Descrição de chapéu Cifras & Letras

Livro propõe ajuste além da economia para o capitalismo

Obra apresenta ideias baseadas em princípios éticos e obrigações mútuas

Martin Wolf
Londres | Financial Times

The Future of Capitalism

  • Preço R$ 85,30 (ebook), 241 págs.
  • Autor Paul Collier
  • Editora Harper

Paul Collier é um dos mais influentes especialistas mundiais em desenvolvimento econômico (e meu amigo).

Em "The Future of Capitalism: Facing the New Anxieties" [o futuro do capitalismo: encarando as novas ansiedades], um livro pessoal, passional e original, ele trata da insatisfação que toma os países ocidentais de alta renda hoje. Seu alvo são as falhas do capitalismo contemporâneo.

Não é preciso concordar com tudo o que o livro diz para perceber seu escopo e força.

O ponto de partida de Collier é algo sobre o que certamente todos concordam: "Há fissuras profundas em nossas sociedades. Elas causam novas ansiedades e nova ira aos nossos cidadãos e geram novas paixões em nossa política".

Ele acrescenta que "as bases dessas ansiedades são geográficas, educacionais e morais". Essas fissuras estão dilacerando o Reino Unido e os EUA, levando o primeiro ao "brexit", e Donald Trump, à Presidência do segundo.

As maiores fissuras acontecem entre as pessoas de alta e de baixa escolaridade e entre as metrópoles cosmopolitas e as províncias decadentes.

Duas variedades de charlatão --ideólogos de esquerda e de direita e populistas carismáticos-- exploram a frustração e o desespero. No entanto, embora "tanto ideólogos quanto populistas prosperem com a ansiedade e a ira geradas pelas novas fissuras, são incapazes de repará-las".

Protesto em Londres contra a saída do Reino Unido da UE; para autor, fissuras levaram ao 'brexit' e a Trump - AFPAdrian Dennis - 2.jan.18/AFP

A argumentação dele em seguida se volta ao que aconteceu de errado. A característica mais importante do livro é o fato de que sua resposta vai além dos limites estreitos da economia e tem um lado ético.

O princípio central que Collier propõe é o de "obrigação recíproca" como base para o mundo cooperativo, a sociedade civilizada, os negócios éticos e as famílias funcionais.

Mas há forças econômicas em jogo, igualmente. A globalização e a inovação tecnológica recompensam as aglomerações metropolitanas e as pessoas de alta escolaridade. 

Uma vez mais, o sucesso das pessoas de alta escolaridade e a relativa estabilidade de seus casamentos tornam mais provável que as vantagens de classe se tornem hereditárias, como na era da aristocracia. 

Por fim, o capitalismo atual gerou patologias: finanças descontroladas, impostos sonegados, empresas sem base e imigração sem ordem.

Collier sugere dois tipos de reforma: ética e técnica.

Suas soluções éticas vão na direção do restabelecimento da crença central em obrigações mútuas, em todos os níveis: mundial, nacional, empresarial e familiar. 

A ideia toma a forma concreta do restabelecimento de clubes de reciprocidade em nível mundial; previdência social contributiva em nível nacional; algo como o velho modelo cooperativo no nível empresarial; e compromissos mútuos mais fortes em nível familiar.

A mais intrigante das propostas técnicas de Collier é uma atualização das ideias do economista Henry George. Ele argumentava que a fundação da receita pública deveria ser a tributação da renda gerada pela terra. Collier argumenta que devemos tributar mais formas de renda, entre as quais a aglomeração, que agora favorece indivíduos e empresas afortunados.

Ele tem outras ideias provocativas: uma é criar o crime de "banquicídio culposo", para gestores que permitirem a quebra de um banco.

O livro é admirável de diversas maneiras: a abordagem ética mais ampla quanto à economia; o alcance das questões econômicas, sociais e políticas que ele discute; e a análise da aglomeração econômica no mundo atual. 

Mas também causa desesperança. As sociedades ocidentais igualitárias das décadas de 1950 e 1960 exerciam monopólio mundial sobre a indústria e tinham solidariedade social gerada pelas adversidades compartilhadas. 

Além disso, as forças, internas e externas, que estão dilacerando as sociedades ocidentais são poderosas. O senso de obrigação mútua desapareceu, a velha força de trabalho industrial se extinguiu, e a arrogância e a incompetência da elite causam ira nos demais.

É mais fácil reconhecer as origens de nossos males e a fraudulência de nossos remédios que sentir confiança em uma solução. Mas devemos no mínimo tentar fazer melhor. 
 
Tradução de Paulo Migliacci

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