Disparada do dólar e da inflação na Argentina agrava cenário econômico

Em ano eleitoral, em que o ajuste se torna mais complicado, indicadores degringolam

Sylvia Colombo
Buenos Aires

A economia argentina iniciou o ano eleitoral de 2019 com o pé esquerdo. O dólar voltou a disparar, depois de meses de estabilidade. Fechou esta quinta-feira (14) cotado em 41,80 pesos. A inflação, por sua vez, que foi de 2,9% em janeiro, subiu para 3,8% em fevereiro. 

O diagnóstico é que o país encontra-se em um estado de "estagflação"

Projeções de economistas e consultorias privadas ouvidas pela Folha não são boas para o restante do ano, e a renitente piora da economia se traduz em deterioração no humor dos argentinos. 

Crescem os protestos e piquetes de trabalhadores e sindicatos, as queixas dos consumidores em supermercados e a indignação com o aumento das tarifas após a retirada gradual dos subsídios da era kirchnerista (2003-2015).

"Nunca imaginei que pagaríamos a conta de gás, que até pouco tempo era de um valor ridículo, em parcelas. E isso que não chegou o inverno, quando precisamos de muito mais, por causa do aquecimento em casa", diz Maritza Ojeda, 54, comerciante do bairro de Almagro. 

"No ano passado, já deixamos de ter calefação na casa toda, mantenho apenas no quarto da minha mãe, que é idosa e está doente."

O custo dos alimentos também assusta. Salvador Espinosa, 42, diz que nunca imaginou "gastar 10 mil pesos [cerca de US$ 250] numa compra de supermercado familiar".

A inflação, que fechou o ano passado em alta de 47,6%, tem sobre o cotidiano efeito parecido ao visto na Venezuela. É preciso carregar um montão bilhetes na carteira para fazer compras simples —até porque, muitos estabelecimentos, por causa da desvalorização do peso, não aceitam cartões de crédito, mas apenas débito ou pagamento à vista.

"Parece que foi outro dia em que, para pagar uma corrida de táxi com uma nota de 100 pesos, o taxista se irritava se não tínhamos trocado. Era um valor muito alto. Hoje não há corrida na cidade que não custe no mínimo isso", diz Espinosa.

Em 2018, o governo tomou medidas para melhorar ao menos a oferta de notas. Passou a imprimir cédulas de 200, 500 e 1.000 pesos, que não existiam no passado.

Na corrente das más notícias, ainda há 3.000 funcionários suspensos no setor automotivo —o que mais se relaciona com a economia brasileira e afeta o comércio bilateral— esperando a retomada da produção.

O ministro do Trabalho, Dante Sica, disse nesta quarta-feira (13) que o país vive "a maior queda de emprego na área industrial" desde o início da gestão Macri. 

Sica também defendeu uma reforma trabalhista, alegando que é "muito necessária, assim como assegurar a geração de mais empregos formais".

Uma tentativa do governo Macri, em 2018, de levantar um debate no Congresso sobre um projeto de lei de flexibilização da lei trabalhista recebeu forte resistência dos sindicatos e foi derrubado. Pelo menos até antes das eleições de outubro é difícil retomar a pauta. O trabalho informal, porém, já ronda os 35%.

Nos últimos dias, também saiu o novo índice de pobreza do país. O indicador bateu em 33,6%, apresentando alta de quase 5 pontos desde o início da gestão Macri. Segundo a Universidade Católica Argentina (UCA), que faz a medição mais séria sobre esse índice, 7,9% dos argentinos hoje fazem apenas uma refeição por dia, o que corresponde a 3,4 milhões de pessoas.

Do lado do governo, o discurso é de que "o pior já passou". Foi o que disse Macri na abertura das sessões do Congresso, há duas semanas, e repetiu em Washington, nesta semana. O ministro da Economia, Nicolás Dujovne, já se reuniu com a diretora do FMI (Fundo Monetário Internacional), Christine Lagarde, em busca da liberação de uma cota maior neste mês, de cerca de US$ 10 bilhões, justamente para conter o dólar.

A Argentina, desde o ano passado, conta com uma linha de crédito junto ao órgão de US$ 56 bilhões.

Apesar das más cifras da macroeconomia, o FMI segue apoiando a Argentina. Logo após a primeira reunião com Dujovne, Lagarde disse: "A implementação sólida e contínua do programa de reforma das autoridades será crucial para uma economia estável e um crescimento sustentável. Acreditamos que a Argentina está no caminho correto."

Por via das dúvidas, porém, uma equipe do FMI visitou o país há um mês e conversou com membros da oposição, como o ex-ministro da economia de Cristina Kirchner, Axel Kicillof, e o postulante à presidência pelos peronistas moderados, Juan Manuel Urtubey sobre a manutenção dos compromissos com o FMI caso Macri não se reeleja.

Para o economista Marcelo Elizondo, "o diagnóstico dos problemas realizado pelo governo é correto, o que está sendo difícil é executar medidas para combater a situação adversa, em especial a inflação, que se transformou num problema crônico, que gera mais pobreza e mina a confiança dos investidores estrangeiros", afirmou em entrevista à Folha.

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Produtos de limpeza em supermercado argentino - 14.jan.2049/AFP


"O fato de o país ter se endividado demais, com o FMI e com outros atores, mais a desvalorização do peso, são um conjunto de fatores que espanta os investimentos estrangeiros. E a Argentina ainda tem o problema do déficit de orçamento que não se completa sem injeção de dinheiro de fora", diz.

A retirada dos subsídios ao transporte, gás, eletricidade, por exemplo, é quase uma unanimidade para os economistas: "Era um sistema que não podia mais se sustentar", afirma Elizondo, "mas que no curto e médio prazo, gera mais inflação".

O fato de o Brasil ter retomado o crescimento, segundo o analista, é positivo para o país vizinho, mas ainda ajuda no dia-a-dia dos argentinos. "Macri e Jair Bolsonaro não parecem afinados. Houve essa visita ao Brasil, mas que não rendeu mais do que declarações vazias sobre tornar o Mercosul mais ágil, pouco se decidiu sobre reaquecer o comércio bilateral", diz Elizondo, sobre a queda de mais de 40% nas trocas dos últimos anos.

Já o economista Miguel Ángel Broda crê que o governo dificilmente chegará à meta do déficit zero neste ano, acordada com o FMI, e que isso estará vinculado ao período eleitoral. "Se em junho houver um diagnóstico de que Macri não tem condições de se reeleger, os pontos acordados para a linha de crédito podem não serão cumpridos, e o futuro governo pode herdar uma pesada dívida".

O analista norte-americano Benjamin Gedan, do Wilson Center, de Washington, diz que "houve um grande otimismo com a chegada de Macri ao poder, mas hoje infelizmente o clima é muito diferente: predomina uma preocupação e um temor de que as metas não serão cumpridas e uma nova crise pode tomar força", afirma Gedan.

O governo rejeita esse pessimismo. "O pior da recessão foi novembro de 2018, desde então estamos melhorando", disse Dujovne à imprensa local na quinta-feira (14).

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