Sistema ferroviário na Índia abre 63 mil vagas e recebe 19 milhões de currículos

Postos exigem baixa qualificação, mas candidatos, que sofrem com desemprego, têm curso superior e até mestrado

Joanna Slater
Nova Déli
Anil Gujjar chegou à capital indiana vindo de um vilarejo do Rajastão, no Noroeste do país, com apenas uma mochila nas costas e a esperança de encontrar um bom emprego.
 
As chances de conseguir não eram grandes. Em fevereiro, o sistema ferroviário da Índia anunciou uma campanha nacional de recrutamento para preencher as vagas de trabalho menos qualificado em sua hierarquia: ajudante, carregador, faxineiro, porteiro, operador assistente de mudança de via, trabalhador na manutenção dos trilhos.
 
A campanha atraiu 19 milhões de candidatos para 63 mil vagas.
 
Indianos trabalham em linha ferroviária em Ahmedabad, na Índia
Indianos trabalham em linha ferroviária em Ahmedabad, na Índia - AFP
 
Um dos candidatos foi Gujjar, filho de agricultor e primeira pessoa de sua família a ter cursado universidade. No centro de testes em Déli, onde ele fez um exame obrigatório, em novembro, ele olhou à sua volta e viu centenas de outros rapazes como ele. Quase todos eram universitários formados ou que ainda cursavam a faculdade. Alguns até tinham mestrados.
 
A campanha de recrutamento da ferrovia é um símbolo que revela muito sobre o problema do emprego na Índia. O país é uma das grandes economias em crescimento mais rápido do mundo, mas não está gerando trabalho suficiente –muito menos bons empregos— para os jovens que ingressam na força de trabalho, muitos deles com alto nível de instrução.
 
Até 2021 a Índia deve ter 480 milhões de pessoas na faixa dos 15 aos 34 anos. Os membros desse grupo têm níveis de instrução mais altos e estudaram por mais tempo do que os integrantes de qualquer geração anterior de indianos. O aumento da população jovem representa uma oportunidade para este país de 1,3 bilhão de habitantes, dizem os economistas, mas apenas se esses jovens puderem encontrar trabalho produtivo.
 
As tendências de emprego recentes não são animadoras. Uma análise de dados governamentais, conduzida pela Universidade Azim Premji, mostrou que entre 2011 e 2016 o desemprego aumentou em quase todos os estados do país. O índice de desemprego de jovens e pessoas com qualificações educacionais superiores aumentou no mesmo período, em alguns casos nitidamente: segundo o conhecido economista do trabalho Santosh Mehrotra, o índice de desemprego de universitários formados subiu de 4,1% para 8,4%.
 
O destino dos milhões de desempregados indianos é um problema político grave para o primeiro-ministro Narendra Modi, que quer se reeleger este ano. Modi chegou ao poder quase cinco anos atrás prometendo “desenvolvimento para todos” e geração robusta de empregos. Mas seus esforços para promover a manufatura e o empreendedorismo não conseguiram turbinar o emprego.
 
Enquanto isso, sua iniciativa controversa lançada no final de 2016 para invalidar a maioria das cédulas de dinheiro do país, ostensivamente para frear a corrupção, teve impacto negativo sobre os trabalhadores. Cerca de 3 milhões de empregos foram perdidos nos primeiros quatro meses de 2017, segundo o Centro de Monitoramento da Economia Indiana, firma de pesquisas de Mumbai que faz uma pesquisa nacional sobre o emprego. Seus dados também revelam que a força de trabalho encolheu entre 2017 e 2018, algo que não é sinal de um mercado de trabalho saudável.
 
“A Índia está perdendo oportunidades rapidamente”, diz Mahesh Vyas, executivo-chefe da firma de pesquisas. “Em lugar de encaminhar todos os jovens que ingressam no mercado para trabalho produtivo, estamos apenas discutindo interminavelmente e sem necessidade.” O resultado, segundo ele, é “uma crise lenta e insidiosa”.
 
Para muitos jovens indianos, a busca de emprego é algo que toma todo seu tempo. Uma “indústria” inteira apareceu para oferecer aulas de “desenvolvimento da personalidade” –algo que reúne aulas de inglês básico, habilidades sociais e preparo de entrevistas de trabalho, supostamente melhorando as chances de as pessoas conseguirem trabalho. Golpes de emprego são comuns, e os golpistas manipulam as aspirações das pessoas que procuram trabalho.
 
