) e o utilitário de luxo Trailblazer (R$ 187 mil), os dois únicos veículos produzidos atualmente na fábrica de São José dos Campos.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.