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Plano da Renault para fusão com Nissan renova tensões

Montadora francesa solicitou que um banco apresentasse à Nissan plano de uma holding com as duas parceiras

Sean McLain Nick Kostov
Nova York | The Wall Street Journal

A Renault quer propor uma fusão com a Nissan, colocando oficialmente na mesa de negociações um plano que enraiveceu a parceira japonesa, inflamou tensões internacionais e contribuiu para as ações contra Carlos Ghosn.

A montadora francesa solicitou recentemente que executivos de um banco que a assessora apresentassem à Nissan um plano para a criação de uma holding que combinaria as duas parceiras, de acordo com pessoas informadas sobre o assunto. A nova companhia seria dividida em base mais ou menos igualitária entre os acionistas da Nissan e os acionistas da Renault, e o conselho também seria formado em base igualitária, dizem as fontes.

Montadora francesa solicitou que um banco apresentasse à Nissan plano de uma holding com as duas parceiras
Montadora francesa solicitou que um banco apresentasse à Nissan plano de uma holding com as duas parceiras - Christian Hartmann/Reuters

É a retomada, em forma nova, de uma ideia discutida no ano passado, quando Ghosn ainda era presidente dos conselhos de ambas as montadoras. Na época, a ideia causou reação negativa de um grupo de executivos da Nissan, que contatou sigilosamente a procuradoria de justiça japonesa com acusações sobre delitos financeiros por parte do veterano líder da Renault e Nissan.

A troca de farpas entre as duas montadoras de automóveis nas últimas semanas mostra que a fusão continua a ser um assunto incendiário na Nissan; os executivos da companhia consideram a ideia completamente inviável. Pessoas informadas sobre as interações dizem que Hiroto Saikawa, o presidente-executivo da Nissan, ainda não ouviu detalhes sobre a proposta, da parte do banco que a Renault contratou em Tóquio.

Mas a montadora francesa está levando adiante o seu plano, e acredita que o desempenho fraco da Nissan, recentemente, torna mais urgente uma reformulação na aliança, de acordo com pessoas informadas sobre a posição da montadora francesa.

"A Renault gostaria de propor uma holding como solução para a situação insalubre da Nissan", disse uma das pessoas. "Está claro que a aliança não vem funcionando propriamente".

A Nissan é uma empresa muito maior, por margem considerável, mas sua participação de 15% na Renault é apequenada pelos 43,4% de ações que a montadora francesa detém no grupo japonês. Além disso, a Renault tem direito a voto nas assembleias de acionistas da Nissan, mas o contrário não procede. O desequilíbrio na estrutura acionária vem sendo uma queixa frequente da parte dos executivos da Nissan.

Um conjunto de arranjos –alguns dos quais adotados como parte de um acordo de aliança tão sigiloso que apenas um punhado dos principais executivos das duas empresas o leram– impede que um parceiro tome o controle do outro. A Nissan prometeu que não elevaria sua participação na Renault desde que esta não interferisse com a gestão da companhia japonesa.

A mais recente ideia da Renault quanto à fusão ameaça desordenar esse balanço delicado, embora possa servir como prelúdio a negociações mais amplas que impediriam uma crise maior. A expectativa da Renault é que sua proposta sirva como ponto de partida, disseram pessoas envolvidas, e muitos detalhes, entre os quais o papel da terceira parceira da aliança, a Mitsubishi Motors, ainda não foram decididos.

O orgulho nacional também está em jogo. Executivos da Nissan veem sua empresa como tecnicamente superior à parceira, e acreditam não haver razão para que um pilar da indústria japonesa responda a Paris. Enquanto isso, o governo francês detém 15% das ações da Renault e deseja que a maior montadora do país prospere.

Ghosn serviu durante anos como traço de união da aliança. Sua prisão em 19 de novembro desgastou o relacionamento entre as companhias, e ele perdeu todos os seus postos executivos em ambas. Jean-Dominique Senard, novo presidente do conselho da Renault, "quer tomar medidas drásticas para mudar a atmosfera, a fim de criar uma estrutura balanceada, justa e 50/50", disse uma pessoa informada sobre as posições da Renault.

