Ameaça de rebelião faz governo discutir reforma com deputados

Presidente envia ao Congresso nesta 4ª texto com novas regras da Previdência

Brasília

Diante da ameaça de rebelião de deputados inconformados com a ideia de o Palácio do Planalto apresentar primeiro para governadores a reforma da Previdência, o governo se viu obrigado a mudar de estratégia e, somente na noite desta terça-feira (19), convidou os líderes partidários para a reunião da manhã desta quarta (20).

O convite aos líderes foi encaminhado pelo secretário especial de Previdência e Trabalho, Rogério Marinho, e pegou o líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo (PSL-GO), de surpresa.

Líderes da Câmara criticaram a estratégia do governo de apresentar a reforma da Previdência para governadores antes de explicá-la aos deputados federais.

Agora, a proposta será apresentada aos dois grupos, às 10h30, desta quarta, no mesmo dia em que chega ao Congresso. 

Na Câmara, o texto será entregue antes, às 9h30, pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, e pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL).

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Na noite de terça, o presidente Jair Bolsonaro discursou em posse da diretoria da Frente Parlamentar do Agronegócio - Ueslei Marcelino/Reuters

Os líderes partidários só seriam recebidos para tratar do assunto nesta quinta-feira (21), em café da manhã no Palácio da Alvorada. 

Os partidos se sentiram preteridos pelo governo na articulação da mudança das regras da aposentadoria e já afirmavam que seria um erro não mostrá-la aos parlamentares antes da apresentação geral.

“Não são os governadores que votam, são os deputados. Acho que o governo deveria reavaliar sua estratégia. Guardada a atenção que tem de se dar aos governadores, uma coisa articulada com os líderes seria mais prudente”, afirmou o líder do Solidariedade, Augusto Coutinho (PE).

No Podemos, José Nelto (GO) também criticou a estratégia inicial, que chamou de “muito ruim”. “Em Goiás, eu posso falar que não admito que o governador tenha ingerência sobre os votos”, disse.

Segundo parlamentares ouvidos pela Folha, a estratégia tinha o mesmo problema da articulação com bancadas temáticas, como a da agropecuária e a da segurança pública, comum no governo: os partidos ainda mantêm maior influência sobre o voto de seus deputados.

“O pulso não vai [aprovar a reforma]. Por mais influência que alguns governadores tenham, não têm como os partidos”, afirmou Arthur Lira (PP-AL), que comanda uma bancada de 37 deputados, uma das maiores da Casa.

Inconformados, lideranças de partidos do centrão discutiam a possibilidade de comparecer à reunião com governadores, mesmo antes de serem convidados.

“O que nós acordamos é que vamos participar da reunião dos governadores. Não ficaria bem apresentar para os governadores e depois para os líderes dos partidos”, disse o líder do PR, José Rocha, antes da mudança de planos do Palácio do Planalto.

A reunião dos partidos com Bolsonaro deve ser cheia de “poréns”. Líderes que confirmaram que participarão do encontro dizem que isto não significa que serão base do governo nem que votarão a reforma da Previdência. 

“Eu ir não significa que sou base do governo, se fosse uma reunião só para base eu não iria, porque meu partido tem uma posição de independência”, disse Fred Costa (MG), do nanico Patriota.

Costurada por Guedes, a reforma da Previdência prevê o endurecimento das regras de aposentadorias para alcançar uma economia em torno de R$ 1 trilhão em dez anos.

Com isso, a equipe econômica buscará equilibrar as contas públicas —hoje com rombo bilionário.

O texto, que será primeiramente analisado pela Câmara, propõe a criação de uma idade mínima para que o trabalhador tenha direito à aposentadoria. O governo quer o patamar de 65 anos de idade para homens e de 62 anos para as mulheres.

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