Jovens com alto nível de instrução não querem ser “pakora wallahs” –pessoas que preparam pakoras, um salgadinho frito indiano típico--, comentou Radhicka Kapoor, economista do Conselho Indiano de Pesquisas sobre Relações Econômicas Internacionais. “Eles querem bons empregos produtivos e vão esperar até conseguirem esses empregos.”
 
Ajit Ghose, economista do Instituto de Desenvolvimento Humano, em Déli, diz que a Índia precisa gerar empregos não apenas para quem está ingressando na força de trabalho pela primeira vez –entre 6 milhões e 8 milhões de pessoas por ano, em sua estimativa--, mas também para as pessoas, em sua maioria mulheres, que estão trabalhando muito menos do que estariam se tivessem empregos estáveis com salários decentes. Ghose calculou que o país possui pelo menos 104 milhões desses trabalhadores “excedentes”.
 
É um desafio monumental para qualquer governo, e a liderança indiana não encontrou uma solução até agora. É mais difícil avaliar o desempenho do governo Modi no quesito geração de empregos porque o governo não divulga dados nacionais sobre emprego desde 2016. Os ministérios do Trabalho e das Estatísticas fizeram pesquisas mais recentes sobre emprego nas famílias indianas, mas os resultados ainda não foram levados a público.
 
“Ninguém sabe se alguma estatística de emprego será divulgada antes das eleições deste ano”, afirma Amit Basole, economista da Universidade Azim Premji.
 
O economista Arvind Panagariya, que foi vice-presidente da agência de planejamento de políticas públicas do governo atual, argumenta que não será possível avaliar corretamente a situação do emprego antes de o Ministério das Estatísticas divulgar novos dados nacionais. Enquanto isso não acontece, ele disse, sua impressão é que os receios quanto à geração de empregos são “exagerados”, em vista do alto índice de crescimento econômico do país.
 
Para os jovens indianos com alto nível de instrução, procurar um emprego que atenda às suas aspirações pode parecer uma maratona. No centro de testes em Déli, novas levas de candidatos aos cargos na ferrovia chegaram três vezes por dia, de segunda a sexta-feira, de setembro a meados de dezembro, numa cena reproduzida em centenas de outros centros espalhados pelo país.
 
O fluxo de candidatos aos empregos foi tão grande e constante que gerou sua própria mini-economia. Um empreendedor montou um guarda-volumes improvisado em um caminhão estacionado ao lado do centro de exame. Como os candidatos não podiam levar nada para dentro do recinto, ele guardava suas mochilas e seus telefones, cobrando uma taxa de 50 rúpias (o equivalente a R$ 2,60 ). Um camelô vendia meias soquete e fones de ouvido.
 
As histórias dos rapazes –e todos os candidatos foram homens, com uma única exceção verificada em dois dias no centro de exames de Déli—chamam a atenção por serem tão semelhantes. Os candidatos são principalmente universitários formados ou estudantes universitários dos Estados de Uttar Pradesh e Rajastão, no Norte do país, que buscam um meio de deixarem os vilarejos onde cresceram. Dizem que não há trabalho nos lugares de onde vieram.
 
Gujjar chegou a Déli pela primeira vez na vida na noite antes de seu exame, marcado para as 9h. Passou a noite dormindo num lençol que estendeu no chão da estação ferroviária. Na manhã seguinte, tomou um ônibus para chegar ao centro de exames, onde ficou esperando com os braços cruzados no frio antes do amanhecer. Às 7h35, um guarda com um alto-falante portátil começou a gritar instruções aos candidatos reunidos.
 
Ansioso demais para jogar conversa fora, Gujjar não quis descrever como estava se sentindo. “Pergunte de novo depois de eu ver o exame”, ele disse. Explicou que as vagas de trabalho oferecida pela Indian Railways não têm nenhum atrativo inerente. “Não se trata de interesse”, ele disse, “é que eu quero um trabalho, só isso.”
 
Gujjar tem 19 anos e ajuda seus pais a cultivar trigo e painço em um terreno pequeno. Um ano atrás, ele tentou entrar para o Exército indiano, mas não foi aprovado num exame de admissão. Não há oportunidades em seu vilarejo, no distrito de Jhunjhunu, ele disse, e a maioria de seus amigos não tem trabalho regular.
 
Depois de fazer o exame computadorizado de 90 minutos, Gujjar saiu pelo portão azul com um sorriso de alívio no rosto. O exame não foi tão difícil quanto ele receara. Será preciso esperar meses para saber se ele conseguiu uma vaga –há cerca de 300 candidatos para cada uma. “Se eu conseguir emprego, terá valido a pena”, ele disse.
 
Tradução de Clara Allain
The Washington Post
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