Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Inquisição de Ghosn parece esforço japonês para dissolver aliança Renault-Nissan, diz WSJ em editorial

Jornal questiona condução das investigações contra o ex-presidente do conselho de administração da empresa

O jornal americano The Wall Street Journal questionou, em editorial publicado nesta quarta-feira (9), a condução das investigações contra o ex-presidente do conselho de administração da Nissan, Carlos Ghosn, em um caso que definiu como um dos "mais estranhos no mundo dos negócios internacionais".

Ghosn está detido no Japão desde 19 de novembro, indiciado por má conduta financeira após supostamente não declarar renda às autoridades durante cinco anos. Mas sua prisão vem sendo seguidamente prorrogada enquanto a promotoria avalia se inclui novas acusações contra o executivo —de que ele teria repassado à montadora perdas com investimentos pessoais. Ghosn nega.

Para o WSJ, a longa detenção do executivo significa uma pressão cada vez maior sobre a Renault para que destitua Ghosn de sua presidência —a Renault tem uma aliança com a Nissan e a Mitsubishi Motors, liderada pelo brasileiro.

"Essa aliança incomoda cada vez mais os japoneses; seria justo presumir que a inquisição sobre Ghosn seja parte de um esforço japonês para dissolver a aliança que o executivo montou", afirmou o jornal.

Na terça-feira (8), Ghosn fez sua primeira aparição desde que foi preso. Em depoimento no Tribunal Distrital de Tóquio, afirmou ter "agido com honra, legalmente e com o conhecimento e a aprovação dos diretores da companhia". 

O WSJ disse ainda que o caso contra o executivo não está ganhando força com o passar do tempo e que a defesa de Ghosn é mais persuasiva do que provas apresentadas contra ele até o momento. "Para nós, tudo isso parece uma disputa que deveria ser resolvida na sala do conselho e não em um tribunal."

Leia abaixo o editorial.

 

Carlos Ghosn no país das maravilhas

Caso contra o ex-presidente executivo da Nissan não ganha força com o passar do tempo
 
Do The Wall Street Journal
 
Carlos Ghosn enfim teve 10 minutos em um tribunal japonês, na quarta-feira (9), e o caso da procuradoria pública contra ele não parece melhor agora do que quando o ex-presidente executivo da Nissan foi detido, em 19 de novembro. Um dos casos mais estranhos no mundo dos negócios internacionais está se tornando mais curioso, cada vez mais curioso.

Os leitores talvez reconheçam a referência a "Alice no País das Maravilhas", acima, e certamente há um lado de "primeiro a sentença e depois o veredicto", no que vem acontecendo com Ghosn.

O homem que foi um herói popular no Japão por salvar a Nissan até agora só foi acusado formalmente de declarar sua remuneração erroneamente às autoridades regulatórias japonesas. Mas durante sua detenção, que já dura sete semanas, os procuradores públicos continuaram a adicionar acusações que necessitam de investigação, a fim de que possam mantê-lo preso, nos termos das leis japonesas.

O mundo está descobrindo que a prática dos procuradores públicos japoneses não é indiciar alguém e depois ir a julgamento para testar as provas da acusação em contraposição às da defesa. Em Tóquio, os procuradores podem manter um acusado detido e interrogá-lo sem a presença de um advogado até que ele confesse. O julgamento é essencialmente um procedimento pró-forma, e a culpa é preordenada.

O problema para a procuradoria é que Ghosn se recusa a confessar, porque insiste em que nada fez de errado. Seu advogado japonês recorreu a uma manobra processual rara na segunda-feira, para que Ghosn pudesse comparecer a uma audiência diante de um juiz e ler uma declaração na qual professou sua inocência em público pela primeira vez. Sua defesa é mais persuasiva do que as provas apresentadas publicamente pela procuradoria.

"Ao contrário do disposto nas acusações que a procuradoria move contra mim, jamais recebi qualquer remuneração da Nissan que não tivesse sido declarada, e jamais assinei qualquer contrato vinculante com a Nissan que dispusesse o pagamento de uma quantia fixa que não tenha sido revelada", disse Ghosn ao tribunal.

A "remuneração" em questão era uma conta hipotética mantida por Ghosn quanto ao que ele poderia ter ganho caso a Nissan o remunerasse de acordo com os padrões de pagamento dos executivos da indústria automobilística internacional. Todo mundo sabia que sua remuneração ficava abaixo desses padrões, e tanto a Ford quanto a GM tentaram tirar Ghosn da Nissan.

Mas ele afirma que jamais teve um "contrato vinculante" com a Nissan quanto a qualquer quantia que não tenha sido declarada. As propostas provisórias de remuneração que lhe seria paga pós-aposentadoria foram inspecionadas por advogados "internos e externos" da Nissan, e tampouco eram contratuais, ele diz. Queremos muito saber de que forma os procuradores públicos explicarão por que é um crime que Ghosn não revele um não contrato prevendo uma não remuneração.

Ghosn também ofereceu defesas plausíveis para duas outras acusações. A Nissan cobriu seu então presidente-executivo por garantias que ele usou em contratos de câmbio, para compensar o impacto das mudanças na taxa de câmbio entre o iene e o dólar. Ele era pago em ienes, mas incorria em custos denominados em dólares, fora do Japão. Os contratos de câmbio foram mais tarde transferidos de volta a Ghosn, e a Nissan não sofreu prejuízos.

Os procuradores também afirmam que Ghosn pode ter ordenado que a Nissan fizesse pagamentos a um parceiro duradouro da empresa, a Khaled Juffali Co., em troca de negócios que Juffali fez para Ghosn.

Mas Juffali e Ghosn afirmam que os pagamentos a Juffali se referiam a "serviços essenciais que beneficiaram substancialmente a Nissan".

O juiz tem prazo até o final da semana para decidir sobre o pedido de fiança de Ghosn, mas os procuradores podem apresentar outras acusações para detê-lo por mais tempo. Os procuradores públicos dizem que há risco de fuga, se Ghosn sair sob fiança, e que ele poderia destruir provas, mas se os procuradores ainda não obtiveram provas suficientes, a esta altura, o que pode restar para ser destruído?

A longa detenção significa pressão cada vez maior sobre a Renault para que destitua Ghosn de sua presidência. A Renault tem uma aliança com a Nissan e a Mitsubishi Motors, e essa aliança incomoda cada vez mais os japoneses; seria justo presumir que a inquisição sobre Ghosn seja parte de um esforço japonês para dissolver a aliança que o executivo montou.

Os franceses não estão se esforçando para protestar contra o tratamento dos japoneses a Ghosn, o que sugere que eles talvez se importem mais com a aliança do que com tudo que Ghosn fez para salvar a indústria automobilística francesa.

Para nós, tudo isso parece uma disputa que deveria ser resolvida na sala do conselho e não em um tribunal. Enquanto isso, Ghosn continua na prisão, onde pode contemplar um caso que se parece cada vez mais com a justiça da Rainha Vermelha.
 

Tradução de PAULO MIGLIACCI

The Wall Street Journal
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