Resistência de editoras ainda ameaça plano de recuperação da Abril

Após acordo com os bancos credores, impasse com editoras de revistas como Globo, Três e Ediouro é maior obstáculo

Nelson de Sá
São Paulo

O Grupo Abril realiza no dia 28 de maio a primeira assembleia de credores para votação de seu plano de recuperação judicial, com os ajustes que estão sendo feitos desde que foi protocolado, em novembro do ano passado.

Em relação ao plano original, entrarão acordos fechados nos últimos meses, como a compra com desconto de 92% da dívida bancária, junto a Bradesco, Itaú e Santander, pela Enforce, empresa do BTG Pactual.

O banco de investimentos de André Esteves apoia a aquisição do grupo pelo empresário carioca Fabio Carvalho, anunciada em dezembro do ano passado por simbólicos R$ 100 mil.

Fachada do antigo prédio da editora Abril na marginal Tietê - Mastrangelo Reino / Folhapress

Os três bancos respondiam por R$ 1,1 bilhão do total de R$ 1,6 bilhão devidos pelo Grupo Abril, passivo que levou ao pedido de recuperação judicial, em agosto.

Para aprovar o plano na assembleia, serão necessários 50% mais um dos votos, tanto por volume de dívida, o que teria sido garantido com a transferência para a Enforce, quanto por número de credores.

A maior ameaça à aprovação vem agora da dívida da unidade de distribuição do grupo, Dinap (Distribuidora Nacional de Publicações), com editoras como Globo, Três e Ediouro.

Virtual monopólio, a Dinap não repassou dinheiro das bancas às editoras, que poderiam barrar o plano na assembleia.

A Dinap é tratada, pelos profissionais que preparam a transferência da Abril para o novo proprietário, como buraco negro, com modelo de negócios inviável e sem atrativos para algum eventual comprador. Não foi possível confirmar se há negociações entre a Abril e as editoras concorrentes.

Por outro lado, o plano de recuperação judicial deverá trazer uma nova configuração do Grupo Abril, com UPIs (Unidades Produtivas Isoladas) que poderão então ser vendidas em leilão judicial.

A expectativa é que a Exame seja uma das UPIs, para posterior aquisição pelo próprio BTG. Segundo o jornal Valor Econômico, Esteves e Carvalho têm um acordo para transferência do controle da revista.

Já em dezembro, quando do anúncio da compra, Carvalho mencionou o “interesse do BTG por fluxos de visitantes digitais focados em investimento” por meio do site da Exame. O modelo é o mesmo do site Infomoney, da XP Investimentos, concorrente direta do BTG.

A Exame se integraria à plataforma digital de aplicações financeiras do BTG Pactual, que precisa de conteúdo na disputa com a XP Investimentos por visitantes-investidores e até agentes autônomos,
“home brokers”.

Sites semelhantes, como iq360 e o anunciado C6, se tornaram prioritários para a expansão digital do setor. 

O texto foi atualizado para registrar a mudança na data da assembleia, de 17/4 para 28/5

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