BNP Paribas não descarta estagnação da economia no segundo trimestre

Banco francês já havia cortado projeção do PIB de 2019 para 0,8%

Anaïs Fernandes
São Paulo

O banco francês BNP Paribas também está preocupado com os rumos da economia brasileira no segundo trimestre deste ano, após o Itaú Unibanco sinalizar na véspera que os primeiros dados do período não têm sido muito bons

O mercado já atingiu praticamente o consenso de que os números do PIB (Produto Interno Bruto) para os três primeiros meses de 2019, que serão divulgados nesta quinta-feira (30) pelo IBGE, apontarão uma retração.

O BNP projeta queda de 0,3% no período e não descarta um segundo trimestre também fraco. Por enquanto, vê ligeiro avanço de 0,2%, com risco de que seja abaixo disso.

"Os últimos números de maio não são muito animadores. É possível que tenha havido alguma estagnação no segundo trimestre", disse José Carlos Faria, economista-chefe para América Latina do BNP Paribas, a jornalistas nesta quarta-feira (29).

Ele diz se preocupar com indicadores de produção industrial e também com índices de confiança, como do varejo e serviços, construção civil e consumidores. 

"Houve deterioração significativa desses indicadores de confiança em maio e isso é bastante preocupante", afirmou.

O BNP Paribas já havia anunciado um corte significativo em sua projeção para o PIB de 2019, de 2% para 0,8%, abaixo do 1,1% do ano anterior. Também reduziu a expectativa para 2020 de 3% para 2,5%.

Para atingir o singelo crescimento de 0,8%, diz o BNP, o desempenho da economia precisaria acelerar para 0,5% no terceiro trimestre e 0,7% no último. "Mesmo para chegar no 0,8% precisamos de uma recuperação forte, muito mais acelerada no segundo semestre do ano", diz Faria.

O cenário, no entanto, não tem apontado para esse caminho.

"Vemos as vendas do varejo enfraquecendo, a produção industrial significativamente baixa e o desemprego caindo, mas a uma velocidade lenta e também com uma qualidade de recuperação ruim, baseada em empregos transitórios e de baixa remuneração", disse o economista.

Assim como o Itaú, o BNP Paribas também vê a inflação controlada —apesar de o banco francês reforçar os riscos de uma tendência altista com a febre suína na China aumentando a demanda doméstica por carnes— e espaço para redução nos juros.

Para o BNP, o Banco Central deve cortar a Selic (taxa básica de juros) três vezes a partir de setembro, o que levaria a taxa dos atuais 6,5% ao ano para 5,75%, mesma projeção do Itaú.

"Provavelmente o BC vai esperar o resultado da reforma da Previdência, o que faz sentido, porque promover um corte de juros sem a reforma é um risco considerável e poderia até elevar as taxas de longo prazo", afirma o economista.

O banco trabalha com a perspectiva de que a reforma da Previdência será aprovada até outubro, mas com um volume de economia em dez anos menor do que o proposto pelo governo —algo entre R$ 500 bilhões e R$ 600 bilhões, contra R$ 1,2 trilhão do projeto original.

O anúncio de um pacto entre os três poderes animou o mercado financeiro. Os economistas, porém, têm sido mais cautelosos. 

"Não acredito que esse pacto altere significativamente o cenário daqui para frente. Ao longo da história brasileira observamos outras tentativas do tipo. O que precisamos ver é uma movimentação mais rápida na aprovação da reforma da Previdência e a mais próxima possível do original", disse Faria.

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