Clotilde Delbos, vice-presidente de finanças da Renault, declarou na sexta-feira (19) que as duas empresas estavam sincronizadas. "O que desejamos é que a aliança seja irreversível, e é isso que estamos buscando em companhia da Nissan", disse ela.

Do lado da Nissan, porém, a desconfiança se aprofundou nas semanas transcorridas desde que se tornou claro que Senard não permitiria que as coisas continuassem iguais, dizem pessoas informadas sobre a posição da Nissan.

Senard abordou inicialmente com Saikawa a proposta de uma fusão em uma reunião do conselho da aliança Renault-Nissan em Paris, em 12 de abril, dizem pessoas informadas sobre a conversa.

O líder da Renault pediu a Saikawa que ele contatasse o banco de investimento japonês SMBC Nikko Securities, que a Renault contratou para explicar a proposta à Nissan. Saikawa deixou a reunião do conselho para um breve telefonema ao SMBC Nikko, mas não foi informado plenamente sobre o plano, disseram as fontes.

Alguns dias mais tarde, o banco de investimento enviou um email a Saikawa e seu principal subordinado no Japão, sugerindo uma reunião em Tóquio para uma explicação mais completa. Os dois lados ainda não marcaram a reunião para revisar a proposta da Renault, e ela agora terá de ser adiada pelo menos até o dia 7 de maio, quando o Japão retorna de uma parada de 10 dias para a coroação de um novo imperador.

O comando da Nissan se oporá fortemente a qualquer fusão com a Renault, disse uma pessoa informada sobre a proposta, afirmando que a empresa precisa em lugar disso se concentrar em resolver seus problemas de desempenho.

As tensões vêm fervilhando desde a prisão de Ghosn, quando a Nissan tentou interrogar empregados da Renault durante sua investigação de supostos delitos financeiros por parte de Ghosn. Posteriormente, Ghosn foi indiciado pelas autoridades de Tóquio por acusações que incluem desvio de dinheiro da Nissan para ganho pessoal. Ele se declara inocente e voltou a ser libertado sob fiança na quinta-feira.

Embora executivos da Nissan aceitem que uma fusão poderia levar a alta das ações da empresa em curto prazo, eles temem que os fatores negativos - entre os quais o risco de que empregados capacitados da montadora se demitam - superem os positivos, em médio prazo, de acordo com uma pessoa informada sobre suas posições.

Os executivos da Nissan também consideram a retomada da ideia de uma fusão como traição, já que Senard declarou publicamente, na sede da Nissan em março, que era cedo demais para falar sobre a estrutura futura da aliança. "Parece que há algo acontecendo na superfície e coisa muito diferente por baixo", disse uma pessoa informada sobre o clima entre os executivos da Nissan.

Os executivos do SMBC Nikko também informaram a um funcionário importante do Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão sobre a proposta da Renault, dizem pessoas informadas sobre o encontro. "A reação dele não foi neutra", disse uma dessas pessoas. O ministério anteriormente havia buscado garantir que a Nissan continuasse independente da Renault, de acordo com emails vistos pelo The Wall Street Journal. Um funcionário da divisão automobilística do ministério disse que não havia ninguém disponível para comentar.

A aceleração no declínio do desempenho de negócios da Nissan, recentemente, levou Senard a agir mais rápido, disseram pessoas informadas sobre seu raciocínio. No começo da semana, a Nissan divulgou seu segundo alerta quanto a queda de resultados este ano, cortando sua projeção de lucro em cerca de 30%. "Senard sente que o problema é urgente", disse uma das fontes. "Ele sabia que as coisas iam mal, mas não achava que tanto assim".

Em entrevista concedida na prisão a dois veículos noticiosos franceses, em janeiro, Ghosn disse ter discutido com Saikawa, o presidente-executivo da Nissan, os planos para uma estrutura de holding, em diversos momentos de 2018, e que o informou de que a autonomia da Nissan seria respeitada. Mas, disse Ghosn, "houve resistência desde o começo".
 
The Wall Street Journal, tradução de Paulo Migliacci

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