Populismo e nacionalismo ameaçam independência de bancos centrais, diz The Economist

Autonomia foi importante para conter inflação; Brasil enviou projeto na quinta-feira

São Paulo

Populismo, nacionalismo e forças econômicas ameaçam um primado de 25 anos de importantes bancos centrais independentes pelo mundo que ajudaram a combater "a praga da inflação global", alertou a revista britânica The Economist em sua mais recente edição.

Na década de 1970, diz a publicação, era normal que políticos manipulassem as taxas de juros para aumentarem sua popularidade, resultando em processos inflacionários. Aos poucos, porém, países começaram a adotar um sistema em que governos estabelecem metas amplas (preços estáveis) e deixam os bancos centrais livres para realizá-las. 

"Em uma única geração, bilhões de pessoas em todo o mundo se acostumaram à inflação baixa e estável e à ideia de que as taxas de juros sobre seus depósitos bancários e hipotecas estão sob controle", escreveu a revista. Hoje, porém, a publicação vê risco de que a política monetária se torne de fato política novamente.

 

Na zona do euro, no Japão e no Reino Unido, os bancos centrais se tornaram legalmente independentes nos anos 1990, diz a The Economist. No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro encaminhou na quinta-feira (11) um projeto para o Congresso sobre a independência do Banco Central. 

Nos Estados Unidos, a Casa Branca absteve-se de discutir publicamente a política do Federal Reserve (o BC dos EUA), decisão que sobreviveu ao crash de 2007-2008 e, segundo a revista, é uma das razões pelas quais a inflação global foi de apenas 4% ao ano, em média, nas últimas duas décadas.

Mas a ascensão do populismo pelo mundo ameaça a independência dos bancos centrais, e a The Economist cita como exemplo exatamente os ataques do presidente americano Donald Trump à atual gestão no Fed, Segundo a revista, Trump já exigiu cortes nas taxas de juros, especula demitir o chefe do Fed e disse que indicará Stephen Moore e Herman Cain, "dois companheiros não qualificados", para seu conselho.

"Líderes como Trump combinam o desejo do político por baixas taxas de juros com uma vontade imprudente de minar as instituições", escreveu a publicação. 

No continente europeu, prossegue a revista, os favoráveis ao 'brexit' (saída do Reino Unido da União Europeia) "esquecem a competência e os motivos do Banco da Inglaterra". E muitos dos principais cargos no BCE (Banco Central Europeu), incluindo a presidência, estarão vagos e podem se tornar parte de uma luta política mais ampla sobre quem administra as instituições europeias.  

​"Os europeus do norte têm suspeitado do programa de compra de títulos do BCE, vendo-o como uma cobertura para subsidiar o sul da Europa. Em vez de vencer pela força do argumento, eles estão buscando vantagem ao colocar seu próprio pessoal nos cargos mais altos. Isso gerará problemas."

Em emergentes, o presidente da Turquia Recep Tayyip Erdogan está envolvido em um cabo-de-guerra com o banco central. Já o governo da Índia substituiu um chefe de banco central que a revista considerou competente por um "insider que reduziu as taxas antes de uma eleição". 

"Há uma necessidade genuína de reflexão sobre os objetivos e ferramentas dos bancos centrais. Mas forças perigosas estão em andamento que podem ter consequências alarmantes para a estabilidade econômica."

Outro entrave para a independência dos bancos centrais, segundo a revista, seria o escopo de suas atividades, que se expandiram após a crise financeira. Além de policiar o sistema financeiro dos países, essas instituições também passaram a abrigar enormes carteiras de títulos de governos. 

HORIZONTE

Se a inflação global subir, a The Economist diz que bancos centrais mais fracos podem ter dificuldade para eliminá-la. Mais provável, no entanto, é que haja uma desaceleração econômica global —o FMI (Fundo Monetário Internacional) acaba de reduzir suas projeções para 2019— e os bancos centrais podem se ver pressionados a estimular suas economias. 

"É isso que torna a politização de hoje tão perigosa. Os tecnocratas enfrentam um desafio difícil."

O mundo rico, diz a revista, dificilmente tem espaço para cortar taxas de juros antes de chegar a zero, de modo que os bancos centrais terão de recorrer mais uma vez a estímulos não convencionais, como a compra de títulos.

O Fed e outros bancos centrais precisariam cooperar globalmente, como na esteira da última crise. E o BCE teria de convencer os mercados de que fará o que for preciso para conter outro pânico financeiro na periferia da Europa.

"A presença de nomeados políticos, que são ou mal qualificados ou falcões do norte da Europa, tornaria todas essas tarefas mais difíceis. Não é apenas que seus votos contam, mas também que envenenariam o debate público sobre o que os bancos centrais deveriam e não deveriam fazer para lidar com as recessões."

A revista observa que os objetivos e ferramentas da política monetária estão sujeitos ao escrutínio democrático e que os banqueiros centrais também são responsáveis ​​perante as legislaturas. 

"O Fed está revendo sua meta para estar preparado para uma desaceleração. Outros bancos centrais devem seguir o exemplo. No longo prazo, isso garante sua legitimidade e, consequentemente, sua independência."

No entanto, diz que, no ambiente político de hoje, seria ingênuo pensar que os políticos realmente querem um debate ponderado.

"Em vez disso, quanto mais os bancos centrais estão no centro das atenções, mais eles encontrarão suas tomadas de decisões mensais sujeitas a pressões externas, ou se encontrarão à mercê de pranchetas cheias de hacks. É justamente esse tipo de politização que os teóricos por trás dos bancos centrais independentes queriam evitar. Olhe para trás 40 anos e você terá um sabor do que poderia dar errado."

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