Venda de carros na China cai pela primeira vez em 20 anos

Funcionário do ministério de planejamento disse que medidas de apoio ao setor estão a caminho

Jacky Wong
The Wall Street Journal

A comercialização de carros na China caiu em 2018 pela primeira vez em 20 anos, informou a Associação de Carros de Passeio do país nesta quarta-feira (9).

As vendas recuaram 6% na comparação com 2017, para 22,7 milhões de unidades no ano passado.

A queda ocorre em meio a uma desaceleração da economia chinesa que atingiu o desempenho dos fabricantes de automóveis pelo mundo toda.

Um novo pacote de estímulo ordenado pelas autoridades de Pequim pode oferecer uma solução de curto prazo, mas à custa de problemas futuros.

As ações das montadoras de automóveis chinesas subiram nesta quarta depois que um importante funcionário do ministério de planejamento econômico da China disse que medidas de apoio ao setor estavam a caminho.

Pequim pode estar se preparando para oferecer cortes de impostos ou subsídios aos compradores de automóveis, como fez em 2009 e 2015. 

Em 2009, além de reduzir a alíquota do imposto sobre a compra de veículos, o governo introduziu um programa parecido com o de recompra de automóveis usados de baixo valor criado nos Estados Unidos no governo de Barack Obama, para estimular os cidadãos rurais a comprarem carros novos.

Políticas semelhantes terão menos efeito sobre o mercado desta vez. Isso acontece principalmente porque o último incentivo fiscal, que encorajou muitos compradores a adiantar seus planos de compra de carros, só expirou no final de 2017.

O mercado cresceu muito: a China hoje vende mais de 30 milhões de carros ao ano, mais que o dobro do volume que vendia dez anos atrás. E embora a propriedade de automóveis na China continue a ser muito mais rara do que em outros países desenvolvidos, o país chegou a um ponto —160 carros para cada mil habitantes— para além do qual o crescimento naturalmente se tornará mais lento e mais cíclico, de acordo com a corretora americana Bernstein, com base em comparações entre a China e países como o Japão e os Estados Unidos em estágios semelhantes de seu desenvolvimento.

Infraestrutura melhor e uma população urbana mais concentrada também significam que a propriedade de automóveis na China provavelmente jamais atingirá proporções semelhantes à dos Estados Unidos.

Trabalhador na fábrica da JAC Motors em Tongling, na China
Trabalhador na fábrica da JAC Motors em Tongling, na China - Xinhua/Jin Liwang

Pequim pode sentir que precisa tentar alguma coisa, já que a indústria automobilística representa cerca de 6% do PIB (Produto Interno Bruto) do país, de acordo com o banco Citi. Mas medidas renovadas de estímulo simplesmente adiantarão a demanda, uma vez mais, o que resultará em ressaca maior no futuro.

O incentivo fiscal mais recente, entre 2015 e 2017, adiantou a demanda por cerca de 7,4 milhões de carros, estima o banco Goldman Sachs, ou cerca de 10% das vendas de automóveis no período.

Um novo pacote de estímulo também poderia estimular as ações deprimidas das montadoras, em curto prazo  —elas caíram em mais de 40% no ano passado.

Em prazo mais longo, os investidores deveriam optar por acompanhar ações automobilísticas chinesas que tenham boa escala e fortes ligações com marcas estrangeiras, como as da SAIC Motor, líder do setor, parceira da General Motors e da Volkswagen.

A Guangzhou Automobile, que fabrica carros com as marcas Toyota e Honda, vem ganhando mercado, também. Recolocar o mercado de automóveis da China em marcha acelerada será difícil, mas alguns vencedores podem emergir.
 
Tradução de PAULO MIGLIACCI

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