Pela primeira vez em dez anos, maio é positivo para a Bolsa

Ibovespa termina mês com alta de 0,7%, a 97 mil pontos; dólar tem queda e fecha a R$ 3,92

Júlia Moura
São Paulo

Pela primeira vez desde 2009, a Bolsa brasileira termina maio no azul. No mês, o Ibovespa acumulou alta de 0,7%, a 97 mil pontos. Mas, a maldição de maio tinha tudo para se repetir. Até o meio do mês, o índice acumulava a pior perda do ano, com a mínima de 89 mil pontos em 17 de maio

A montanha-russa se deve, em grande parte, à reforma da Previdência. Incertezas quanto a aprovação do projeto e a posterior confiança no Congresso movimentaram o mercado doméstico, que se decolou do exterior. Para as principais economias globais, o período foi de fortes quedas com a intensificação da guerra comercial entre China e Estados Unidos.

Gráfico na Bolsa de São Paulo
A Bolsa fechou o mês com alta acumulada de 0,7%. É o primeiro maio positivo em dez anos - AFP

“Parece que foi um mês bastante longo. Tivemos vários maios dentro do mês. O mercado externo foi muito conturbado, com o aumento de tensões entre China e EUA. No Brasil também tivemos o avanço das investigações de Flávio Bolsonaro e manifestações contrárias ao governo. Mas, o legislativo assumiu responsabilidade pela reforma e aliviou investidores”, afirma Glauco Legat, analista-chefe da Necton. ​

Em 13 de maio, teve início a investigação judicial contra o filho do presidente, Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), e a revelação de que Rodrigo Maia (DEM-RJ) foi citado em delação sobre suposto pagamento de propina por um sócio da companhia aérea Gol. No dia, a Bolsa brasileira despencou para 91 mil pontos.

Ao fim da mesma semana, em 16 e 17 de maio​, a Bolsa atingiu os piores patamares do ano e o dólar chegou a R$ 4,10. No período, o presidente Jair Bolsonaro (PSL-RJ) compartilhou um texto sobre as dificuldades de seu mandato dizendo que o Brasil é ingovernável sem os conchavos que ele se recusa a fazer.

Já o relator da reforma da Previdência na comissão especial, Samuel Moreira (PSDB-SP), disse que o governo Bolsonaro é "muito beligerante”. Por usa vez, o presidente da Comissão, Marcelo Ramos (PR-AM), afirmou que os líderes partidários poderiam apresentar uma proposta própria de alteração das regras previdenciárias.

Ainda no período, a agência de classificação de risco Fitch Ratings afirmou que apenas a reforma da Previdência não é suficiente para estabilizar endividamento, ou levar a uma revisão de rating positiva do país.

Foi após encerramento dos negócios de 17 de maio de 2017 que a delação de Joesley Batista fez o mercado virar. No dia seguinte, a Bolsa caiu 8,8% e o índice perdeu 6 mil pontos. Quando neste 2019, as datas coincidiram, investidores viram o risco do maio sangrento se repetir.

Mas, neste ano, depois da turbulência, investidores logo retomaram o otimismo e depositaram a confiança de uma nova Previdência no Congresso, independente da articulação do governo. A partir de 20 de maio o Ibovespa iniciou trajetória de alta, que culminou na volta aos 97 mil pontos.

O pacto entre os três poderes, acordado na segunda (27) acabou por impulsionar a alta do índice. Confiantes com o tom mais moderado de Bolsonaro e a promessa de Maia de votar a reforma até a segunda quinzena de julho, investidores voltaram a comprar.

“Ficou bem claro que a Bolsa andou bastante graças ao otimismo interno, já que o mês foi bastante complicado para os ativos globais. Basta uma boa notícia que os zé comprinhas aparecem”, afirma Victor Cândido, economista-chefe da Guide Investimentos. ​

O cenário mais positivo não foi o suficiente para atrair investidores estrangeiros. Em maio, o saldo de aportes estrangeiros é negativo em R$ 5,6 bilhões. No ano, há retirada de R$ 5,12 bilhões.

A alta de 0,7% no mês se aproxima do rendimento da renda fixa para o período, de, aproximadamente 0,5%. Em maio, o dólar terminou de lado, com variação de R$ 4,10 a R$ 3,92.

“A Bolsa mais barata também ficou muito atrativa. Junto à isso, o calendário da aprovação da reforma está mais claro”, afirma Karel Luketic, analista-chefe da XP investimentos. 

O analista vê os 100 mil pontos testados em março como o teto da margem de oscilação do mercado: a Bolsa deve continuar ao redor dos 95 mil pontos, estima. “Para superarmos esse patamar, precisamos de uma clara visibilidade de que a reforma vai ser aprovada na Câmara, mas isso fica só para julho e agosto”, diz Luketic.

Outro fator determinante para a alta da Bolsa é a expectativa de queda na taxa Selic. Com o recuo de 0,2% no PIB (Produto Interno Bruto) do primeiro trimestre e inflação controlada, economistas veem espaço para atuação do Banco Central após aprovação da reforma na Câmara. 

No exterior, maio foi o pior mês de 2019. Nos EUA, Dow Jones acumulou queda de 6,7%. S&P 500 e Nasdaq caíram 6,6% e 7,9%, respectivamente. O índice CSI 300, que reúne as Bolsas de Xangai e Shenzhen, teve 7,24% de queda.

A guerra comercial entre EUA e China se acentuou no período, com retaliações de ambas as partes. Americanos e chineses aumentaram tarifas de importações, e a Huawei, empresa chinesa de tecnologia, sofreu sanções do governo americano.

Nesta quinta (30), o presidente americano Donal Trump estendeu a disputa comercial ao México. Em retaliação aos imigrantes ilegais, os EUA taxará importações mexicanas em 5% a partir de 10 de junho.

O anúncio derrubou as principais Bolsas globais nesta sexta (31), que caíram cerca de 1,5%. 

O Ibovespa cedeu 0,43%, a 97.030 pontos. O giro financeiro foi de R$ 16 bilhões, dentro da média para o ano.

O petróleo também teve grande perda em maio. O barril tipo Brent acumulou desvalorização de 11,4% e terminou cotado a US$ 64,50. As reservas americanas aumentaram acima do previsto, o que derrubou o preço. As ações preferenciais (mais negociadas) da Petrobras tiveram queda de 2,06% nesta sexta, a R$ 25,61. As ordinárias (com direito a voto) caíram 1,97%, a R$ 28,28.

A maior baixa do índice foi a BRF, que cedeu 4,5%, a R$ 27,70. A companhia anunciou que negocia fusão com a concorrente Marfrig. Segundo analistas, o negócio pode ser prejudicial por envolver mercados e logísticas distintas. Em relatório, o BTG Pactual destaca "significantes riscos de execução e integração".

As ações da Marfrig tiveram 0,88% de alta, a R$ 6,84. Já a concorrente JBS teve queda de 1,97%, a R$ 21,83.

Com a condução coercitiva da cúpula do banco Santander, inclusive de seu presidente, Sergio Rial, pela CPI da Sonegação Tributária da Câmara Municipal de São Paulo, as units (grupos de ações) da instituição na Bolsa brasileira recuaram 1,12%, a R$ 45,58, maior queda dentre os bancos. A instituição financeira também foi afetada pelo aumento de tarifas americanas ao México, pois tem grandes operações no país. Na Espanha, os papéis do Santander caíram 2,42%, a € 3,95.

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