Ford faz 100 anos no Brasil em processo de reconstrução

Primeira grande fabricante de veículos no país, montadora revê linha de produtos e define venda da fábrica de São Bernardo

São Paulo

Há cem anos, a Ford chegava oficialmente ao Brasil. Foi a primeira grande fabricante de veículos a se instalar no país, que vivia a pré-história do automóvel.

O termo montadora vem daí: os veículos vinham aos pedaços dos EUA, cabia aos operários encaixar as peças.

A autorização para o início das operações no centro de São Paulo foi dada no dia 24 de abril de 1919. Os US$ 25 mil disponibilizados vieram da Argentina, primeiro país sul-americano a receber instalações da empresa.

Apesar da data histórica, não haverá celebração agora.

A Ford é discreta no momento em que acerta a venda de sua fábrica em São Bernardo do Campo (Grande São Paulo), modifica a linha de produtos e ajusta a parceria global com a Volkswagen. O momento é de reinvenção.

O ano do centenário marca o fim da produção de caminhões da empresa no Brasil e o adeus dos modelos Fiesta e Focus. A fabricante muda com a meta de se tornar mais rentável, preservar seus campeões de venda –Ka e EcoSport– e investir no segmento de utilitários esportivos.

"Vamos ter surpresas até o fim do ano, não pensamos em outra coisa a não ser trabalhar o portfólio", diz Rogelio Golfarb, vice-presidente da Ford América do Sul.

 

As novidades se concentrarão no setor de utilitários esportivos, zona de conforto para a montadora. A marca criou o segmento de jipinhos urbanos com o EcoSport, em 2003, carro que já tem seu lugar garantido na história do automóvel nacional.

O primeiro sucesso no país também foi um modelo de porte compacto, o Ford Modelo T. Graças a ele, a empresa passou dos 12 funcionários de 1919 para cerca de 130 em 1924, ano em que foram feitos 5.000 veículos entre carros, caminhões e tratores.

O interesse pelo automóvel crescia no Brasil e, entre 1925 e 1927, a Ford inaugurou linhas de montagem em Recife, Porto Alegre e Rio. O Modelo A, mais conhecido como Fordinho, surgiu na época e logo virou o mais vendido do país.

Os negócios foram bem até 1929, quando a quebra da Bolsa de Nova York e a crise no Brasil à beira da Revolução de 1930 mudaram o cenário.

Nos anos seguintes, foram fechadas as linhas de montagem fora de São Paulo.

As dificuldades no Brasil e no exterior fizeram a marca pensar em nacionalizar componentes. Os planos ganharam corpo durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A produção ficou parada em grande parte desse período, por queda na demanda e falta de peças.

Com o fim do conflito, o mercado brasileiro começa a receber os carros compactos que fazem parte da reconstrução da Europa. Um desses modelos é o inglês Ford Prefect, que chega por volta de 1947.

Em 1953, a montadora se muda para o bairro do Ipiranga (zona sul de São Paulo). Dois anos depois, começa o processo de nacionalização, com cabines de picapes e caminhões feitas com aço de Volta Redonda (RJ).

O cenário melhora em 1956, quando é criado o Geia (Grupo Executivo da Indústria Automobilística).

Os incentivos à produção local definidos no governo de Juscelino Kubitschek (1956-1960) impulsionam a indústria e, em 1957, a Ford lança seu primeiro veículo considerado nacional, o caminhão F-600. De acordo com a empresa, 40% de seus componentes eram feitos no país.

A notoriedade da marca se consolidou dez anos depois, com o lançamento de seu primeiro carro produzido no Brasil, o sedã grande Galaxie 500. O modelo transformou a Ford em referência de luxo.

Aquele 1967 teve outro marco: a montadora adquiriu o controle da Willys-Overland do Brasil e assumiu as fábricas de São Bernardo do Campo (Grande São Paulo) e de Taubaté (interior de São Paulo).

Os carros em desenvolvimento pela Willys vieram junto: em 1969, chegava às lojas o Ford Corcel, desenvolvido em parceria com a Renault.

Essa configuração de empresa perdurou nos anos seguintes. A grande mudança ocorreu em 1987, com o estabelecimento da Autolatina, parceria regional com a alemã Volkswagen. Foi uma década ruim para a montadora americana, que perdeu mercado e teve de se reerguer com o lançamento do primeiro Fiesta nacional, em 1996.

É esse mesmo Fiesta que, duas gerações depois, se despede junto com a fábrica de São Bernardo do Campo. A linha de produção interessa ao grupo Caoa, mas as negociações, intermediadas pelo governo de São Paulo, ainda não foram concluídas.

Hoje, a joia da Ford no país é a fábrica de Camaçari (BA), que começou a produzir em 2002. É de lá que sairão as séries especiais que celebrarão o aniversário de cem anos, mas a marca ainda não divulga como serão esses carros.

Enquanto não ocorrer a conclusão da venda da unidade de São Bernardo, a Ford permanecerá quieta no ano de seu centenário no Brasil.

Nacionalização começou nos anos 1950

 

1919 A diretoria da Ford Motor Company aprova a criação da filial brasileira, no início com 12 funcionários, na rua Florêncio de Abreu, centro de São Paulo. O Modelo T e o caminhão TT são montados com peças importadas dos EUA

1920 Um antigo rinque de patinação na praça da República, no centro de São Paulo, se torna a nova sede da Ford no Brasil

1921 Sede da Ford se muda para um prédio próprio no bairro do Bom Retiro, região central de São Paulo, onde é construída a nova linha de montagem

1923 Com 124 funcionários, a Ford atinge a capacidade anual de produção de 4.700 carros e 360 tratores

1925 Ford inaugura uma linha de montagem no Recife (PE)

1926 Modelos da marca americana começam a ser montados em Porto Alegre (RS)

1927 Ford inaugura um centro de treinamento para mecânicos em São Paulo e uma linha de produção no Rio

1942 Montagem nacional é interrompida devido à Segunda Guerra Mundial, e a Ford inicia os planos para nacionalizar componentes

1953 É inaugurada a nova fábrica da Ford no Brasil, no bairro do Ipiranga (zona sul de São Paulo)

1955 Ford passa a produzir cabines de picapes e caminhões feitas com aço de Volta Redonda (RJ)

1956 Com o programa de desenvolvimento da indústria estabelecido no governo de Juscelino Kubitschek (1902-1976), a Ford se concentra na nacionalização de seus produtos

1967 Montadora adquire o controle acionário de Willys-Overland do Brasil e assume as fábricas de São Bernardo do Campo (Grande São Paulo) e de Taubaté (interior de São Paulo)

1976 Ford inaugura sua nova fábrica de tratores, em São Bernardo do Campo

1977 É aberto o campo de provas de Tatuí (interior de São Paulo)

1979 Montadora confirma a produção de veículos movidos a álcool

1987 Surge a Autolatina, parceria regional entre Ford e Volkswagen

1989 O motor 1.8 da VW passa a equipar as linhas Escort e Del Rey

1996 Fábrica de motores e transmissões de Taubaté é reinaugurada

2001 Ford inicia as operações em sua nova fábrica, na cidade de Camaçari (BA). A unidade tem capacidade para produzir 250 mil veículos por ano
 

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