Presidente do BC dos EUA diz que será paciente com política monetária e tranquiliza mercados

Depois da fala de Powell, os principais indicadores americanos passaram a subir com mais força

Danielle Brant
Nova York

Ao que tudo indica, paciência será a palavra do ano para o banco central americano. Foi com ela, por exemplo, que o presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, conseguiu nesta sexta-feira (4) acalmar os mercados, que vinham do pior ano desde a crise global e tiveram uma primeira semana pouco animadora também.

Ao lado de seus dois antecessores imediatos, Janet Yellen e Ben Bernanke, respectivamente, Powell participou de um painel do encontro anual da Associação Americana de Economia, em Atlanta.

Pouco antes, ele tomou conhecimento de que o mercado de trabalho americano continua sólido, com a criação de 312 mil vagas em dezembro e uma taxa de desemprego de 3,9%. A inflação ainda continua em torno de 2% ao ano.

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Conferência da American Economic Association, que teve a participação de Jerome Powell, presidente do Fed - Jessica McGowan/Getty Images/AFP

Nada nos dados econômicos disponíveis, segundo analistas, abre espaço para que a decisão do Fed de subir juros quatro vezes no ano passado e potencialmente duas neste ano seja questionada. Ainda assim, Powell, nesta sexta, julgou que era importante tranquilizar os investidores sobre a política monetária adotada pelo banco central dos EUA.

“Particularmente, com as moderadas leituras de inflação que estamos vendo, nós vamos ser pacientes conforme observamos como a economia evolui”, afirmou. “Não há um caminho preestabelecido para a política. Nós estamos sempre preparados para mudar a posição da política e mudar significativamente.”

O presidente do Fed usou como comparação o comportamento do banco central americano em 2016, sob comando de Yellen. O mercado esperava quatro altas de juros. As turbulências internacionais e domésticas —afinal, era ano eleitoral nos EUA—  fizeram com que a autoridade monetária elevasse a taxa apenas uma vez, em dezembro.

“Ninguém sabe se este ano vai ser como 2016”, disse. “Mas o que sabemos é que estaremos preparados para ajustar a política rapidamente e com flexibilidade para usar todas as nossas ferramentas para apoiar a economia se for apropriado para manter a expansão nos trilhos, para manter o mercado de trabalho forte e para manter a inflação perto de 2%.”

O discurso de Powell, aparentemente, era o que o mercado queria escutar. Os principais indicadores americanos fecharam com fortes altas, um dia após desabarem sob efeito da queda de cerca de 10% das ações da Apple. 

O Dow Jones avançou 3,3%, o S&P 500 teve valorização de 3,4% e o índice da Bolsa de tecnologia Nasdaq ganhou 4,3%.

O discurso de Powell ajudou a acalmar os mercados. Depois das falas do presidente do Fed, os principais indicadores americanos, que haviam afundado no dia anterior sob impacto da queda de 10% das ações da Apple, passaram a subir com mais força. Às 14h18 (local), o Dow Jones subia 3,20%, o S&P 500 avançava 3,28% e o índice da Bolsa Nasdaq tinha valorização de 4,28%.

As declarações foram dadas depois de o mais recente aumento de juros no país, no último dia 19 de dezembro, ser pessimamente recebido pelos investidores.

A alta já era indicada em setembro, mas o mercado acreditava que o Fed levaria em consideração os sinais cada vez mais claros de que há uma desaceleração econômica sincronizada no mundo que exigiria uma postura mais cautelosa do BC dos EUA.

Não só não levou como o discurso de Powell sobre a redução do balanço de pagamentos do Fed foi recebido com preocupação, afirma Quincy Krosby, estrategista-chefe de mercados da Prudential.

Na ocasião, ele disse que a redução estava sendo suave e que não via o Fed mudando o ritmo. “O mercado entendeu que estava no automático, ou seja, que o Fed não estava prestando atenção no impacto que essa redução poderia ter”, diz Krosby.

O balanço de pagamentos é um grande portfólio de títulos que o banco central americano comprou ao longo da crise financeira global para estimular a economia dos EUA. Atualmente, o Fed está liberando US$ 50 bilhões de seu balanço de pagamentos por mês –no auge, entre 2015 e 2017, chegou a deter US$ 4,5 trilhões.

Nesta sexta, Powell afirmou que o Fed não hesitaria em ajustar o fluxo do balanço de pagamentos se percebesse que está causando problemas nos mercados financeiros. As turbulências nas Bolsas também receberam comentários do presidente do banco central americano.

Para ele, os mercados estão precificando os riscos de baixa ao cenário desenhado pelo Fed. “Eles estão bem à frente dos dados. Eles estão expressando preocupações com o crescimento global, com as negociações comerciais”, disse. “Vamos levar esses riscos em consideração na política monetária.”

A preocupação foi refletida em taxas de juros dos títulos federais. Embora o próprio Fed sinalize duas altas em suas projeções econômicas, o mercado passou a apostar que o banco central americano manteria a taxa na faixa de 2,25% a 2,5% durante o ano inteiro –e algumas vozes já sugerem que pode cortar os juros, se a economia americana tiver uma desaceleração maior que a esperada pelos analistas.

Para Krosby, da Prudential, os investidores vão continuar atento a dados não só de economia americana, mas também globais. “Muita coisa pode mudar se a economia começar a ganhar impulso, se o mercado estiver errado e a economia não desacelerar dramaticamente.”

Sobre isso, Powell aproveitou para mandar um recado ao presidente Donald Trump. Rumores de que o republicano estaria considerando demitir o presidente do Fed começaram a circular no final de dezembro. Nesta sexta, ao ser questionado se renunciaria ao cargo caso Trump ordenasse, Powell respondeu com um seco “não”.

Ele disse ainda não ter recebido nenhuma comunicação direta da Casa Branca relatando descontentamento com a política monetária do Fed, e também negou que tenha sido marcado qualquer encontro com Trump.

“Eu diria que encontros entre presidentes e presidentes do Fed acontecem”, limitou-se a dizer Powell, quando questionado se aceitaria se encontrar com o republicano. Rompendo uma tradição de outros presidentes, Trump começou, a partir de julho, a criticar as altas de juros conduzidas pelo banco central, afirmando que estavam prejudicando a economia.

Nesta sexta, Powell voltou a reiterar que o Fed recebe diretrizes do Congresso americano e que se esforça para cumprir seus objetivos “de uma forma não política”.

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