Negociação comercial entre China e EUA termina sem acordo

Ações sobem depois que o presidente Trump diz que 'conversações' vão continuar

Os Estados Unidos e a China não conseguiram chegar a acordo sobre sua disputa comercial, em negociações realizadas na sexta-feira (10), mas o presidente Donald Trump declarou que as "conversações" com Pequim continuariam, agora com tarifas mais altas em vigor sobre US$ 200 bilhões em produtos chineses.

A declaração de Trump no Twitter ajudou a acalmar os mercados financeiros, que oscilaram durante o dia enquanto os investidores aguardavam o resultado das negociações. O índice S&P 500, a referência do mercado de ações dos Estados Unidos, que chegou a cair em 1,6%, fechou com alta de 0,4%.

Uma pessoa informada sobre as negociações disse que a China não cedeu muito terreno quanto aos principais entraves, mas que os dois lados sentiam a necessidade de administrar as expectativas do mercado e de evitar a percepção de um rompimento completo. Nenhuma das duas partes anunciou onde ou quando a próxima rodada de negociações ocorreria.

"No curso dos dois últimos dias, os Estados Unidos e a China tiveram conversações francas e construtivas quanto ao status do relacionamento comercial entre eles", tuitou Trump depois do segundo dia de conversações em Washington.

"O relacionamento entre o presidente [chinês] Xi Jinping e eu continua muito forte, e no futuro as conversações continuarão. Enquanto isso, os Estados Unidos impuseram tarifas à China, que podem ou não ser removidas a depender do que aconteça com respeito a futuras negociações".

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Vice-premiê chinês, Liu He, acena ao deixar a reunião com o representante comercial dos EUA, Robert Lighthizer, e com o secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, em Washington, EUA - Leah Millis/Reuters

As conversas entre as duas partes haviam sido retomadas na sexta-feira, depois que Trump elevou as tarifas sobre US$ 200 bilhões em bens chineses de 10% para 25%.

"As discussões entre as duas partes foram construtivas, isso é tudo que diremos. Obrigado", disse Steven Mnuchin, secretário do Tesouro americano, depois de sua conversa com Liu He, primeiro-ministro assistente da China. Liu disse que as negociações haviam transcorrido "razoavelmente bem", de acordo com a Bloomberg News.

Mais cedo, no Twitter, Trump havia adotado um tom otimista sobre as negociações, declarando que elas estavam transcorrendo "em clima amistoso", embora acrescentasse que "não há qualquer necessidade de pressa".

Mas a decisão do presidente americano de elevar as tarifas sobre US$ 200 bilhões em produtos chineses tornou a situação muito mais complicada para os dois países. As perspectivas econômicas e os mercados financeiros dos Estados Unidos e da China vinham se comportando melhor que o esperado, nos últimos meses, mas muitos economistas temem que esses avanços sejam colocados em risco caso a guerra comercial se intensifique.

Ao adotar uma postura mais agressiva, nos últimos dias, o governo Trump parecia mais preocupado com as consequências para os agricultores americanos, que são parte essencial da base política do presidente e foram pesadamente atingidos pela disputa com a China. Trump disse que governo americano "compraria produtos agrícolas de nossos Grandes Agricultores, em quantidade muito maior do que os chineses já fizeram" - prenunciando uma grande rodada de subsídios do Estado ao setor agrícola dos Estados Unidos.

Nos últimos 12 meses, os agricultores americanos já sentiram uma pesada queda nas exportações à China, devido à guerra comercial, e vêm pedindo ao governo que chegue a um acordo com Pequim. No ano passado, o governo Trump anunciou um pacote de US$ 12 bilhões em assistência aos agricultores, para evitar reações políticas adversas, mas até esta semana vinha descartando novas medidas de apoio.

"@POTUS [Trump] não vacila em seu apoio aos agricultores americanos, e instruiu @USDA [Departamento da Agricultura] a preparar um plano rapidamente. @POTUS ama seus agricultores e não vai deixá-los na mão", tuitou Sonny Perdue, o secretário da agricultura dos Estados Unidos, na manhã de sexta-feira.

Em Pequim, o Ministério do Comércio declarou "lamentar profundamente" a decisão do presidente americano de colocar em prática suas ameaças tarifárias, e repetiu sua promessa anterior de "adotar as contramedidas necessárias".

Na quinta-feira, Trump disse que esperava falar "em breve" com Xi, mas não surgiram informações de qualquer contato, na sexta-feira.

O presidente americano decidiu levar adiante a imposição de tarifas mais altas no domingo passado, quando acusou a China de recuar quanto a compromissos assumidos nas negociações, entre os quais a adoção de medidas específicas para proteger a propriedade intelectual americana.

Algumas organizações empresariais ficaram  muito insatisfeitas com a medida, em meio a temores de que seus custos subam e de que tenham de transferir parte da carga aos consumidores.

"Não acreditamos que tarifas amplas e unilaterais sejam a abordagem certa. Instamos o presidente a negociar soluções para as questões pendentes há muito tempo com a China, reduzir as tensões econômicas e cancelar imediatamente as tarifas", disse Kip Eideberg, vice-presidente de relações com a indústria e o governo na Associação dos Fabricantes de Equipamentos dos Estados Unidos. Mas outros líderes atribuíram parte da culpa à China.

"Continuamos profundamente preocupados com recentes indicações de que a China está abandonando alguns dos progressos realizados até o momento", disse Myron Brilliant, diretor de assuntos internacionais da Câmara de Comércio dos Estados Unidos. "A comunidade de negócios dos Estados Unidos urge a administração e o governo chinês a avançarem rápido e de boa fé para chegar a um acordo de alto nível, abrangente e aplicável, cancelando as tarifas em vigor. Prolongar as tensões comerciais e a escalada das tarifas não serve aos interesses de nenhum dos países".

As tarifas mais altas anunciadas pelos Estados Unidos só se aplicarão a bens chineses embarcados da sexta-feira em diante —não há produtos em rota ou desembarcados nos Estados Unidos.

A maior parte do comércio entre as duas maiores economias do planeta é transportado de navio através do Pacífico, isso dá às duas partes algum tempo adicional ——até o final do mês para negociar um acordo.

Trump impôs uma tarifa inicial de 25% sobre US$ 50 bilhões em produtos industriais exportados pela China em julho do ano passado. Em setembro, ele anunciou uma tarifa de 10% sobre uma gama muito maior de produtos, em valor de cerca de US$ 200 bilhões ao ano.

Agora, essa segunda tarifa subirá para 25%. Além disso, Trump anunciou que os Estados Unidos dariam início à "papelada" para aplicar tarifas de 25% sobre todas as importações restantes de produtos chineses, em valor de US$ 325 bilhões.

"Na minha opinião, as tarifas são muito poderosas para o nosso país", disse Trump.

Embora alguns observadores acreditem que a escalada das tensões seja parte da coreografia para um futuro acordo, outros dizem que a quebra de confiança que surgiu esta semana foi grave a ponto de dificultar muito a busca de um compromisso —pelo menos em curto prazo.

"Não ouço coisa alguma a não ser pessimismo. É difícil ver como eles poderão retomar o acordo", disse Michael Smart, diretor executivo da consultoria Rock Creek Global Advisors, em Washington.

Financial Times, tradução de Paulo Migliacci

James Politi, Demetri Sevastopulo e Tom Mitchell

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