CVM condena Eike a pagar multa de R$ 536 mi por informação privilegiada na OGX

Empresário passou a ser investigado após reportagem da Folha evidenciar que administradores da petroleira sabiam desde 2012 que poços eram inviáveis

Raquel Landim
Rio de Janeiro

A CVM (Comissão de Valores Mobiliários) condenou nesta segunda-feira (27) o empresário Eike Batista a pagar multa de R$ 536 milhões por crime de “insider trading” ao negociar ações da petroleira OGX de posse de informação privilegiada.

Ele também está proibido por sete anos de atuar como administrador de companhia aberta ou no conselho fiscal. A decisão foi unânime e será comunicada ao Ministério Público Federal. A defesa ainda pode contestar os valores da multa e o prazo da pena.

A CVM passou a investigar o caso após uma reportagem da Folha de novembro de 2013 mostrar que os administradores da OGX sabiam, desde julho de 2012, que as reservas da petroleira não correspondiam ao que havia sido divulgado ao mercado.

No processo, cuja conclusão demorou mais de cinco anos, Eike foi investigado pelos crimes de prática de insider trading, por vender ações quando dispunha de informação sobre as dificuldades da empresa e manipulação de preço ao estimular os investidores a manter os papéis da petroleira.

Na época, ele publicou mensagens em seu Twitter, que tinha mais de 1,3 milhão de seguidores, exortando os acionistas a manter os papéis, enquanto sabia que os principais campos de petróleo de sua empresa não eram viáveis.

“As condutas de Eike violam gravemente o mercado de capitais e fulminam a confiança dos investidores”, disse Henrique Machado, diretor da CVM e relator do caso. Outros dois conselheiros e o presidente da CVM acompanharam o voto do relator.

O valor da multa foi considerado baixo pelos especialistas, pois representa um múltiplo de 2,5 da vantagem obtida por Eike com a venda dos papeis. Em média, a CVM tem aplicados sanções em torno de 3 vezes o lucro apurado, que é o limite máximo permitido por lei.

“A pena foi baixa. Há indícios de que Eike também operou por meio de terceiros, vendendo ações a descoberto. De toda forma, é uma decisão importante, porque vai balizar os processos criminais em curso”, diz Aurélio Valporto, presidente da Abradin (Associação Brasileira de Investidores).

Fundada em 2007, a OGX participou de rodada de licitações da ANP (Agência Nacional de Petróleo), adquirindo blocos situados na bacia de Campos. Em 2008, a companhia abriu seu capital na Bolsa de Valores de São Paulo, captando cerca de R$ 6,7 bilhões.

As primeiras dúvidas sobre a viabilidade da petroleira vieram a público em março de 2013, quando a empresa anunciou publicamente uma queda expressiva na produção do campo de Tubarão Azul, detonando uma crise de confiança no mercado.

A reportagem da Folha mostrou, todavia, que a diretoria da petroleira já tinha evidências de que algo não ia bem desde julho de 2012. Na ocasião, houve um intenso embate entre os técnicos de diferentes áreas da empresa sobre as reservas dos seus campos mais promissores: Tubarão Tigre, Tubarão Gato e Tubarão Areia.

Por determinação do então presidente da companhia, Luiz Carneiro, foi criado um grupo de trabalho, com participação da renomada consultoria Schlumberger, para avaliar a viabilidade dos campos.

O estudo foi apresentado à cúpula da empresa em setembro de 2013 e apontava reservas entre 49,5 milhões e 77,7 milhões de barris de óleo equivalente. Em qualquer cenário, o desenvolvimento dos campos era inviável, porque geraria um prejuízo de R$ 1 bilhão.

O último dado divulgado ao mercado pela OGX sobre os campos citados era de 13 de maio de 2010 e estimava reservas muito superiores: entre 1,4 bilhão e 2,6 bilhões de barris de petróleo equivalente.

Ainda assim, a OGX optou por não informar nada ao mercado e promover estudos adicionais. Em março de 2013, a empresa declarou a comercialidade dos campos à ANP, estimando um volume de petróleo entre 521 milhões e 1.339 bilhão –abaixo do previsto em 2010, mas muito acima do estudo da Schlumberger.

Apenas em 1 de julho de 2013, portanto, dez meses depois que a informação chegou à cúpula da empresa, a OGX informou ao mercado que não tinha tecnologia disponível para explorar os campos e que suas avaliações anteriores deveriam ser descartadas.

Eike foi condenado por vender ações de posse de informação privilegiada em dois momentos. Entre 24 de maio de 2013 e 10 de junho de 2013, o empresário se desfez de papéis no valor de R$ 197 milhões –antes, portanto, do fato relevante sobre a inviabilidade dos campos.

A defesa do empresário disse que a venda dos papéis foi feita para quitar uma dívida com o fundo soberano Mubadala, sem intenção de lucrar com a venda. “Não teve malandragem, má fé, ou intenção de usar informação privilegiada”, diz o advogado Ricardo Loretti.

A CVM não aceitou os argumentos e afirmou que Eike negociou com a Mubadala a liberação das ações que havia dado como garantia para vendê-las e que poderia ter utilizado outras alternativas para quitar sua dívida.

A segunda acusação de insider trading refere-se a ao período de 28 de agosto de 2013 a 3 de setembro de 2013, quando Eike vendeu R$ 111 milhões em ações da OGX e R$ 24,8 milhões de papéis da OSX (estaleiro). A alienação dos papéis foi feita antes de a OGX divulgar que o empresário não aportaria R$ 1 bilhão para salvar a companhia, como havia sido prometido.

Manchete da Folha de 3 de novembro de 2013 diz "OGZ sabia em 2012 que poderia ter lucro menor"
Manchete da Folha de 3 de novembro de 2013 revelava caso contra Eike - Reprodução
 
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executivos Eike
Raquel Landim de Oliveira
Você respondeu em 27/05/2019 16:55.
Enviado: segunda-feira, 27 de maio de 2019 16:53
Para: l-fol-mercado
 

Caros, O julgamento dos executivos da OGX não foi conclusivo Favor tirar do final da matéria a informação de que o julgamento está em curso e acrescentar os parágrafos abaixo. Anotei bastante material sobre os votos e faço a matéria de SP, qdo concluírem a votação mais pra frente. bjs Raquel

A CVM também iniciou nesta segunda-feira (27) o julgamento de sete ex-executivos da OGX, mas não houve conclusão.

O presidente da autarquia, Marcelo Barbosa, pediu vistas do caso e prometeu retomar a apreciação nos próximos quinze dias.

Os executivos são acusados de omitir as informações sobre a inviabilidade dos campos nas demonstrações financeiras da empresa e também de divulgar uma profusão de fatos relevantes entre 2009 e 2012 sobre as alegadas reservas da empresa com o objetivo de incentivar os investidores a comprar os papéis.
 

 
 
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