Nissan expande investigação sobre Carlos Ghosn a outros executivos

Pelo menos dois seguidores leais do ex-presidente do conselho da empresa são investigados

Kana Inagaki Leo Lewis Peter Campbell
Financial Times

A investigação da Nissan sobre Carlos Ghosn se expandiu e se converteu em inquérito mundial sobre diversos executivos importantes, envolvendo pelo menos dois seguidores leais do ex-presidente do conselho da empresa, que fez sua primeira aparição após ser preso, no tribunal nesta terça-feira (8).

Ghosn, que continua a ser presidente-executivo da montadora francesa Renault, não foi visto em público e nem fez declarações públicas desde sua detenção no aeroporto de Haneda, em Tóquio, no mês de novembro.

Na terça-feira, compareceu a uma audiência no tribunal distrital de Tóquio para solicitar esclarecimentos sobre o motivo para que seu período de detenção tenha sido estendido para quase 50 dias.

O inquérito interno da Nissan, cujos detalhes a montadora japonesa vem compartilhando com os procuradores públicos, se expandiu durante o período de detenção de seu ex-executivo, cujos assuntos financeiros estão sendo investigados.

Houve quem expressasse preocupação com a possibilidade de que a investigação seja usada para expurgar da empresa executivos importantes que são próximos de Ghosn, de acordo com pessoas informadas sobre o inquérito.

A Nissan anunciou no sábado que José Muñoz, o vice-presidente de desempenho da empresa, que comandava suas operações na China e era visto como possível sucessor de Ghosn, havia se licenciado abruptamente.

A ausência dele foi anunciada depois de a empresa ter informado que identificou problemas em contratos assinados por ele com fornecedores no México e nos Estados Unidos, quando comandava as operações da companhia na América do Norte, entre 2014 e 2018, de acordo com duas pessoas informadas sobre a investigação.

A Nissan afirmou que a licença tinha por objetivo "permitir que ele ajude a empresa ao se concentrar em tarefas especiais causadas por acontecimentos recentes".

Em separado, Arun Bajaj, que comanda a área de recursos humanos da Nissan e está encarregado da gestão de talentos na aliança Renault-Nissan-Mitsubishi, também se licenciou e está fornecendo informações aos procuradores públicos japoneses sobre a situação tributária de Ghosn, de acordo com pessoas informadas sobre a investigação.

Muñoz e Bajaja não foram acusados de quaisquer delitos.

O passaporte de Bajaj está em poder das autoridades, e ele ficará em sua casa em Tóquio enquanto coopera com a investigação, de acordo com as fontes.

A Nissan confirmou a licença de Bajaj. A empresa se recusou a fornecer informações adicionais sobre os dois executivos. Muñoz e Bajaj não responderam a pedidos de comentários.

A procuradoria distrital de Tóquio se recusou a comentar.

Muñoz era visto como um dos executivos mais próximos a Ghosn e comandou dois dos mercados internacionais mais importantes para a montadora, o dos Estados Unidos, até janeiro do ano passado, e o da China, a partir de abril de 2018.

Pessoas próximas a Muñoz questionaram por que ele se tornou alvo da investigação interna da Nissan. Dizem que os contratos no México que estão sendo estudados normalmente teriam de ser aprovados primeiro pela Renault-Nissan Purchasing Organization, que administrava as compras da aliança de montadoras e agora é conhecida como Alliance Purchasing Organisation, antes que o presidente regional da empresa os assinasse.

A investigação interna da Nissan descobriu, no entanto, diversos contratos com fornecedores e distribuidores em outras partes do mundo que não tinham sido aprovados pela aliança e favoreciam empresas que têm relações com Ghosn, disse outra pessoa informada sobre a investigação.

O histórico de Muñoz nos Estados Unidos também foi questionado, porque a empresa vem enfrentando uma queda de lucros, depois de gastos agressivos com incentivos para estimular as vendas.

Depois da detenção de Ghosn, Hiroto Saikawa, presidente-executivo da Nissan, especificamente apontou para as operações "distendidas" da empresa nos Estados Unidos como um dos legados negativos da era Ghosn, quando metas agressivas de vendas eram adotadas para elevar a participação de mercado da companhia e muitas vezes não era possível cumpri-las.

A primeira reforma no comando executivo da empresa desde a derrubada de Ghosn se segue a uma expansão significativa da investigação interna da Nissan sobre os assuntos financeiros dele, que agora envolve outras partes da Ásia, o Oriente Médio e a América Latina.

Ghosn foi indiciado por acusações de submeter contas da empresa nas quais declarava remuneração inferior à real - acusações das quais se declara inocente, dizem pessoas que têm acesso à sua equipe legal.

Depois do indiciamento, ele teve sua detenção estendida por suspeita de violação grave de confiança. Os procuradores afirmam que as acusações se relacionam a uma transferência de prejuízos em uma operação de derivativos, da empresa privada de gestão de ativos da Ghosn para a Nissan, e a pagamentos realizados na Arábia Saudita depois dessas transferências.

Pessoas próximas à equipe legal de Ghosn disseram que os pagamentos foram realizados com propósitos legítimos de negócios.

O advogado de Ghosn em Tóquio não foi localizado para comentar.
 
Tradução de PAULO MIGLIACCI

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.