Grandes empresas de tecnologia dos EUA começam a cortar suprimentos da Huawei

Na sexta-feira, o governo Trump colocou copmanhia chinesa na lista negra

Londres, San Francisco e Washington | Bloomberg

O impacto das ameaças do governo Trump de sufocar a chinesa Huawei reverberou pelas cadeias mundiais de suprimento na segunda-feira (20), atingindo alguns dos maiores fabricantes mundiais de componentes.

Fabricantes de chips como a Intel, Qualcomm, Xilinx e Broadcom informaram aos seus empregados que suspenderão o fornecimento de produtos à Huawei até segunda ordem, de acordo com pessoas informadas sobre suas decisões. O Google cortou a oferta de hardware e alguns serviços de software à gigante chinesa, disse outra pessoa informada, pedindo que seu nome não fosse mencionado por estar discutindo assuntos confidenciais.

Na sexta-feira (17), o governo Trump colocou a Huawei na lista negra –acusando-a de ajudar a espionagem do governo chinês–, e ameaçou impedir que a empresa obtenha o software e os semicondutores americanos de que necessita para fabricar seus produtos. A exclusão, que havia sido prevista, vai prejudicar as operações da maior fornecedora mundial de equipamento para redes e segunda maior fabricante de smartphones do planeta.

Mulher segura smartphone em frente ao logo da Huawei
Após decreto de Trump, Google corta laços com a Huawei - Wang Zhao/AFP

O impacto da medida também começou a se fazer sentir fora dos Estados Unidos e da Ásia. A Infineon Technologies, da Alemanha, registrou queda em suas ações na abertura do mercado, segunda-feira, depois que o jornal japonês Nikkei reportou que ela havia suspendido seus embarques para a companhia chinesa como resultado da proibição americana. As ações da STMicroelectronics e da AMS, da Áustria, também sofreram.

A Huawei anunciou que continuará a oferecer atualizações de segurança e serviços de vendas aos seus clientes, de acordo com um comunicado da empresa na segunda-feira.

Bloquear a venda de componentes essenciais para a Huawei também poderia prejudicar os negócios de gigantes dos chips americanos como a Micron Technology, e retardar –no mercado internacional e também na China– o lançamento das redes de telefonia móvel 5G, vistas como essenciais. Isso por sua vez prejudicaria empresas americanas que dependem cada vez mais da segunda maior economia do planeta para seu crescimento.

Se for plenamente implementada, a decisão do governo Trump poderia ter efeitos colaterais em todo o setor mundial de semicondutores. A Intel é a principal fornecedora de chips para os servidores da companhia chinesa. A Qualcomm fornece os processadores e modems usados em muitos de seus smartphones, a Xilinx vende chips programáveis usados em equipamentos para redes e a Broadcom fornece os chips comutadores, outro componente-chave em diversos equipamentos para redes da Huawei. Representantes dos fabricantes de chips se recusaram a comentar.

A Huawei "depende pesadamente de semicondutores fabricados nos Estados Unidos e poderia se ver paralisada sem o fornecimento de componentes americanos essenciais", disse Ryan Koontz, analista da Rosenblatt Securities. As medidas americanas "podem levar a China a postergar o seu desenvolvimento de redes 5G até que a exclusão seja suspensa, e isso teria impacto sobre muitos fornecedores mundiais de componentes".

Uma série de títulos da Huawei em valor de US$ 500 milhões (R$ 2,05 bilhões), com vencimento em 2027, caiu em três centavos de dólar, e estava sendo negociada a US$ 0,93 (93,8% de seu valor de face) às 14h, em Hong Kong, de acordo com preços compilados pela Bloomberg. Os títulos já tinham registrado uma queda recorde de US$ 0,024 dólar na sexta-feira. A entrada das medidas americanas em vigor também abalou as ações das companhias que fazem parte da cadeia de suprimento do setor de tecnologia asiático, na segunda-feira. O Sunny Optical Technologies Group voltou a apresentar o pior desempenho no Índice Hang Seng, da bolsa de valores de Hong Kong, e a Luxshare Precision Industry mostrou queda de até 9,8% na bolsa de valores de Shenzhen.

A Huawei parece ter acumulado um estoque de chips e outros componentes suficiente para manter seus negócios em funcionamento por pelo menos três meses. A companhia está se preparando para esse tipo de situação desde pelo menos a metade de 2018, acumulando componentes e projetando chips próprios, disseram pessoas informadas sobre o assunto. Mas os executivos da Huawei acreditam que ela tenha se tornado moeda de troca nas negociações de comércio entre a China e os Estados Unidos, e que poderão retomar suas compras de componentes de fornecedores americanos se um acordo comercial for atingido, eles dizem.

As medidas das empresas americanas provavelmente causarão nova escalada das tensões entre Washington e Pequim, e isso intensifica o medo de que o objetivo do presidente Donald Trump seja cercear o crescimento da China, o que poderia deflagrar uma guerra fria prolongada entre as duas maiores economias do planeta. Além da disputa comercial que vem abalando os mercados mundiais há meses, os Estados Unidos vêm pressionando tanto aliados quanto adversários para que evitem usar produtos da Huawei na montagem das redes 5G que formarão a espinha dorsal da economia moderna.

"O cenário extremo, de falência da divisão de telecomunicações da Huawei, causaria um recuo de muitos anos para a China, e poderia ser visto como ato de guerra por Pequim", escreveu Koontz. "Uma situação como essa poderia ter implicações imensas para o mercado mundial de telecomunicações".

Os chefes dos serviços de espionagem dos Estados Unidos informaram empresas, investidores e outros grupos importantes, nos últimos dias, sobre os perigos de fazer negócios com a China, noticiou o jornal Financial Times na segunda-feira.

A ação americana também representa um revés direto para a divisão de serviços móveis da Huawei, que vinha crescendo rapidamente. A Huawei só terá acesso à versão pública do sistema operacional Android, do Google, o mais popular software para smartphones do planeta. Não poderá oferecer apps e serviços exclusivos de mapas e busca da companhia, ou o Gmail, disse uma fonte, que falou sob a condição de que seu nome não fosse revelado por estar discutindo um assunto confidencial. Isso prejudicará seriamente as vendas de smartphones da Huawei no exterior, ainda que não se saiba se esses apps - populares principalmente fora da China - ficarão indisponíveis.

A Huawei, segunda maior fabricante mundial de smartphones, atrás apenas da Samsung Electronics, estava entre os parceiros preferenciais que recebem acesso antecipado a novos softwares e recursos do sistema Android. Fora da China, essas parcerias são vitais para que o gigante das buscas difunda seus apps para os usuários, reforçando suas operações de publicidade móvel.

A empresa chinesa continuará a ter acesso a atualizações de segurança e de apps que se apliquem à versão de fonte aberta do Android. A Reuters já havia noticiado a decisão. "Estamos cumprindo a ordem e revisando suas implicações", disse um representante do Google, sem acrescentar detalhes.
 
Bloomberg, tradução de Paulo Migliacci

Ian King, Mark Bergen e Ben Brody
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