Descrição de chapéu Tragédia em Brumadinho

Vale cai 3%, mas se recupera e fecha estável nos EUA após afastamento de presidente

Recibos de ações acumulam desvalorização de 4,8% desde 24 de janeiro

Danielle Brant
Nova York

Após abrirem em queda de 3%, as ADRs (recibo de depósito de ações) da Vale fecharam praticamente estáveis nesta segunda-feira (4) na Bolsa de Nova York, com investidores reagindo à notícia da troca de comando na mineradora anunciada durante o fim de semana.

As ADRs da mineradora fecharam com leve alta de 0,24%, a US$ 12,42. Na mínima, atingiram US$ 11,925 (-3,75%).

A queda dos papéis no início do pregão refletiu a notícia divulgada no sábado (2) de que o diretor-presidente da Vale, Fabio Schvartsman, e mais três diretores se afastaram do comando da mineradora, acatando sugestão do Ministério Público Federal, Ministério Público de Minas Gerais e da Polícia Federal.
 

Schvartsman será substituído por Eduardo Bartolomeo, que atuará como diretor-presidente interino da mineradora. Para acalmar os investidores, a mineradora fez um esforço para destacar a experiência do executivo, nomeado pelo conselho de administração.

Com dez anos de Vale, Bartolomeo já foi diretor-executivo de logística, operações integradas de commodities (minério de ferro, carvão e manganês) e, mais recentemente, diretor-executivo de metais básicos. Trabalhou na Ambev entre 1994 e 2003, tendo exercido funções executivas.

A recomendação de afastar os profissionais da Vale foi tomada pelo Ministério Público Federal, Ministério Público de Minas Gerais e pela Polícia Federal durante as investigações sobre o rompimento de uma barragem da Vale em Brumadinho, no dia 25 de janeiro. Até agora, a tragédia deixou 186 mortos e 122 desaparecidos.

Desde então, as ações da mineradora acumulam queda de 16,4% na Bolsa brasileira, enquanto as ADRs têm desvalorização de 4,8% no mesmo período. O banco J.P. Morgan estima que a empresa tenha perdido US$ 15 bilhões de valor de mercado nesse intervalo.
 

Na mensagem em que comunica a substituição, a empresa afirmou que o conselho de administração “permanece em prontidão, na busca de um relacionamento transparente e produtivo com as autoridades brasileiras visando o esclarecimento dos fatos, a reparação apropriada dos danos e a integridade da empresa e que manterá a sociedade e os mercados informados sobre qualquer fato novo".

Já Schvartsman, na carta em que comunica seu afastamento, disse que decidiu pedir a saída temporária da função de diretor-presidente “com a absoluta convicção da retidão” e “do dever cumprido até aqui” em favor da continuidade das operações da companhia e “do apoio às vítimas e a suas famílias”.

Em relatório, Rodolfo Angele, analista do J.P. Morgan, afirma que, embora o anúncio acrescente riscos à empresa, a Vale continua com uma sólida base de ativos.

“Enquanto os recentes acontecimentos acrescentam incertezas no caso de investimento da Vale, em nossa visão, a companhia se mantém um nome de baixa alavancagem com uma base de ativos de qualidade. A tragédia de Brumadinho deve resultar em maior fiscalização do governo à frente e possíveis mudanças regulatórias. No entanto, nós acreditamos que a indústria vai sobreviver.”
 

Analistas ouvidos pela agência Reuters afirmaram que a saída não surpreende, apesar de gerar volatilidade nas ações da companhia. Também disseram acreditar que a Vale poderá encontrar substitutos competentes para o posto. 

Para o gestor Henrique Bredda, da Alaska Asset Management, a saída de Schvartsman era uma possibilidade, dado o tamanho e impacto da tragédia em Minas Gerais. 

Ele ressaltou, contudo, que, na hipótese de o afastamento ser definitivo, a companhia e os acionistas têm condições de substituir os executivos à altura.

"O próprio Eduardo Bartolomeo, que está como interino, tem condições de ser o efetivo", afirmou.

Para analistas do Credit Suisse liderados por Caio Ribeiro, a notícia também não é uma grande surpresa, mas isso não significa que as ações não sofram pressão, uma vez que Schvartsman era visto de forma muito positiva pelo mercado.

"Ele foi considerado uma figura instrumental por trás da transição de governança corporativa da Vale para o Novo Mercado, estratégia de desinvestimento e desalavancagem, foco de corte de custos, disciplina de investimento e discurso de 'valor acima de volume' que gerou externalidades positivas nos mercados de minério de ferro", disseram em nota a clientes.

Segundo a Jefferies, os ADRs da Vale são muito arriscados para compra, mesmo considerando o valor baixo e a performance significativamente fraca desde o colapso da barragem.
 

Com Reuters

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