É cedo para dizer se brigas no governo podem prejudicar reformas, diz Fitch

Analista afirma que espera-se por um consenso entre todos os partidos

Danielle Brant
Nova York

Apesar da recente crise manifestada dentro do governo de Jair Bolsonaro, ainda é cedo para dizer se os desentendimentos internos poderão prejudicar a construção de uma coalizão no Congresso que aprove a reforma da Previdência, afirmou nesta quarta-feira (13) Shelly Shetty, diretora de ratings soberanos para América Latina da agência de risco Fitch.

Nesta terça, o presidente respaldou ataques de seu filho Carlos Bolsonaro a Gustavo Bebianno, ministro da Secretaria Geral da Presidência, em episódio envolvendo a revelação do esquema de candidaturas laranjas do PSL pela Folha. Bebianno presidiu o partido no ano passado, incluindo durante o período eleitoral, quando a legenda teria usado candidaturas laranjas para desviar verba do fundo partidário.

Para Shetty, ainda não dá para avaliar se o caso pode atrapalhar a capacidade de articulação do governo. “É muito cedo para dizer. Toda administração pode ter brigas internas”, afirmou, em Nova York, durante evento sobre ratings soberanos de países emergentes.

“No fim do dia, estamos esperando para ver se um consenso poderá ser formado em relação a essas reformas não só dentro do partido [PSL], mas em relação a outros partidos, porque claramente a administração Bolsonaro precisa de apoio de outros partidos.”

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Prédio do escritório da agência de risco Fitch, em Londres - Reuters

A diretora da Fitch elogiou o comprometimento do governo com a agenda reformista, mas ressaltou que é preciso conhecer a nova estratégia política para formar uma coalizão para assegurar a aprovação das reformas no Congresso.

“Não há uma peça substancial de legislação econômica que tenha chegado ao Congresso na administração Bolsonaro. Precisamos que isso aconteça para podermos julgar se haverá a formação de uma coalizão que apoiará as reformas que vêm à frente”, afirmou Shetty.

Na Fitch, o Brasil tem nota de crédito BB-, com perspectiva estável. O país está no grupo considerado mau pagador de sua dívida e três níveis abaixo do grau de investimento.

Uma eventual melhora da nota passa pela capacidade do governo de conseguir aprovar as reformas e reequilibrar as finanças públicas, diz. “Teríamos que ver alguma consolidação fiscal que aumente nossa confiança em que a dívida vai finalmente estabilizar no médio prazo”, afirmou.

O país ainda precisa provar que a recuperação econômica é sustentada por uma estabilidade monetária e que resistiria a desequilíbrios macroeconômicos menores, como uma vulnerabilidade externa. Para a Fitch, o PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro cresce 2% neste ano.

“São aspectos que levam tempo para evoluir. Agora, o rating está em perspectiva estável, então não estamos sinalizando nenhum momento positivo no rating brasileiro”, complementou.

Comparado com a Argentina, o Brasil está bem melhor posicionado na agência. O país vizinho tem rating B, com perspectiva negativa, o que significa chances de rebaixamento no curto prazo. São dois níveis abaixo do Brasil.

A agência, no momento, monitora a recessão argentina –o FMI (Fundo Monetário Internacional) estima em 2,6% a queda do PIB do país em 2018. As eleições podem agravar um cenário já difícil, na avaliação da diretora da Fitch.

“Se as eleições ficarem mais competitivas, é um desafio à administração e vai testar a capacidade do governo de cumprir suas metas em 2019”, disse. Mas ela ressalta que a perspectiva negativa da nota vai além do ciclo eleitoral.

“Estamos ainda cedo no ciclo eleitoral. No segundo turno, [o atual presidente Mauricio] Macri está ganhando da [ex-presidente] Cristina [Kirchner], mas por uma margem pequena e com muitos indecisos. Na Argentina, você enfrenta continuidade política, reversão política ou correção política.”

Shetty avalia ainda que, mesmo se reeleito, Macri não terá vida fácil, por causa dos ajustes que precisa fazer na economia argentina, entre eles uma possível reforma da Previdência. “É difícil mudar a perspectiva do rating para estável por causa da incerteza política, mas não podemos descartar um rebaixamento antes da eleição”, afirmou.

Isso aconteceria em caso da piora da dinâmica fiscal do país, de pressões sobre as reservas internacionais ou na hipótese de a Argentina precisar recorrer ao FMI novamente, como fez em 2018. 

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