Big techs são risco aos bancos, diz presidente do Bradesco

Segundo Lazari, escalada de Amazon, Google e Apple preocupa setor financeiro

Tássia Kastner
São Paulo

O presidente do Bradesco, Octavio de Lazari, afirmou que inevitavelmente os spreads (a diferença de custo de captação e a taxa de juros cobrada do cliente) vão cair no país. E o remédio para o banco manter sua rentabilidade é ganhar escala, ou seja, emprestar mais.

Os juros altos estão entre as maiores críticas feitas contas os grandes bancos brasileiros.“A gente vai ter que aumentar escala para manter ou aumentar a rentabilidade”, afirmou Lazari em evento para investidores nesta terça-feira (26).

A rentabilidade dos grandes bancos brasileiros ronda a faixa de 20% sobre o patrimônio líquido, patamar considerado elevado na comparação com outras indústrias.

“Fees [tarifas] e taxas de juros vão cair, não tem como evitar. Mas o nome do jogo é escala, se não tiver escala não ganha jogo”, disse o executivo.

Lazari disse ainda que “não há jeito” dos bancos continuarem operando na estrutura antiga.“Mas esse banco vai continuar dando grana por um bom tempo, então tenho que cuidar bem do meu banco incumbente [líder de mercado]”, afirmou.

Presidente do Bradesco, Octavio de Lazari
Presidente do Bradesco, Octavio de Lazari - Paulo Whitaker/Reuters

​O executivo afirmou ainda que o banco tem dinheiro em caixa e que ele deve ser utilizado para oferta de crédito e expansão do banco, e não para pagamento de dividendos a acionistas.

Lazari disse ainda que os bancos ganharão eficiência com o cadastro positivo, que ainda aguarda sanção presidencial, mas que ele tem regras consideradas ruins. A principal crítica é a responsabilidade solidária entre bancos, birôs de créditos e outros elos da cadeia.

“O cadastro positivo não saiu como a gente queria, a responsabilidade solidária é um negócio que não faz sentido nenhum e pode ser um problema para que possa operar em 100% de eficiência”, disse Lazari.

A maior parte das perguntas de investidores se relacionou a competição no mercado com novatos. Para Lazari, porém, o maior desafio para o setor bancário não vem das fintechs (empresas inovadoras do setor financeiro), mas das grandes empresas de tecnologia, conhecidas como big techs.

Nesse universo, estão Apple, Amazon e Google, por exemplo.

Ele citou o exemplo do GuiaBolso: a fintech de organização financeira, com autorização dos clientes, acessa a cada dois minutos os sistemas do banco para atualizar o saldo bancário dos clientes no aplicativo.

“O GuiaBolso tem hoje 500 mil clientes. Imagina se a Amazon, com os clientes dela, decidisse a cada dois minutos bater no banco para consolidar o extrato do cliente? Esse é o grande risco que a gente corre”, afirma.

Na China, os maiores concorrentes do setor bancário são empresas de tecnologia, como o WeChat (concorrente do WhatsApp) e o Alipay (do gigante Alibaba).

O Bradesco afirmou que o banco digital Next, hoje com cerca de 700 mil clientes, deverá chegar em breve a 1 milhão.

“A nossa expectativa é que a partir do segundo semestre o Next não dependa em nada do Bradesco, nem para resultado”, afirmou o presidente do Bradesco.

Para ele, a maior preocupação do Bradesco não é, porém, com a rentabilidade da operação e nem com a cobrança de tarifas, mas garantir que esses novos clientes, que não estariam no Bradesco, se tornem clientes a partir do Next.

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