1º trimestre termina mal e 2º não começa bem, diz economista

Para Silvia Matos, país precisa de um choque de confiança

Nicola Pamplona
Rio de Janeiro

Na opinião da economista Silvia Matos, do Ibre/FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), o Brasil precisa de um choque de confiança para garantir a retomada do investimento e do consumo interno, uma vez que a demanda externa não é mais capaz de segurar a atividade econômica.

Segundo ela, os indicadores de confiança produzidos pela FGV já indicam as dificuldades do governo para tocar as reformas e começam a comprometer o desempenho da economia em todo o primeiro semestre.

“Estamos terminando mal o primeiro trimestre e não estamos começando bem o segundo”, afirma.

O que está acontecendo com a indústria brasileira? 

A gente esperava um resultado ruim, mas não esse resultado. Separamos a indústria em dois grandes grupos: a indústria de transformação, que tem um peso maior, mas nós tivemos também um péssimo desempenho da indústria extrativa. Tirando o efeito Brumadinho, o resultado mais relevante é a indústria de transformação.

Ela vinha sofrendo já resultado ruim desde meados do ano passado e havia alguma explicação externa, principalmente com a redução das importações da Argentina, que teve efeito bem severo, por exemplo, nas exportações de automóveis. 

Mas nesse primeiro trimestre o componente novo é a fraqueza da demanda doméstica. É uma novidade e temos que olhar com mais cuidado. Não é uma questão pontual, mas realmente uma piora no desempenho da demanda doméstica, tanto do consumo das famílias como do investimento.

O que explica essa fraqueza? 

Do lado do investimento, uma variável importante é a expectativa do futuro. A gente tem visto uma incerteza muito grande sobre o futuro, uma piora na avaliação da capacidade de o governo aprovar reformas. Esse cenário mais confuso, levando à discussão das reformas lá para o segundo semestre, tornou o primeiro semestre um período de esperar para ver.

Havia uma expectativa muito grande, talvez um excesso de otimismo, de que haveria início da recuperação do investimento. Mas há hoje uma decepção grande, e os investimentos foram postergados. Vemos queda da produção e na importação de bens de capital. Ou seja, o investimento realmente vai ser negativo no primeiro trimestre. 

Temos também piora de perspectiva de contratação. Lembro-me das empresas reportando que havia perspectiva de crescimento do emprego. Isso se frustrou diante da demanda doméstica fraca. A gente até tem uma recuperação do emprego, mas a composição do emprego continua muito informal, que tem não só menor renda mas risco maior. E isso também dificulta o cenário do consumo das famílias. Não podemos esquecer também a aceleração da inflação, que também limita o crescimento. 

O fim da crise foi impulsionado por exportações. A demanda interna pode compensar os problemas externos? 

A demanda externa foi muito importante no processo de saída da recessão. E é interessante notar que a gente viu no ano passado um recuo da demanda externa e uma melhora da demanda interna, ainda que num patamar muito baixo. Só que, em março, a avaliação é que a demanda interna está muito fraca.

Houve uma perspectiva de melhora que se reverteu. Isso se mostra muito forte nas avaliações 
de março e abril da sondagem [da FGV]. Ou seja, a demanda interna está bem aquém da avaliação dos industriais. O início de 2018, foi um período muito bom para a indústria, de crescimento muito forte, mas puxado pela demanda externa, com a demanda interna se recuperando. 

Desde a greve dos caminhoneiros, porém, a economia brasileira teve um grande choque e de lá para cá não temos bons resultados.

Dá para ver luz no fim do túnel?

Olhando hoje os dados de curto prazo, dá uma sensação muito ruim do ponto de vista da indústria. Eu não consigo imaginar uma recuperação da demanda externa. A Argentina tem se mostrado até pior do que a gente imaginava e o mundo está num momento de redução do comércio mundial. Acho que do lado externo, teria que ter novos acordos comerciais, coisas difíceis de resolver no curto prazo. Então a solução tem que vir da demanda interna. A gente precisa de volta da confiança para ter mais investimentos, mais empregos, mais renda. Para a indústria, eu diria que a situação está mais desafiadora.

Como isso vai impactar o resultado do PIB?

A gente enxerga neste início de ano uma dicotomia entre a indústria de transformação e setores de serviços e comércio. Há um desempenho um pouquinho melhor de serviços, e isso vai ser visto no PIB —só que não sabemos a magnitude. De qualquer forma, nossa visão é que o PIB vai ter essa dicotomia. E também investimento ruim e consumo mais forte. 

A questão é que isso não é sustentável se não houver melhora da confiança dos empresários e do consumidor. O consumidor está realmente muito mal-humorado, com a questão do emprego, da inflação de curto prazo. A gente precisa dar um choque de confiança. No curtíssimo prazo, a ideia é ter pelo menos a sensação de não estar perdendo tempo. A gente passou os quatro primeiros meses com a sensação de que gastou muito tempo para coisas que deveriam ter sido conduzidas de forma melhor. Uma desorganização grande do governo, a dificuldade para tocar a agenda no Congresso, uma fraqueza na condução política... 

O governo tem sofrido, mostrando que as grandes batalhas vão ser mais difíceis do que o esperado.

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