Crédito à pessoa física impulsiona resultado dos bancos no 1º trimestre

Maior oferta em linhas como cartão e empréstimo pessoal compensa alta mais tímida para empresas

Tássia Kastner
São Paulo

Nem o desemprego persistente e a dificuldade de retomada da economia foram suficientes para inibir grandes bancos na concessão de empréstimos à pessoa física no primeiro trimestre do ano.

Foi a estratégia de ampliar a oferta em linhas como cartão de crédito e empréstimo pessoal que garantiu o crescimento do lucro das quatro maiores instituições financeiras do país que têm capital aberto.

Nesta quinta (9), o Banco do Brasil divulgou que sua carteira de crédito subiu 7,7% em 12 meses, menos que a de seus concorrentes, sob reflexo da queda nos empréstimos para empresas. O BB foi o último a informar os dados de janeiro a março, após Bradesco, Itaú e Santander.

A alta menor na carteira de crédito do BB foi causada por uma uma liquidação antecipada de um empréstimo de uma grande companhia, sem que houvesse demanda de uma nova empresa para sustentar o volume de crédito.

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Gabriel Cabral/Folhapress

Houve, porém, uma expansão nos empréstimos para pessoa física. Só os desembolsos de crédito pessoal subiram 182%, levando a carteira total a avançar 86%. No caso do cartão de crédito, a expansão da carteira foi de 11%.

“Realmente a economia não tem ajudado, e a gente está um pouco aquém no crédito para pessoa jurídica de uma maneira geral, mas não abrimos mão ainda da meta”, disse Rubem Novaes, presidente do BB.

Nos outros bancos, crédito pessoal e cartão também foram responsáveis por puxar a expansão do crédito. Como são consideradas mais arriscadas, porque não têm garantia, as instituições conseguem impor juros maiores —o rotativo do cartão, cobrado de clientes que não conseguem quitar a fatura mensal integralmente, tem o segundo juro mais caro do sistema financeiro.

“Quando as pessoas estão com menos renda e mais restrição econômica, elas tendem a se alavancar porque elas precisam, de alguma forma, financiar o consumo”, afirma Joelson Sampaio, coordenador do curso de economia da FGV EESP.

O BB atuava com mais timidez nesses segmentos e tinha como foco servidores públicos que recebem no banco e oferecem menos risco. Passa, porém, por um processo de transformação, tentando atrair profissionais liberais.

“Por causa desse movimento, a gente começa a observar os grandes saltos nessas carteiras”, afirma Marcelo Labuto, vice-presidente do BB.

No Santander, a carteira de crédito para pessoa física avançou 22%, e os empréstimos a empresas tiveram taxa menor de expansão, 14%. Boa parte do crescimento ocorreu a pequenas e médias empresas.

Quem cresceu foi a linha de crédito pessoal consignado e cartão, ambas a taxa de 25%.

Sérgio Rial, presidente do banco, projetou que a carteira de crédito terminaria o ano em R$ 400 bilhões, o que representaria alta de menos 4% —o banco não fixa metas anuais de desempenho.

Ao dizer isso, enfatizou falta de demanda de companhias.

Quando detalharam os resultados de 2018, entre janeiro e fevereiro, os presidentes dos quatro bancos ainda vendiam otimismo com a retomada da economia e apostavam que, se a carteira de crédito de grandes empresas não avançasse, seria porque elas estariam se financiando no mercado de capitais.

Octavio de Lazari, presidente do Bradesco, chegou a dizer que os projetos já estavam saindo da gaveta e indo para cima da mesa dos empresários.

Passados três meses, os números mostraram que isso não ocorreu. As receitas de prestação de serviço de crédito e de emissões no mercado de capitais recuaram. Na prática, o crédito que gira no mercado é mínimo.

No caso do Bradesco, as carteiras crédito de PF e PJ cresceram a uma mesma taxa, 13%, porque no segmento de grandes empresas o banco fechou negócios de oportunidade, disse Lazari.

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