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Desconto em compra à vista precisa crescer para empatar juro do crediário

Nova linha de crédito dos cartões tem taxas tão baratas quanto as cobradas em linhas com garantia, mas pode encarecer compras

Tássia Kastner
São Paulo

Os descontos oferecidos em compras à vista precisam ser maiores do que os 5% praticados atualmente no comércio online para estimular a adoção do crediário do cartão, a nova linha de crédito lançada pelos grandes bancos na semana passada.

Com o crediário do cartão de crédito, ao invés de o cliente pedir ao lojista para pagar em prestações, quitará a compra à vista no cartão e poderá, na tela da maquininha, contratar o parcelamento, mas com juros.

Segundo os bancos, isso pode estimular o vendedor a oferecer descontos, porque ele receberá a venda em até cinco dias e deixará de ter custos com antecipação de recebíveis, quando antecipa parcelas das vendas a prazo.

O crediário do cartão de crédito era a única de 21 medidas defendidas pelo setor para reduzir os juros 
cobrados
dos consumidores.

A Abecs (associação da indústria de cartões) defende ainda que o crediário ajudaria lojistas que hoje não conseguem parcelar compras, porque não têm capital de giro.

Justamente por isso, o produto começa pelos lojistas menores; só no segundo semestre deve chegar a grandes varejistas, e ainda não há previsão de adoção no comércio online. 

O percentual de desconto oferecido no e-commerce para pagamentos à vista serve, porém, como uma régua para o cálculo da atratividade do novo crédito.

No final de 2016, uma medida provisória liberou a diferenciação de preços conforme o tipo de pagamento: 
dinheiro, cheque, cartão de débito ou crédito, por exemplo.

No entanto, a prática não pegou. Para Boanerges Ramos Freire, presidente da consultoria Boanerges&Cia, o motivo é a dificuldade de anunciar uma promoção com preços distintos.

Mesmo nos casos em que o parcelamento com juros possa sair mais barato, como em prazos mais curtos de pagamento, há ainda o desafio de criar a cultura de vendas a prazo com juros.

“A gente coloca na rua um produto que tem um concorrente desleal, o parcelado sem juros. Se a gente não tiver proatividade, talvez demore mais para a adoção”, afirma Rogério Panca, diretor de Meios de Pagamento do Banco do Brasil.

Para isso, os bancos estão iniciando a linha com juros a partir de 0,99%, caso do Itaú e do Bradesco. 

O custo é mais baixo do que a taxa média praticada em créditos com garantia, como o consignado (com desconto em folha de pagamento) e o financiamento de veículos.

“Quando amplia a quantidade de pessoas que adotam produto que tem juros, isso permite que o mercado cobre taxas menores”, afirma Marcelo Kopel, diretor do Itaú Unibanco.

Simulações feitas pela Folha mostram que, para o parcelamento em 10 vezes, o desconto de 5% faria o produto parcelado a juro de 0,99% custar praticamente o mesmo caso o cliente tivesse pago o valor em “10 vezes sem juros” no parcelamento da loja.

Em prazos menores, nessa taxa, o desconto pode ser vantajoso. Taxas maiores, que devem ser mais frequentes, tiram a competitividade do produto (veja quadro).

Panca, do Banco do Brasil, afirma ainda que as taxas podem se manter relativamente baratas porque se somam a outras receitas que os bancos já geram com o cartão de crédito. 

São elas a anuidade, os juros de parcelamento de fatura e rotativo e ainda a taxa de intercâmbio, o percentual que o banco recebe a cada vez que o cartão é utilizado.

“O crediário pode ser porta de entrada para aumentar faturamento e uso do cartão”, afirma Panca.

Há também uma segunda dificuldade, mas que os bancos ainda não consideram preocupante: o comprometimento do limite do cartão. 

Quando o consumidor fizer uma compra mais cara, poderá congelar uma fatia grande do total que o banco permitiu que gastasse no cartão. E com prestações baixas em um prazo longo, o limite demora a ficar disponível novamente.

O Bradesco afirmou que a prestação mínima do crediário será de R$ 10 e o valor mínimo da compra a ser financiada, R$ 200. Os demais bancos não detalharam as condições.

Kopel diz que o banco deve acompanhar o uso e a capacidade de pagamento da fatura em dia para elevar o limite de crédito e evitar que o cartão “vá para a gaveta porque estourou”. Isso, segundo ele, independe do novo crediário. 

“Nossa maior preocupação é não gerar superendividamento”, afirma o executivo do Itaú.

No Banco do Brasil, os limites de crédito para compras recorrentes e no crediário são diferentes, mas podem ser deslocados rapidamente.

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