Morre aos 87 anos o ex-ministro do Planejamento João Paulo dos Reis

Economista atuou durante o governo de Geisel e foi o idealizador do Fórum Nacional

Érica Fraga
São Paulo

Morreu na manhã desta terça-feira (19), aos 87 anos, o economista João Paulo dos Reis Velloso. Ex-ministro do Planejamento entre 1969 e 1979, durante a ditadura militar, ele estava com a saúde bastante fragilizada nos últimos meses e morreu em sua casa, no Rio de Janeiro.

Sempre muito ativo na vida pública, o economista foi o idealizador do Fórum Nacional, que buscava fomentar o debate sobre temas importantes para o crescimento do país. Anualmente, a instituição apartidária promovia um debate no Rio de Janeiro que ficou batizado como “fórum do Reis Velloso”.

“O Fórum reflete a enorme preocupação que ele sempre teve com o desenvolvimento do país e de sua personalidade liberal, que o levava a tentar promover debates plurais”, afirma o economista Fernando Veloso, pesquisador da FGV-Rio e sobrinho do ex-ministro.

As reuniões se tornaram famosas por abrigar personalidades —como ministros, empresários e até presidentes da República— de todos os matizes ideológicos.

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Ex-ministro do Planejamento, João Paulo dos Reis Velloso, morreu nesta terça-feira (19) - Felipe Varanda/Folhapress

Nos últimos dois anos, no entanto, a fragilidade da saúde do ex-ministro levou seu irmão, o também economista Raul Velloso a assumir a organização do encontro anual do Fórum, com a ajuda de Fernando.

Apesar dos limites físicos causados pela idade avançada, Reis Velloso continuava ativo intelectualmente. Trabalhava no projeto de um livro sobre o desenvolvimento econômico que não chegou a concluir. Além de ter publicado obras sobre economia, também tinha grande interesse – e foi autor de livros – sobre história e teologia.

Segundo Fernando Veloso, a grande preocupação do ex-ministro era em relação à falta de um projeto de longo prazo para o país.

“Ele sentia que o Brasil havia perdido o rumo do desenvolvimento e que a própria ideia de desenvolvimento tinha se perdido”.

Apesar disso, segundo o economista, Reis Velloso não era um saudosista da ditadura militar.

“Ele sempre teve apreço pela democracia”, diz.

O economista ressalta ainda a enorme contribuição que Reis Vellloso deu ao país participando ativamente do desenho de importantes instituições como a Finep (Financiadora de Estudos e Projeto) e o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

Além de elaborar seu projeto de criação, a pedido do então ministro do Planejamento Roberto Campos, o economista foi o primeiro presidente do Ipea durante as gestões de Humberto Castelo Branco e Artur da Costa e Silva.

Depois de atuar como secretário-geral do Ministério do Planejamento ainda no governo Costa e Silva, Reis Velloso acabou assumindo o comando da pasta quando Emílio Garrastazu Médici se tornou presidente, em outubro de 1969.

No período, no entanto, era ofuscado pelo então todo-poderoso ministro da Fazenda, Antônio Delfim Netto. O jogo mudou quando Médici foi sucedido por Ernesto Geisel e Delfim foi substituído pelo economista Mario Henrique Simonsen.

Uma das primeiras providências de Velloso foi convencer Geisel de que a pasta de Planejamento deveria se transformar em um órgão da presidência da República.

“Virou a Secretaria de planejamento da Presidência da República”, contou Velloso em entrevista à Folha em 2014, batendo com a caneta na mesa para enfatizar a importância da instituição que passou a comandar.

“Então, ninguém se metia a besta comigo”, concluiu o ex-ministro.

Durante a conversa, parte de um especial da Folha sobre os 30 anos do golpe de 1964, Velloso atribuiu à herança deixada por medidas tomadas na gestão de Delfim – como um início de abertura da economia – a dificuldades econômicas enfrentadas mais tarde por Geisel.

“Com isso se criou o que eu chamo de o ovo da serpente”, disse [em referência ao filme homônimo de Ingmar Bergman].

Segundo Velloso, para evitar uma recessão, o governo optou, na época, por desvalorizar o câmbio. Na época, Delfim refutou a crítica e atribui a Geisel os erros de política econômica que levaram o país à bancarrota na década de 80.

“O Velloso é um grande amigo meu, competentíssimo, mas está com a memória muito ruim. Quem quebrou Brasil foi o Geisel. Quem quebrou o Brasil foi o Geisel”, afirmou Delfim à Folha no início de 2014.

Após deixar o governo em 1979, Velloso trabalhou na iniciativa privada e na academia – foi presidente do Ibmec –, além de coordenar o Fórum. Ao longo da vida, recusou diversos convites para lançar candidaturas políticas. Era casado com Isabel, com quem tinha dois filhos, além de um terceiro de seu matrimônio anterior.

O Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) soltou uma nota de pesar nesta terça-feira. Reis Velloso foi o segundo presidente do instituto. 

"O ministro Reis Velloso dedicou sua vida a pensar e a propor soluções para tornar o Brasil um país desenvolvido", afirmou, em nota, Ernesto Lozardo, presidente do Ipea. 

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