Dólar fecha acima de R$ 4 pela primeira vez desde 1º de outubro

Bolsa recua abaixo de 90 mil pontos durante o pregão, mas recupera o patamar no fechamento

Júlia Moura Tássia Kastner
São Paulo

O dólar fechou nesta quinta-feira (16) acima dos R$ 4, voltando ao maior patamar desde 1º de outubro, quando a disputa eleitoral concentrava as atenções dos investidores.

O otimismo que havia no mercado com uma guinada liberal na economia vai se esvaindo à medida que o presidente Jair Bolsonaro (PSL) acirra ânimos e se distrai da agenda político-econômica, considerada crucial para a recuperação do país.

A moeda americana encerrou a R$ 4,038%, alta de 1%.

A Bolsa é outro termômetro importante do ceticismo que se instalou: fechou em queda de 1,74%, a 90.024 pontos, no menor patamar do ano. Parte da queda desta quinta foi causada pela Vale. A companhia tem forte peso no Ibovespa, o principal índice acionário do país, e recuou mais de 3% com o risco de rompimento de uma barragem.

Neste ano, a Bolsa brasileira tem alta acumulada de 2,43%, percentual menor do que o ganho registrado apenas no dia 2 de janeiro, o primeiro dia útil após a posse do presidente.

Bolsa atinge pior patamar desde 3 de janeiro - France Presse- AFP

A modesta valorização contrasta com a euforia que levou o Ibovespa para perto dos 100 mil pontos ainda em março. Desde então, a queda é de quase 10%.

“Adoraria dizer que a queda é momentânea. Mas aí estou passando da posição de observador para a de torcedor. O que a gente está experimentando é o gosto amargo de realidade versus expectativa”, afirma George Wachsmann, gestor da Vitreo.

O mal-estar recente de investidores é com a opção pelo caminho do conflito, agravada por Bolsonaro após as manifestações contra cortes no orçamento da educação. Foi o que levou milhares de pessoas às ruas na quarta-feira (15).

Segundo Wachsmann, porém, gestores ainda não estão alterando seus planos de investimento. Na prática, apesar do otimismo, eles contavam com turbulências ligadas à dificuldade de articulação política do presidente.

Nesta quinta, não foram divulgados dados econômicos relevantes, tampouco notícias que sinalizem trégua e foco na reforma da Previdência –o mantra do mercado financeiro.

De Dallas, Bolsonaro voltou a ironizar os protestos, um dia após chamar manifestantes de “idiotas úteis”.

"Ontem [quarta], vimos algumas capitais de estados com marchas pela educação, como se a educação até o fim do ano passado fosse uma maravilha no Brasil”, afirmou o presidente.

Para o mercado financeiro, foi um termômetro de que o presidente não entendeu a insatisfação popular com menos de cinco meses no cargo e popularidade minguante.

“Por mais que o governo esteja tentando minimizar, foi uma manifestação forte, e o governo não está buscando amenizar a tensão. Está batendo de frente”, diz Victor Beyruti, membro da equipe de análise da Guide Investimentos.

Ele destaca que o único gesto de conciliação e foco na reforma da Previdência veio de Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara dos Deputados. Maia afirmou que quer aprovar a reforma independentemente do apoio do governo.

O problema é que o congressista apareceu em um inquérito que investiga pagamento de propina a ele pela companhia aérea Gol para liberação de empréstimo na Caixa, afirma Fabrizio Velloni, chefe da mesa de operações da Frente Corretora.

 

“Se tivermos alguma aprovação da reforma, será responsabilidade do Maia. A articulação é dele. Se este inquérito [contra ele] for mais a fundo, afeta muito”, diz Velloni.

Bolsonaro tampouco consegue articular uma base no Congresso para a aprovação de projetos mais simples, como a abertura do mercado de companhias aéreas para 100% de capital estrangeiro ou a reforma administrativa, que enxugou ministérios.

Os projetos foram apresentados por Medida Provisória, que expira em 120 dias -o prazo está perto do vencimento nos dois casos.

Congressistas dos partidos do chamado centrão sinalizaram nesta quinta que a próxima semana poderá ser de novas derrotas ao governo, caso não haja articulação política.

Enquanto isso, vai piorando o ambiente macroeconômico. O PIB (Produto Interno Bruto) do primeiro trimestre será conhecido no dia 30 de maio, e as projeções indicam queda.

As revisões para o crescimento econômico do ano reduzem dia a dia, e já há no mercado quem estime alta de menos de 1%. Em 2017 e 2018, o PIB avançou 1,1% ao ano.

“O governo não apresenta medidas efetivas que possam melhorar a economia. O problema não é a reforma da Previdência, o problema é o déficit fiscal”, afirma Pedro Coelho Afonso, economista-chefe da PCA Capital.

“Se gasta mais do que arrecada. Você pode acertar isso com a reforma e corte de gastos, alguma coisa tem de ser feita”, diz.

Estrangeiros também estão mais preocupados com o baixo crescimento do país e com os ruídos políticos em Brasília.

Eles afirmaram que a onda de otimismo pós-eleição não contemplou o risco político na articulação pela reforma e devem segurar o retorno ao país.

A retirada de recursos da Bolsa voltou a ganhar força em maio, e estrangeiros sacaram R$ 3,3 bilhões no acumulado do ano.

“O histórico do investimento estrangeiro é: ‘Eu acreditei e não aconteceu. Eu prefiro perder a primeira meia hora de festa, mas só chegar quando tiver certeza de que vai ter festa’”, diz o gestor da Vitreo.

Investidores contavam com a reforma durante o governo Michel Temer (MDB), frustrada em maio de 2017 após a divulgação de uma gravação comprometedora entre o presidente e o empresário Joesley Batista.
O dia seguinte, conhecido como Joesley Day, completa dois anos no sábado (18).

 
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