Trump não confirma encontro com China e decisão afeta mercados

Petrobras e Vale ajudaram a puxar Ibovespa para baixo; dólar soba para R$ 3,712

Anaïs Fernandes
São Paulo

A Bolsa brasileira emendou o segundo dia de queda nesta quinta-feira (7) na esteira de um cenário externo ruim com nova apreensão a respeito dos rumos da disputa comercial entre Estados Unidos e China.

O Ibovespa, índice que reúne as ações mais negociadas, recuou 0,24%, para 94.405,59 pontos —chegou a cair mais de 2% e tocou, na mínima, 93.507,18 pontos. 

O dólar comercial subiu 0,16%, para R$ 3,712. Na máxima do dia, foi a R$ 3,738.

"Internamente, não há nada tão desesperador. Os papéis sofrem hoje mais por causa do acompanhamento do mercado internacional", diz Ariovaldo dos Santos, gerente da mesa de renda variável da H.Commcor.

Na véspera, o Ibovespa já havia tombado quase 4%, conforme investidores realizaram lucros e remontaram posições prevendo que uma reforma da Previdência pode demorar mais do que o estimado inicialmente, sentimento que ainda não se dissipou, apontam analistas.

Nesta quinta, porém, o azedume maior do mercado veio de fora. O presidente americano, Donald Trump, confirmou que não pretende se reunir com o líder chinês Xi Jinping antes do prazo final de 1º de março estabelecido pelos dois países para fechar um acordo comercial.

Em dezembro, EUA e China anunciaram uma trégua temporária na guerra tarifária que vinha abalando o comércio internacional ao longo de 2018. 

Por 90 dias a partir de 1º de janeiro deste ano, Trump se comprometeu em não elevar as tarifas sobre importações chinesas dos atuais 10% para 25%, enquanto Xi se prontificou a comprar produtos agrícolas e industriais dos americanos para minimizar um alegado desequilíbrio comercial.

Mais cedo nesta quinta, no entanto, Larry Kudlow, conselheiro econômico da Casa Branca, já havia dito que Washington e Pequim estão separados por uma "distância considerável" em suas negociações comerciais e que "até agora nenhuma data foi definida, um lugar, nada". 

Questionado por um repórter se haveria uma reunião entre os presidentes antes do prazo, Trump disse: "Não."

Com isso, os maiores índices americanos fecharam em baixa superior a 1%. O Dow Jones, principal indicador de Nova York, recuou 1,22%.

Ainda no front externo, uma queda inesperada na produção industrial da Alemanha, maior economia da Europa, em dezembro endossou temores de desaceleração no continente. Os principais índices europeus fecharam no vermelho, e a Bolsa de Frankfurt caiu 2,67%.

PETROBRAS E VALE

Puxaram o Ibovespa para baixo também a Petrobras, que recuou mais de 1% afetada pela queda do petróleo no exterior, e a Vale (-2,05%), que ainda sofre com os desdobramentos da tragédia de Brumadinho.

"Vimos pressão em cima de papéis mais líquidos. Parece que ainda há uma certeza realização dos ganhos de janeiro. O mercado teve uma esticada muito rápida, é natural um retorno para depois pegar mais fôlego", diz Luis Gustavo Pereira, estrategista da Guide Investimentos.

Além disso, permanece a cautela dos investidores com os rumos da reforma da Previdência. 

"A Previdência está muito em cima da questão do 'timing'. Muita gente acreditava em uma passagem mais rápida e alguns desencontros dão margem para apreensão do mercado", acrescenta Pereira.

Investidores se mostram incomodado com o desencontro de informações entre políticos e membros da equipe econômica de Jair Bolsonaro, bem como desconfiado de que o governo esteja tentando emplacar projetos demais nesse início de legislatura. 

Em entrevista ao Jornal das 10, da GloboNews, na noite desta quarta-feira (7), o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), tratou de esclarecer que a Previdência é prioridade da Casa, em relação, por exemplo, ao pacote de combate ao crime sugerido por Sergio Moro

Ele afirmou que os dois projetos devem andar paralelamente na Câmara, mas disse que "se a gente antecipar esse debate [sobre a proposta de Moro], podemos contaminar o da Previdência".

Na manhã desta quinta, foi a vez de o ministro da Economia, Paulo Guedes, expoicar que a chamada carteira verde e amarela —modalidade de contrato que garantiria os direitos trabalhistas previstos na Constituição— virá depois da aprovação da Previdência.

O ministro explicou que a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) da Previdência trará um ajuste do atual sistema e indicará a futura implementação de um regime de capitalização, espécie de poupança na qual o trabalhador financia a própria aposentadoria. Esse modelo será vinculado à carteira verde e amarela.

Guedes sinalizou, no entanto, que a nova carteira será regulamentada apenas após a mudança na Previdência. A reforma, segundo ele, apenas indicará o caminho para a abertura desse novo modelo, que exigirá posterior regulamentação na legislação.

“Nós não vamos misturar isso e atrapalhar o trâmite [de Previdência], não. Ao contrário. A gente fala: estamos reformando isso daqui e lançando esta proposta para ser regulamentada”, afirmou.

Com Reuters

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