Descrição de chapéu Previdência

Mourão chama reajuste do mínimo pela inflação e BPC de 'vacas sagradas'

'É preciso convencer a população que ela também tem obrigações e não apenas direitos', diz

Flavia Lima
São Paulo

Em um discurso que parece ter sido feito sob medida para uma plateia de empresários em São Paulo, o vice-presidente Hamilton Mourão criticou nesta terça-feira (26) o que chamou de "vacas sagradas", como os reajustes do salário mínimo acima da inflação e a idade de recebimento do BPC (benefício de progressão continuada), que hoje é dado aos idosos mais pobres com mais de 65 anos. 

"É hora de rever o contrato social estabelecido pela Constituição de 1988", disse em apresentação na Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo). 

"Nosso governo vai ter que enfrentar as medidas impopulares. Na instituição que servi durante 46 anos, a gente sempre dizia que o comandante não tem que ser aplaudido no pátio, o comandante tem que tomar decisões", afirmou ele.

Segundo Mourão, é preciso convencer a população que ela também tem obrigações e não apenas direitos, além de ter paciência e diálogo com o Congresso, que representa o povo. 

"Vai levar pedrada? Vai levar pedrada, faz parte da vida política. E todos sabem que minha experiência política é baixíssima, mas o bom senso tem que sobreviver nessas horas", disse.

Para Mourão, "o salário mínimo não é mínimo" e produz "uma contradição em que as classes mais favorecidas recebem mais do que as menos favorecidas." 

Mourão defendeu também a elevação da idade para receber o BPC e o aprofundamento da reforma trabalhista. 

Hoje, disse ele, uma pessoa para se aposentar por idade precisa ter 65 anos com 15 anos de contribuição— tendo direito a um salário mínimo. "Por que ele teria que contribuir se ele vai receber a mesma coisa sem contribuir? Não há mais como sustentar isso aí. É uma briga dificílima, mas temos que sustentar".

Mourão ainda atacou a vinculação do Orçamento dizendo que alguns políticos "pensam que estamos no século 19, nas masmorras da Londres industrial, e levam os direitos a um paradoxo, onde tudo tem que estar escrito na Constituição. Não tem almoço grátis", afirmou, atribuindo à vinculação a alta informalidade no mercado de trabalho e reforçando que a reforma trabalhista tem que ser levada adiante. 
 
Ao falar da reforma da Previdência, o vice-presidente disse que é preciso saber dialogar para vencer nessa área. Nada disse, no entanto, sobre a proposta dos militares, bastante criticada.

ENTREGA DA FAIXA EM 2023 

Mourão destacou os desencontros ocorridos no ministério da Educação e sugeriu um freio de arrumação. "Senhoras e senhores, podem perguntar, o que está acontecendo no ministério da Educação? Precisa de um freio de arrumação, faço a autocrítica perante todos", disse ele. 

Com relação à Venezuela, disse que algumas pessoas ainda acreditam que o muro de Berlim está de pé. 

"Nos preocupa que um conflito dos tempos da Guerra Fria esteja sendo atraído para o nosso subcontinente. Em nossa vizinhança, duas grandes potências estão brigando pela Venezuela e o Brasil precisa saber se posicionar corretamente sobre isso", disse . 

O vice-presidente encerrou a apresentação na Fiesp dizendo que a população elegeu Bolsonaro em resposta a um "cartel de ladrões" que havia tomada conta da poder e enfatizou que o presidente é um "estadista que não está pensando nas próximas eleições, mas nas próximas gerações."

"Quando terminarmos o nosso governo e entregarmos a faixa presidencial em primeiro de janeiro de 2023, gostaríamos muito que nossa população, em especial essa plateia que aqui está, estivesse vivendo sob liberdade de expressão, religião, de não sermos forçados a fazer o que não queremos e a liberdade de não termos medo", disse o vice-presidente, dando a entender que Bolsonaro não tentará a reeleição.

Disse ainda que Bolsonaro "não é nem nunca será ameaça à democracia. Ele tem firme compromisso com a Constituição e as instituições". Foi aplaudido de pé pelos empresários. 

 

Mourão esteve em São Paulo, onde participou em reunião na Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo). Ele fez questão de dizer que sua presença atendia orientação do presidente Bolsonaro e às tarefas que a ele tem sido confiadas. O vice-presidente deu uma declaração após a reunião, mas não abriu espaço para que os jornalistas presentes fizessem perguntas.

"Em relação a isso [à reforma], sei de todas as angustias, de todas as dúvidas, todas as questões que estão sendo suscitadas", afirmou. 

Em seguida, disse que o governo tem três vetores muito claros: "clareza em difundir aquilo que são as nossas propostas em torno do que é a nova Previdência; clareza em termos de convencer os nossos parlamentares e, mais do que eles, a população; a determinação de levar isso adiante e a paciência de negociar tudo o que tiver que ser negociado", disse Mourão. 

Ainda em São Paulo, Mourão vai participar de um jantar na casa do presidente da entidade, Paulo Skaf, com 30 grandes empresários.

Em Brasília, por causa da irritação com a ausência do ministro Guedes (Economia), a CCJ encerrou a audiência pública desta terça-feira sem que o secretário especial de Previdência e Trabalho do Ministério da Economia, Rogério Marinho, pudesse falar.

Após atritos com o Executivo, a Câmara pode votar uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional) para tirar poder do Executivo sobre o Orçamento. 

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